fonte: MedScape

Desde a aprovação do primeiro tratamento antineoplásico direcionado, há 20 anos, até hoje, mais de 100 medicamentos já foram aprovados ou estão em pesquisa. Estes produtos oferecem uma estratégia diferente do bombardeio da quimioterapia – são mísseis precisos, que miram alvos predeterminados da genética tumoral.

Mas quais são esses alvos? Em que tumores?

Há uma preocupação crescente entre oncologistas de que a enxurrada de informações sobre biomarcadores que vem os atingindo esteja causando confusão e fazendo com que os pacientes deixem de receber tratamentos eficazes.

Um novo banco de dados quer mudar tudo isso.

No mês passado, a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos concedeu seu primeiro reconhecimento de um banco de conhecimentos de oncologia de precisão que relaciona biomarcadores genéticos a tipos específicos de câncer – a Memorial Sloan Kettering Cancer Center’s Oncology Knowledge Base ( OncoKB ).

“As origens da OncoKB estão arraigadas no reconhecimento de que era pedir demais aos oncologistas para memorizarem o número cada vez maior de mutações tumorais específicas que podem agir como biomarcadores preditivos para tratamentos direcionados”, disse a Dra. Debyani Chakravarty, Ph.D., Cientista Chefe da OncoKB no Memorial Sloan Kettering Cancer Center for Molecular Oncology.

“Um sistema de apoio à decisão clínica para fornecer essas informações no local de atendimento era urgentemente necessário”, acrescentou a cientista.

OncoKB fez sua estreia pública em 16 de maio de 2017, com a publicação de um artigo pela Dra. Debyani e seus colaboradores no periódico JCO Precision Oncology. À época, o banco de dados apresentava níveis de evidência com curadoria humana de mais de 3.000 alterações em 418 genes associados ao câncer, para 19 tipos de câncer. Atualmente, a lista contém 5.685 alterações em 682 genes em 127 tipos de câncer.

Em outubro, a OncoKB se tornou o primeiro banco de dados de mutação tumoral a ser fazer parte do programa de reconhecimento de banco de dados da FDA.

Médicos e pesquisadores podem avaliar as evidências que relacionam combinações de câncer, biomarcadores genéticos e medicamentos por meio de uma interface simples.

“É difícil descobrir o que é ou não uma mutação acionável sem esse tipo de dado”, disse o biólogo Dr. Timothy Rebbeck, Ph.D., professor de prevenção de câncer no Dana-Farber Cancer Institute nos EUA, que foi convidado a comentar para o Medscape.

O Dr. Timothy disse que o aceno da FDA para a OncoKB faz sentido, afirmando que, diante das implicações terapêuticas dessas mutações, o envolvimento da FDA faz-se relevante.

Existem muitos bancos de dados genômicos acerca do câncer. A lista conta com o CBioPortal do próprio Memorial Sloan Kettering Cancer Center, bem como MyCancerGenome Precision Medicine Knowledge Base Cancer Genome Interpreter Cancer Driver Log Tumor Portal , entre outros.

A Dra. Debyani reconhece que a OncoKB não está sozinha. “Mas dito isso, é agora o primeiro banco de dados de variantes somáticas de câncer humano a ser reconhecido pela FDA”, acrescentou a pesquisadora.

No coração da OncoKB é um processo contínuo de curadoria do qual participam mais de 50 médicos e geneticistas no centro oncológico. “Encontramos uma maneira de codificar a experiência científica e clínica dos oncologistas do Memorial Sloan Kettering“, disse Dra. Debyani.

A equipe se faz três perguntas aparentemente simples: o que é o gene, se a mutação nesse gene é ou não oncogênica e, quando encontrada em um tipo específico de tumor, quais são as implicações terapêuticas associadas.

Os dados de embasamento são então atribuídos a um nível terapêutico de evidência OncoKB em uma escala que vai de “atendimento habitual” até “hipotético”.

“O que mais me surpreendeu foi que o simples fato de obter essas três informações e assegurar sua acurácia foi um grande desafio”, disse a Dra. Debyani.

O novo reconhecimento da FDA é considerado “parcial”, porque não cobre toda a OncoKB: a agência não revisou todas as relações entre os medicamentos e biomarcadores no site. No entanto, os desenvolvedores da OncoKB criaram – e submeteram ao reconhecimento – uma zona específica da FDA que lista biomarcadores oncológicos que já têm luz verde regulatória nos Estados Unidos.

A zona da OncoKB reconhecida pela FDA traz dados semelhantes aos do restante do site, mas é categorizada usando o próprio sistema de nível de evidências da FDA.

A FDA atribui um de três níveis de evidências para as variantes genéticas nas solicitações de regulamentação que recebe. O nível 1 é reservado para diagnósticos de acompanhamento aprovados para tratamentos direcionados; o nível 2 é atribuído a “mutações oncogênicas com evidências de significado clínico”; e o nível 3 indica “mutações de câncer com potencial significado clínico”.

A zona da OncoKB atualmente reconhecida pela FDA lista 46 genes acionáveis em 40 tipos de câncer com evidências de nível 2 e 38 genes acionáveis em 33 tipos de câncer com evidências de nível 3.

As primeiras orientações da FDA sobre como obter o endosso de um banco de dados de variantes genéticas foram publicadas em abril de 2018. Tendo em mente que a genômica do câncer é um campo enorme e com muita energia, o Medscape perguntou à FDA por que levou três anos e meio para reconhecer um banco de dados de mutação tumoral.

O porta-voz da agência, Jim Mckinney, colocou o ônus na solicitação de oficialização por parte dos criadores do banco de dados: “A FDA não pode direcionar entidades externas para solicitar o reconhecimento de um banco de dados junto à agência”, disse. Quanto à OncoKB, a linha do tempo de revisão foi “impactada pela pandemia de covid-19, que afetou os recursos institucionais”.

Jim não disse quantos outros bancos de dados genéticos de oncologia a FDA está avaliando em vistas do reconhecimento, mas confirmou que o reconhecimento parcial da OncoKB pela FDA significa que “os que pesquisam novos tipos de exames podem usar esses dados para embasar a validade clínica dos exames de perfil tumoral em suas solicitações pré-comercialização”.