fonte: Medscape

Uma nova pesquisa feita em dez países, apresentada no European Congress of Obesity (ECO) deste ano, mostra que cerca de um quarto (24%) dos adolescentes com obesidade não sabe que tem a doença.

“O impacto da obesidade em crianças e adultos, sobre os indivíduos, a sociedade e os sistemas de saúde não deve ser subestimado”, disse o primeiro autor, professor Jason Halford, coordenador da Faculdade de Psicologia na University of Leeds, no Reino Unido, e presidente da European Association for the Study of Obesity (EASO).

Os novos achados são provenientes do estudo global com adolescentes denominado ACTION, um estudo quantitativo baseado em questionários que coletou dados em dez países (Austrália, Colômbia, Itália, Coreia do Sul, México, Arábia Saudita, Espanha, Taiwan, Turquia e Reino Unido), com a participação de adolescentes com obesidade, seus cuidadores e profissionais de saúde com experiência direta e recente no cuidado clínico da obesidade em adolescentes.

Participaram da pesquisa:

  • 5.275 adolescentes com obesidade entre 12 e 17 anos com índice de massa corporal atual para a idade (baseado em sexo, idade, altura e peso autorrelatados) igual ou acima do percentil 95 para idade e sexo.
  • 5.389 cuidadores com 25 anos ou mais, pais ou guardiões legais de um adolescente com obesidade vivendo na mesma casa pelo menos 50% do tempo e envolvidos nas decisões de saúde do adolescente.
  • 2.323 profissionais de saúde (médicos da atenção primária, pediatras ou outros especialistas) com pelo menos dois anos de prática clínica, que passavam pelo menos 50% do seu tempo em contato direto com pacientes e tratavam pelo menos dez adolescentes com obesidade em um mês típico.

Foram utilizados um painel on-line, ligações telefônicas e encontros presenciais para fazer a entrevista com os participantes, com perguntas sobre uma ampla variedade de tópicos, como atitudes em relação à obesidade e seus impactos, número de tentativas de perda de peso e motivações/barreiras para a perda de peso.

Muitos acreditam que perder peso é uma responsabilidade exclusivamente sua

Os autores relataram que cerca de nove em cada dez (89%) profissionais de saúde apontaram que a obesidade tem um forte impacto sobre a saúde geral e o bem-estar de uma pessoa. Entretanto, menos adolescentes com obesidade e cuidadores tinham pontos de vista semelhantes sobre essa questão (72% e 67% respectivamente). Além disso, os autores disseram que “a maioria dos participantes considerou que a obesidade era tão ou mais impactante do que doenças cardíacas, câncer ou diabetes”.

Apesar de muitos adolescentes com obesidade não reconhecerem que têm a doença, a maioria dos entrevistados (85%) estava preocupada com o impacto do peso sobre sua saúde no futuro, sendo que dois terços (65%) acreditavam que a responsabilidade de lidar com o excesso de peso era exclusivamente sua. Esse percentual é comparável com o achado de que 37% dos cuidadores e cerca de 1 em cada 4 profissionais de saúde (27%) consideravam que a perda de peso era responsabilidade exclusiva do adolescente com obesidade.

A coautora do estudo Vicki Mooney, presidente da Irish Coalition for People Living with Obesity (ICPO) e diretora-executiva da European Coalition for People living with Obesity (ECPO), disse: “É difícil compreender a pressão sobre esses adolescentes, especialmente quando dois terços deles acreditam que perder peso seja exclusivamente responsabilidade deles, com muitos dos pais/cuidadores tendo dificuldades em saber como cuidar dos filhos da melhor forma.”

Adolescentes não conseguem conversar com seus pais sobre perda de peso

Muitos adolescentes com obesidade disseram ter dificuldades para falar com pessoas próximas sobre seu peso, sendo que um em cada três relatou não conseguir falar com seus pais e, assustadoramente, um em cada dez disse não conseguir falar com ninguém. Contudo, cerca de um em cada três conseguia falar com o médico e 74% disseram confiar nas orientações de um profissional de saúde sobre controle de peso.

A coautora Vicki disse: “Os resultados nos mostraram que os adolescentes desejam perder peso e melhorar sua saúde, porém, um em cada três deles sente que não consegue conversar com seus pais sobre isso e muitos buscam as redes sociais para orientação.”

Quando se trata de fontes de informação, o YouTube (34%), as mídias sociais (28%), a família e os amigos (25%), os mecanismos de pesquisa (25%) e os médicos (24%) foram as mais populares.

Motivação, barreiras e tentativas

As tentativas de perda de peso por adolescentes com obesidade foram aparentemente subestimadas pelos profissionais de saúde, explicaram os autores, enquanto cuidadores tenderam a subestimar tanto o impacto da obesidade sobre a saúde e o bem-estar quanto as tentativas de perda de peso pelos adolescentes com obesidade.

Mais da metade (58%) dos adolescentes com obesidade relatou ter se esforçado para tentar perder peso no último ano, sendo que três quartos (75%) deles relataram ser um tanto ou muito provável que tentarão perder peso nos próximos seis meses. No entanto, menos (41%) cuidadores relataram que os “seus” adolescentes com obesidade tentaram perder peso ao longo do último ano ou que seja um tanto ou muito provável (63%) que eles tentarão perder peso nos próximos seis meses. Entre os profissionais de saúde, apenas dois em cada cinco (38%) responderam que seus pacientes adolescentes com obesidade fizeram uma tentativa séria de perda de peso no último ano.

A motivação é um componente essencial da perda de peso bem-sucedida, sendo que o desejo de ser mais saudável e estar em forma (40%), o fato de não estar feliz com seu peso (37%) e o desejo de se sentir mais confiante (35%) foram os motivadores mais comuns para os adolescentes com obesidade e também os motivadores mais comuns relatados pelos cuidadores para seus adolescentes. Para os profissionais da saúde, no entanto, as coisas foram um tanto diferentes. Os três maiores motivadores para perda de peso relatados por seus pacientes adolescentes com obesidade foram: desejo de ter mais confiança/autoestima (69%), desejo de melhorar a vida social e popularidade (69%) e desejo de se parecer com adolescentes da mesma idade (65%).

As três principais barreiras para perda de peso relatadas pelos adolescentes com obesidade e pelos cuidadores foram: não conseguir controlar a fome (38%), falta de motivação (34%) e gostar de comer alimentos não saudáveis (32%). Para os profissionais de saúde, as três principais barreiras para perda de peso relatadas pelos adolescentes com obesidade foram: hábitos alimentares não saudáveis (93%), falta de exercício (92%) e gostar de comer alimentos não saudáveis (91%).

“As principais motivações e barreiras para a perda de peso não estavam alinhadas entre adolescentes com obesidade e profissionais de saúde”, disseram os autores, que apontaram que essa discrepância pode “impactar negativamente o nível de suporte e efetividade” do tratamento para obesidade recebido pelos adolescentes com obesidade de seus cuidadores e profissionais de saúde.

O professor Jason disse: “Há uma necessidade urgente de que governos e sociedade reconheçam e tratem a obesidade como uma doença, para que mais adolescentes possam ter o apoio necessário para ajudá-los a viver de forma mais feliz e mais saudável.”

Os pôsteres da conferência ainda serão publicados em um periódico, porém já foram revisados por pares pelo comitê de seleção do European Congress of Obesity.