fonte: Medscape

O uso de estatinas para tratar adultos com menos de 40 anos de idade que apresentam aumento da lipoproteína de baixa densidade (LDL) do colesterol é altamente custo-efetivo em homens e relativamente custo-efetivo em mulheres, sugere um novo estudo.

Em um modelo simulado, realizado a partir de dados da National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) nos Estados Unidos, a redução lipídica promovida pelo uso de estatinas ou por intervenções no estilo de vida nesta faixa etária preveniu ou reduziu o risco de doença cardiovascular aterosclerótica e melhorou a qualidade de vida anos mais tarde.

Os achados foram publicados on-line no periódico Journal of the American College of Cardiology.

“Minha equipe faz análises epidemiológicas com estudos de coorte, bem como análises econômicas na saúde como esta, e se você tiver uma observação longitudinal de longo prazo, verá que as exposições iniciais são importantes para o que acontece mais adiante”, explicou ao Medscape o autor sênior do estudo, Dr. Andrew E. Moran, médico do Columbia University Irving Medical Center, nos Estados Unidos.

“Mas os estudos de tratamento, nos quais diversas diretrizes terapêuticas se apoiam, costumam ser de curto prazo e geralmente recrutam pessoas mais velhas. Vimos uma lacuna nas evidências, que este artigo tenta preencher”, disse o Dr. Andrew.

O grupo usou um modelo de simulação computacional para sintetizar as evidências provenientes de estudos de coorte observacionais e ensaios clínicos que avaliaram o uso de estatinas, bem como dados de serviços de saúde sobre os custos de medicamentos e tratamentos.

Cruzando as informações dessas fontes, os pesquisadores estimaram os potenciais benefícios e custos do tratamento da hipercolesterolemia na juventude, em comparação com o tratamento padrão, que consistia em iniciar o uso de estatinas aos 40 anos, ou se a LDL fosse ≥ 190 mg/dL.

A redução lipídica combinada ao tratamento padrão com estatinas de intensidade moderada ou intervenções intensivas no estilo de vida foi simulada a partir de quando a LDL do adulto jovem era ≥ 160 mg/dL ou ≥ 130 mg/dL.

Eles descobriram que aproximadamente 27% dos adultos jovens sem doença cardiovascular aterosclerótica apresentam LDL ≥ 130 mg/dL e 9%, LDL ≥ 160 mg/dL.

O modelo projetou que tratar adultos com menos de 40 anos com estatinas ou intervenções no estilo de vida evitaria doença cardiovascular aterosclerótica ao longo da vida e elevaria os anos de vida ajustados pela qualidade (QALY, sigla do inglês quality-adjusted life years) em comparação com o tratamento padrão, que começaria aos 40 anos.

A razão de custo-efetividade incremental (ICER, do inglês Incremental Cost Effectiveness Ratio) para o tratamento com estatina de adultos jovens com LDL ≥ 130 mg/dL foi de 31.000 dólares/QALY na população do sexo masculino e de 106.000 dólares/QALY na população do sexo feminino.

A intervenção intensiva no estilo de vida foi mais cara e menos eficaz do que a terapia com estatinas.

“Estamos nos esforçando para encontrar esses jovens adultos com colesterol muito alto”, observou o Dr. Andrew. “Muitos adultos jovens nem mesmo vão ao médico. Este é um argumento fazer com que se envolvam em seus cuidados de saúde e façam alguns exames básicos. A aterosclerose é um processo prolongado, que começa na infância para muitas pessoas.”

Estratégias mais inovadoras podem ser necessárias, porque o sistema de saúde tradicional não está fazendo um bom trabalho em se comunicar com os jovens adultos, acrescentou. “Muitos talvez não tenham um seguro saúde adequado, e precisam de atendimento médico de formas alternativas; a conveniência é realmente importante para eles. Quem sabe parte da solução seja pensar em maneiras de se aproximar deste grupo específico, que não está envolvido com sua saúde em geral”.

É hora de flexibilizar o limiar dos 40 anos

US Preventive Services Task Force e o American College of Cardiology junto com a American Heart Association devem enfatizar o risco do colesterol elevado ao longo da vida, escreveram Dr. Paul A. Heidenreich, médico da Stanford University School of Medicine, nos EUA, e colaboradores, no editorial que acompanha o estudo.

“Além de calcular o risco em 10 anos, devemos calcular os anos de vida perdidos (ou QALY perdidos) por níveis prejudiciais de LDL, e tanto o estilo de vida quanto o tratamento farmacológico devem ser considerados para tratar LDL alta em adultos, independentemente da idade. Também precisamos comunicar que o mantra ‘quanto menor, melhor’ se aplica não apenas a uma única medição, mas também à exposição ao longo da vida à LDL”, escreveram os editorialistas.

“Acho que o tratamento deve ser feito antes dos 40 anos”, disse o Dr. Paul ao Medscape.

“Parte do motivo pelo qual 40 foi escolhido como limite foi porque todos avaliavam o risco de 10, ou até 20 anos, e pensavam que não havia motivo para se preocupar até ficar mais velho. É interessante que nunca aceitamos isso com a pressão arterial elevada. Mas, cada vez mais, estamos aprendendo que é um processo que dura a vida toda”, disse ele.

“As estatinas estão ficando cada vez mais baratas e, a cada década que passa, sua segurança é cada vez mais consolidada. Definitivamente, concordo com este artigo que realmente faria sentido começar muito mais cedo para aqueles com risco elevado de doença cardiovascular devido ao colesterol aumentado.”