fonte: Medscape

Surgiram novas abordagens terapêuticas para prevenir e tratar úlceras do pé diabético. O endocrinologista e especialista em diabetes Dr. Olivier Bourron, médico do Hospital Pitié-Salpêtrière, na França, descreveu essas abordagens no 48º congresso anual da Sociedade Francófona de Diabetes.

Uma complicação comum

Ao contrário das complicações macroangiopáticas (como cardiopatia isquêmica e acidente vascular cerebral) e renais, as úlceras nos pés são uma complicação diabética para a qual houve muito pouco progresso terapêutico nos últimos 20 anos.

Apesar disso, elas são comuns. “Um a dois pacientes diabéticos em dez desenvolvem uma úlcera no pé ao longo a vida”, disse o Dr. Olivier. No entanto, acrescentou que “esta complicação, que depende da hiperglicemia descontrolada, não é inevitável. Está associada à neuropatia periférica, que induz distúrbios sensoriais e deformidades do pé, causando a formação de úlceras”.

As úlceras nos pés são uma complicação particularmente grave. Se as medidas preventivas não forem implementadas adequadamente, de 5 a 10 pacientes diabéticos em cada 100 acabarão precisando de amputação de membro inferior. “Na França, há cerca de 8.000 amputações por ano, e isso não vem melhorando. Então, para reduzir o risco de serem necessárias, novas abordagens terapêuticas precisam ser exploradas”, ele explicou.

Essas novas abordagens visam dois aspectos da terapia: a prevenção podológica e a cura da úlcera o mais rápido possível para evitar a infecção.

Prevenção de úlceras nos pés

A prevenção podiátrica consiste em tentar impedir a ocorrência de uma úlcera em pacientes de risco, na maioria das vezes aqueles com neuropatia periférica. O Dr. Olivier apresentou um par de dispositivos que trabalham juntos para detectar áreas do pé em risco antes mesmo da ocorrência da úlcera.

“Tapetes inteligentes”, que estão em desenvolvimento, detectam diferenças mínimas de temperatura entre os dois pés que predizem a ocorrência de uma úlcera no pé a curto prazo (dentro de 40 dias). Medidas preventivas como pedicure, calçados graduados e prevenção de fatores traumáticos no pé de risco podem então ser implementadas.

“Há também as palmilhas conectadas a esses tapetes inteligentes, equipadas com sensores que medem aumentos de pressão relacionados a distúrbios morfostáticos”, disse o Dr. Olivier. “Esses distúrbios estão ligados à neuropatia e, em 90% dos casos, causam a úlcera”. O Dr. Olivier explicou como o dispositivo é usado. “Um sinal aparece em um relógio conectado à palmilha. A mensagem é: ‘Cuidado: há aumento de pressão repetido nesta área do pé que pode levar a uma úlcera’”. Este é outro momento no qual o médico pode sugerir medidas preventivas particularmente adequadas. “Estudos mostraram que isso limita o risco de úlceras nos pés a curto prazo”, acrescentou.

Como outra medida para prevenir o risco podológico, pesquisadores e médicos estão usando novos medicamentos em seu esforço para limitar o desenvolvimento de doença arterial oclusiva dos membros inferiores, que é um importante fator de risco para amputação. Entre esses novos medicamentos, o Dr. Olivier mencionou um agente hipolipemiante anti-PCSK9 (sigla do inglês proprotein convertase subtilisin/kexin type 9) que comprovadamente reduz o risco de amputação de membros. Os pesquisadores deste estudo de 2018 concluíram que o evolocumabe pode reduzir o risco de um evento maior nos membros inferiores (ou seja, a ocorrência de isquemia aguda, isquemia crítica e amputação) em 42%. “Os medicamentos anti-PCSK9, indicados para casos de dislipidemia familiar e para ajudar a prevenir a recorrência do infarto do miocárdio são uma classe de medicamentos que precisa ser previamente acordada. Seu uso já está sendo praticado em alguns pacientes com risco podológico”, disse.

A rivaroxabana é outra droga atualmente em destaque. Em um estudo recente com aspirina e este novo anticoagulante oral que tem como alvo o fator de coagulação X, uma diminuição muito significativa foi observada não apenas em eventos compostos maiores (como isquemia aguda e isquemia crítica), mas também no risco de amputação (-70%) para pacientes com doença arterial. Uma grande proporção dos participantes tinha diabetes.

Acelerando a cura

Quando as úlceras ocorrem apesar das medidas preventivas, a cicatrização pode levar de várias semanas a vários meses, período durante o qual o paciente corre o risco de infecção e amputação. Outro objetivo das novas terapias é promover o processo de cicatrização.

O Dr. Olivier observou um número crescente de estudos “bem-feitos, randomizados e duplo-cegos” que apresentam um alto nível de evidência para tratamentos locais inovadores, como adesivos de células multicamadas (que incluem glóbulos brancos, plaquetas e fibrina). Administrado à beira do leito do paciente, o LeucoPatch , obtido a partir de sangue centrifugado, é aplicado diretamente na úlcera. “Existem resultados muito significativos quanto a melhora do tempo de cicatrização ou obtenção de cura completa”, explicou. A oxigenoterapia hiperbárica local é um tratamento tópico ainda mais recente que também reduz o tempo de cicatrização e promove a cicatrização completa.

Os curativos, que são muito importantes no tratamento de úlceras nos pés, também melhoraram devido aos avanços recentes. Por exemplo, curativos com tecnologia de matriz TLC-NOSF possibilitam atuar sobre os fatores que retardam a cicatrização. “Eles já estão disponíveis em serviços especializados de atendimento ao pé diabético. Com essas novas tecnologias, estamos otimistas em reduzir essa grande complicação do diabetes e o risco de amputação em pacientes diabéticos”, concluiu o Dr. Olivier.