fonte: Folha de SP

Startups que começaram a funcionar no meio da pandemia e já levantaram um grande volume de recursos querem trazer novos modelos de atendimento para o setor de planos de saúde.

Em comum, essas companhias prometem priorizar o atendimento preventivo, realizado por uma equipe multidisciplinar chefiada por um médico de família e que se relaciona com o paciente a partir de aplicativos, disponível a qualquer momento.

Quando o paciente precisa ir a um especialista ou hospital da rede credenciada dessas startups, seus exames e histórico médico são encaminhados eletronicamente. Também há análise dos dados de saúde de cada um a partir de tecnologia para ajudar a antecipar possíveis problemas de saúde e enviar recomendações.

Vanessa Gordilho, diretora-geral da Qsaúde, explica que a maior parte dos agendamentos para beneficiários dos planos da empresa precisa ser feita pelo médico que acompanha o paciente no dia a dia, para que haja maior efetividade e qualidade nos atendimentos oferecidos.

O formato requer uma mudança de cultura, segundo ela. “Nós nos dedicamos bastante a explicar esse modelo. As pessoas vêm de um sistema em que elas cuidavam da própria saúde, muitas vezes de forma ineficaz”, diz a executiva.

A Qsaúde foi criada por José Seripieri Júnior, fundador e ex-controlador da Qualicorp. O negócio começa com um investimento superior a R$ 120 milhões e tem mais de 6.000 beneficiários.

Gordilho diz que a Qsaúde entrou no mercado mirando o público de renda mais alta, mas vem buscando criar produtos mais acessíveis. Para jovens de até 18 anos, é possível contratar planos a partir de R$ 245, diz.

André Florence, presidente da startup Alice, diz que o paciente que contrata o plano da empresa cria junto com seu médico e equipe de atendimento uma série de metas para melhorar sua saúde. O acompanhamento é feito a partir do app da empresa e o cliente recebe recomendações baseadas em seu comportamento para ajudar a atingir seus objetivos.

Segundo o executivo, que foi diretor financeiro da startup 99, quando se investe no atendimento pelo médico de família, é possível resolver a maior parte dos problemas de saúde sem o paciente precisar ir a um especialista ou a um hospital.

Isso, segundo o executivo, é positivo tanto para o beneficiário como também para o sistema de saúde, pois não torna o custo para tratar do paciente maior do que o necessário. “Mais de 85% das queixas atendidas digitalmente são resolvidas sem a pessoa sair de casa”.

O empresário diz que os planos da Alice para pessoas com 30 anos partem de R$ 579. Quando a companhia foi lançada, há um ano, o preço era cerca de $ 950 e a tendência é que, conforme o modelo se comprove viável, ele siga em queda, diz Florence.

A startup tem cerca de 4.000 beneficiários. Captou quase US$ 50 milhões em rodadas de investimento com fundos tradicionais como ThornTree Capital Partners, Endeavor Catalyst, Kaszek Ventures, Canary e Maya Capital.

Outra startup do setor, a Sami, decidiu priorizar inicialmente o atendimento a pequenas empresas e microempreendedores individuais.

A companhia atende cerca de 2.000 negócios e levantou R$ 86 milhões no final de 2020. Tem entre seus investidores nomes como Monashees, Valor Capital, Canary, Redpoint eventures e Canary.

O preço do plano parte de R$ 170 e, na média, fica em R$ 300, diz Vitor Asseituno, sócio e presidente da startup.

O empresário diz que a escolha por iniciar o atendimento pelos pequenos negócios levou em conta que o setor empresarial sofre os reajustes mais altos no preço dos planos. Além disso, o empresário considera que as companhias menores estão mais dispostas a fazer uma contratação digital do que grandes empresas.

Asseituno diz que outra mudança trazida por sua healthtech ao setor está na metodologia que desenvolve para definir como hospitais são pagos ao atender pacientes.

Em vez de o plano remunerar a rede parceira a cada procedimento, o que incentivaria um maior volume de exames e prolongamento de internações, o pagamento passa a ser feito a partir de metodologia que, segundo Asseituno, considera o valor entregue ao paciente.

“O hospital pode fechar um pacote inteiro para fazer uma cirurgia bariátrica por R$ 50 mil. Se ele não for eficiente e gastar mais do que isso, é ele quem arca com o custo adicional”, exemplifica.

A tendência dos planos de saúde digitais também recebeu a adesão da Omint, uma das empresas tradicionais do setor, que lançou sua healthtech, a Kipp Saúde, com investimento de R$ 200 milhões.

Cícero Barreto, diretor comercial da Omint, diz que a digitalização e o modelo baseado no atendimento do médico de família abriu a oportunidade de a empresa voltar a oferecer planos para pessoa física, segmento que vinha em queda no Brasil. “Queremos preencher essa lacuna no mercado com um jeito novo de pensar o atendimento, com cuidado coordenado, protocolo eletrônico e redes bem definidas”, afirma.

No Rio de Janeiro, a Leve Saúde decidiu se especializar no atendimento a pacientes com 45 anos ou mais e está construindo uma rede própria de clínicas. Atualmente são 4 unidades e a meta é chegar a 12 até o final do ano para oferecer o atendimento preferencialmente a partir delas.

Ulisses Silva, presidente da startup, diz que 70% dos beneficiários do plano da companhia ainda não eram clientes de plano de saúde ao contratar a empresa. “É um público desassistido pelas operadoras, principalmente quando se fala de pessoa física”, diz. A companhia tem 10 mil beneficiários e um ano de operação. O plano custa a partir de R$ 600 para pessoas com a partir de 59 anos.

A empresa foi financiada até agora com recursos dos sócios e está com captação aberta junto a fundos de investimento.