fonte: MedScape

Nova pesquisa mostra que pacientes com câncer de tireoide que fazem tireoidectomia apresentam risco de diabetes tipo 2 até 40% maior, independentemente da idade. Receber a dose mais alta ou mais baixa de levotiroxina após a cirurgia não modificou o risco.

“Este é o primeiro estudo de base populacional a demonstrar um risco elevado de diabetes tipo 2 em pacientes pós-tireoidectomia por câncer de tireoide, em comparação com controles pareados”, escreveram os autores na pesquisa publicada recentemente no periódico Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism.

“Particularmente, houve uma relação em forma de U entre a dose de levotiroxina pós-operatória, um marcador substituto de supressão de hormônio estimulante da tireoide (TSH, do inglês Thyroid-Stimulating Hormone), e o risco de diabetes tipo 2”, explicou a Dra. Hye Jin Yoo, médica da Divisão de Endocrinologia e Metabolismo, Faculdade de Medicina da Universidade da Coreia, na Coreia do Sul, e seus colaboradores.

Embora outros estudos tenham relacionado a tireoidectomia para câncer de tireoide a aumento do risco de outras complicações metabólicas como doença coronariana e acidente vascular cerebral isquêmico, o risco relativamente alto de diabetes é inesperado, comentou o Dr. Tyler Drake, médico endocrinologista do Minneapolis VA Health Care System, nos Estados Unidos.

“Um aumento de 40% no risco de diabetes é uma grande surpresa”, disse ele ao Medscape.

“O diabetes é muito comum, com o tipo 2 diagnosticado em 1 a cada 10 adultos nos EUA, mas um aumento de 40% no risco de pacientes com câncer de tireoide é maior do que vejo em minha prática clínica. No entanto, é importante observar que esse aumento predominou nos grupos que receberam as doses mais baixas ou mais altas de levotiroxina”, destacou o Dr. Tyler, que também é professor assistente de medicina na University of Minnesota, nos EUA.

Relação em formato de U entre a dose de levotiroxina e o risco de diabetes 

Os achados são provenientes de um estudo com 36.377 pacientes com câncer de tireoide registrados no banco de dados do Serviço Nacional de Saúde da Coreia do Sul que fizeram uma tireoidectomia entre 2004 e 2013.

Os pacientes foram pareados 1:1 com controles que tinham tumores não tireoidianos. A média de idade foi 46,6 anos, cerca de 30% eram do sexo masculino e o índice de massa corporal (IMC) médio foi de 23,8 kg/m2.

Ao longo de um acompanhamento médio de 6,6 anos, os pacientes com câncer de tireoide tiveram um risco significativamente maior de desenvolver diabetes tipo 2, a uma taxa de 47,5% (10.812) em comparação com 36,9% (9.414; razão de risco, RR, 1,43; P < 0,001) no grupo de controle, após ajuste para fatores como idade, sexo, IMC, tabagismo, bebida, pressão arterial sistólica e glicemia de jejum.

O risco de diabetes tipo 2 entre os pacientes com câncer de tireoide foi maior entre os que se submeteram a uma tireoidectomia total (83,2%) em comparação com os que fizeram lobectomia unilateral (16,8%) (RR de 1,06; P < 0,001).

Além disso, os pacientes com câncer de tireoide que receberam as doses mais baixas ou as mais altas de levotiroxina tiveram risco significativamente maior de desenvolver diabetes tipo 2 do que os controles (RR de 1,50 e 1,39, respectivamente; ambos P < 0,001).

Uma análise mais detalhada dos quartis da dose de levotiroxina mostrou que o primeiro quartil (mais baixo; definido como média de < 101 μg/dia de levotiroxina) foi associado a aumento do risco de diabetes tipo 2 tanto em relação ao segundo quartil (101 a 127 μg/dia; RR de 1,45) como em relação ao quarto quartil (≥ 150 μg/dia; RR de 1,37). Ao comparar o terceiro com o segundo quartil, foi observada uma redução do risco de diabetes tipo 2 (128 a 149 μg/dia; RR de 0,91).

“Este resultado sugere uma relação em forma de U entre a dose média de levotiroxina e o risco de diabetes tipo 2 em pacientes pós-tireoidectomia com câncer de tireoide”, escreveram os autores.

No entanto, “assim como estudos anteriores, o presente estudo mostra que o maior risco de diabetes tipo 2 foi observado em pacientes com câncer de tireoide que foram tratados com a dose média mais baixa de levotiroxina”, observaram eles.

“Este resultado sugere que a suplementação inadequada de hormônios da tireoide pode piorar o metabolismo da glicose e, portanto, deve ser evitada”.

Potenciais mecanismos 

Sabe-se que a alteração da função tireoidiana (por hipertireoidismo ou hipotireoidismo) após a tireoidectomia e subsequente tratamento com levotiroxina tem efeitos potencialmente deletérios no controle glicêmico de pacientes com câncer de tireoide.

Os potenciais mecanismos que associam o hipotireoidismo ao diabetes compreendem especificamente a possibilidade de a insulina se tornar incapaz de promover a utilização da glicose pelos músculos e tecido adiposo. No entanto, a reposição do hormônio tireoidiano foi associada à normalização da sensibilidade à insulina, observaram os autores.

Por outro lado, a intolerância à glicose é comum entre pacientes com hipertireoidismo, em grande parte devido ao aumento da produção hepática de glicose. Além disso, a normalização da função da tireoide entre pacientes tratados com metimazol foi associada à normalização das alterações do metabolismo de glicose e lipídios.

O Dr. Tyler observou que uma limitação importante do estudo é que os pacientes foram analisados com base na dose de levotiroxina e não nos valores de TSH, o que, de acordo com os autores, ocorreu devido à indisponibilidade da dosagem hormonal.

“Ao observar as doses de levotiroxina, e não os valores de TSH, é possível que alguns pacientes estivessem sendo tratados inadequadamente com doses excessivas ou insuficientes de levotiroxina”, observou o Dr. Tyler.

Grupo de controle deveria ter incluído pacientes com hipotireoidismo 

Os achados, no entanto, são esclarecedores quanto ao risco de diabetes após tireoidectomia para câncer de tireoide, comentou o Dr. Anupam Kotwal sobre o estudo.

“Este estudo é significativo porque aborda um tópico importante, que explora a relação entre disfunção tireoidiana e doença metabólica, neste caso, hipotireoidismo, devido a cirurgia para câncer de tireoide e diabetes mellitus tipo 2”, disse ao Medscape o Dr. Anupam, médico e professor assistente de medicina da Divisão de Diabetes, Endocrinologia e Metabolismo do University of Nebraska Medical Center, nos EUA.

Em termos de outras limitações, o Dr. Anupam observou que os controles não tinham hipotireoidismo, portanto, “a partir deste estudo, é impossível confirmar se o hipotireoidismo por qualquer causa estaria associado a maior incidência de diabetes ou se a relação é específica com a cirurgia de tireoide para câncer”.

“Teria sido útil ter um grupo de controle com hipotireoidismo primário autoimune para avaliar a taxa de diabetes durante um período de acompanhamento semelhante”, explicou.

“Consequentemente, estudos de coorte com dados mais detalhados, como grau de supressão do TSH e tendo um grupo controle de pacientes com hipotireoidismo devido a doença autoimune da tireoide, são necessários para entender melhor esse risco”.

Os Drs. Anupam e Tyler informaram não ter conflitos de interesses. 

J Clin Endocrinol & Metab. Publicado on-line em 28 de outubro de 2021. Abstract