fonte: MedScape
Mais um estudo constata que o uso de suplementos de vitamina D não reduz o risco de diabetes tipo 2 na população global de pessoas com pré-diabetes, no entanto, os resultados abrem a possibilidade de benefício para pacientes com baixa secreção de insulina.
Os novos achados são do estudo prospectivo Diabetes Prevention With Active Vitamin D (DPVD) que avaliou mais de 1.200 japoneses com comprometimento da tolerância à glicose.
Os dados foram publicados on-line em 25 de maio no periódico British Medical Journal pelo Dr. Tetsuya Kawahara, Ph.D., médico do Hospital Shin Komonji, Kitakyushu, no Japão, e seus colaboradores.
O tratamento com 0,75 μg/dia de eldecalcitol, análogo ativo da vitamina D, durante três anos, não impediu a evolução de pré-diabetes para diabetes tipo 2, nem melhorou a taxa de regressão para normoglicemia em comparação ao placebo.
Entretanto, “mostramos um efeito preventivo do eldecalcitol após o ajuste por covariáveis (…) o efeito preventivo do eldecalcitol para o diabetes tipo 2 em uma população pré-diabética foi observado especialmente entre os participantes com insuficiência de insulina”, escreveram os autores.
Resultados “incrivelmente parecidos” em vários ensaios clínicos
O novo ensaio clínico foi “bem conduzido, com critérios diagnósticos definidos com rigor e duração suficiente, mas pode não ter tido poder estatístico suficiente para detectar um efeito pequeno”, escreveu a médica Dra. Tatiana Christides, Ph.D., da Queen Mary University of London, no Reino Unido, no editorial que acompanha o estudo.
A Dra. Tatiana observou que uma metanálise recente de ensaios de intervenção encontrou uma redução significativa de 10% do risco de diabetes tipo 2 com a suplementação da vitamina D, “diferença muito pequena para ser detectada pelo novo ensaio (…) embora uma redução de risco de 10% seja modesta, pode ser valiosa em nível populacional e justifica um estudo mais aprofundado”.
O novo achado, uma redução relativa de risco não significativa, de 13%, equivale à redução relativa de risco encontrada no ensaio clínico Vitamin D and Type 2 Diabetes (D2d), apresentado em 2019, também de 13%.
Mas nesse estudo, como no estudo em tela, houve a sugestão de benefício para um subgrupo de pessoas. No D2d, foi para os que tinham deficiência de vitamina D.
Convidado a comentar, o líder do estudo D2d, Dr. Anastassios G. Pittas, médico e chefe da Divisão de Diabetes, Endocrinologia e Metabolismo do Tufts Medical Center, nos Estados Unidos, ressaltou que os resultados também foram “incrivelmente parecidos” com os de um terceiro estudo, feito na Noruega e publicado em 2014, que também encontrou uma redução relativa do risco de 13%.
“Os resultados quase idênticos desses três ensaios clínicos especificamente concebidos e realizados para testar se o suplemento de vitamina D reduz o diabetes apontam claramente para um efeito benéfico da vitamina D na redução do risco de diabetes. No entanto, o efeito global nas pessoas sem insuficiência de vitamina D parece ser menor do que a hipótese levantada em cada ensaio clínico”, disse o Dr. Anastassios ao Medscape.
O comentarista acrescentou que “não haverá mais ensaios específicos de vitamina D e prevenção do diabetes, então precisamos continuar obtendo conhecimento desses três ensaios clínicos”.
Alguns pacientes com pré-diabetes podem se beneficiar com a vitamina D
O Dr. Anastassios disse que, embora o efeito global seja modesto nas pessoas com pré-diabetes sem deficiência de vitamina D, “dada a prevalência do pré-diabetes e do diabetes tipo 2, os médicos e pacientes devem considerar o uso de suplementos de vitamina D como adjunto à perda ponderal para a prevenção do diabetes. De acordo com as análises do estudo D2d, as pessoas com pré-diabetes com baixos níveis de vitamina D e que não são obesas, são as que obtêm maior benefício”.
O comentarista observou que as análises secundárias do D2d também sugeriram maior benefício entre os que atingem níveis séricos de vitamina D mais altos, porém, que altas doses do suplemento podem causar desfechos musculoesqueléticos adversos nos idosos, “então a relação entre o custo e o benefício precisa ser avaliada individualmente”.
A editorialista aconselhou: “Até haver mais dados de ensaios clínicos randomizados de alta qualidade, os profissionais de saúde devem continuar a conversar com os pacientes sobre os benefícios musculoesqueléticos da saúde da vitamina D e ajudá-los a alcançar e manter as modificações do estilo de vida que, embora difíceis, são reconhecidas por diminuir a ocorrência de diabetes tipo 2”.
DPVD: Sugestão de benefício para os pacientes com mais resistência à insulina
O ensaio DPVD duplo-cego, multicêntrico, randomizado e controlado por placebo foi feito de 1º de junho de 2013 a 31 de agosto de 2015 com 1.256 participantes apresentando comprometimento da tolerância à glicose (com ou sem alteração da glicemia de jejum) provenientes de 32 instituições no Japão. Foram randomizados 1:1 para receber eldecalcitol ou placebo durante três anos.
No período de três anos, 12,5% dos 630 pacientes do grupo do eldecalcitol e 14,2% dos 626 pacientes do grupo do placebo abriram o quadro de diabetes. A diferença não foi significativa, com razão de risco de 0,87 (p = 0,39). Também não houve diferença na regressão para normoglicemia, que ocorreu em 23,0% com eldecalcitol versus 20,1% com placebo até o final do estudo (p = 0,21).
Entretanto, o eldecalcitol foi eficaz na prevenção do diabetes tipo 2 após ajuste por variáveis pré-avaliadas, como idade, sexo, hipertensão arterial sistêmica, índice de massa corporal, história familiar de diabetes, glicemia de 2 horas, 25-hidroxivitamina D e resistência à insulina (razão de risco de 0,69; p = 0,02).
Em uma análise post hoc, o eldecalcitol preveniu significativamente o diabetes tipo 2 entre os pacientes com as divisões mais baixas de avaliação pelo modelo homeostático (HOMA)-β (razão de risco de 0,35; p < 0,001), resistência à insulina HOMA (razão de risco de 0,37; p = 0,001) e insulina imunorreativa de jejum (razão de risco de 0,41; p = 0,001).
“Esses resultados indicam que o efeito do eldecalcitol tenha sido benéfico na secreção insuficiente de insulina ao início do estudo”, escreveram os autores do estudo em tela.
As saídas do estudo por eventos adversos ocorreram em 4,1% com o eldecalcitol e 3,4% no grupo do placebo (razão de risco de 1,23; p = 0,47). Os índices e os tipos de eventos adversos não diferiram significativamente entre os dois grupos.
O estudo recebeu subsídios da Kitakyushu Medical Association. Os autores informaram não ter conflitos de interesses. A Dra. Tatiana Christides informou não ter conflitos de interesse. O Dr. Anastassios Pittas informou receber financiamento do US National Institutes of Health.
BMJ. Publicado on-line em 25 de maio de 2022. Artigo, Editorial
