fonte: MedScape
O US National Institute of Standards and Technology (NIST), dos Estados Unidos, desenvolveu um material baseado em fezes humanas medidas com extrema precisão com o objetivo de promover uma nova era na pesquisa sobre o microbioma intestinal.
Segundo o Center for Gut Microbiome Research & Education da American Gastroenterological Association, esse importante recurso ajudará a aumentar a utilidade e a reprodutibilidade dos diagnósticos baseados no microbioma intestinal — “que ainda permanecem relativamente sem significado clínico, embora os pacientes continuem comprando testes comerciais para uso individual. Além disso, [a disponibilidade de] um material de referência padrão significa a possibilidade de uma maneira mais eficiente de garantir o controle de qualidade e a acurácia [dos estudos]”.
Embora esse não seja um produto com fins terapêuticos, espera-se que o chamado Human Fecal Material RM acelere o surgimento de novos tratamentos na área da gastroenterologia, uma vez que muitos medicamentos baseados no microbioma intestinal são inspirados em transplantes fecais, sendo as fezes humanas o ponto de partida para o seu desenvolvimento. Nesse sentido, um material de referência padronizado será um recurso importante à medida que a indústria desenvolve e testa novos medicamentos. O item pode ser adquirido de forma on-line na loja do NIST (shop.nist.gov).
O produto consiste em oito frascos congelados de fezes humanas estudadas exaustivamente e suspensas em solução aquosa. Estão disponíveis mais de 25 páginas de dados que identificam os principais microrganismos e biomoléculas presentes no material. Cientistas, inclusive aqueles que trabalham em empresas biofarmacêuticas e de biotecnologia, podem usar esse composto para realizar pesquisas e desenvolver novos medicamentos que tenham como alvo o microbioma intestinal, inclusive tratamentos com bactérias vivas.
Desenvolvimento
Segundo o NIST, esse conjunto padronizado de fezes representa “o padrão fecal humano mais precisamente medido, cientificamente analisado e ricamente caracterizado já produzido”.
“O projeto demorou cerca de seis anos desde o início até a conclusão, sendo que os últimos dois anos foram destinados à fabricação, caracterização e redação [relacionadas ao material]”, disse o geneticista molecular vinculado ao NIST, Dr. Scott A. Jackson, Ph.D., que ajudou a desenvolver o produto. “Esperamos que nosso material de referência estabeleça a base para que as pesquisas sobre o microbioma intestinal prosperem e alcancem seu potencial máximo.”
Como fundador do Complex Microbial Systems Group, ligado ao NIST, o Dr. Scott lidera iniciativas internacionais para melhorar medições relacionadas ao microbioma e à metagenômica, organizando estudos interlaboratoriais e aperfeiçoando materiais e métodos de referência.
O projeto coletou fezes de dois grupos de doadores, vegetarianos e onívoros, sendo cada um deles composto por de quatro a seis indivíduos. O material de cada uma dessas coortes foi reunido e homogeneizado antes de ser fracionado em 5.000 frascos por grupo. Em seguida, cerca de 300 tubos de cada grupo foram escolhidos e submetidos a análises multiômicas.
Dando sua opinião sobre o novo produto, o médico Dr. Sudhir K. Dutta, professor associado da Divisão de Gastroenterologia e Hepatologia da Johns Hopkins University School of Medicine, nos Estados Unidos, afirmou: “Essa ferramenta será 100% útil para as pesquisas sobre o microbioma [intestinal]”.
Segundo a Dra. Lori Holtz, médica e professora de gastroenterologia pediátrica, hepatologia e nutrição na Washington University School of Medicine, nos Estados Unidos, o material ajudará no estudo do microbioma, possibilitando a interpretabilidade e repetibilidade em vários estudos.
“A pesquisa do microbioma é um campo relativamente novo, e os protocolos diferem de grupo para grupo e de laboratório para laboratório, então tem sido difícil comparar resultados entre estudos [diferentes]”, disse ela ao Medscape. “[O uso de] um produto fecal padronizado permitirá uma maior comparabilidade entre estudos pré-clínicos e clínicos que testam intervenções para alterar o microbioma.”
Os desenvolvedores ligados ao NIST estão ansiosos pela reação da comunidade científica envolvida no estudo do trato gastrointestinal. “Nos últimos anos, lançamos lotes experimentais menores do material para pequenos grupos de interessados”, explicou o Dr. Scott. “Usamos o feedback sobre esses lotes anteriores para guiar a fabricação e a caracterização do lote final que foi lançado em março, mas ainda não tivemos nenhum retorno sobre o material atual.”
