fonte: Medscape

Em uma nova declaração científica sobre recomendações nutricionais e de estilo de vida, a American Heart Association (AHA) destaca, pela primeira vez, os desafios estruturais que impedem a adoção de padrões alimentares saudáveis para o coração.

O texto também reforça os aspectos alimentares que melhoram a saúde cardiovascular e reduzem o risco cardiovascular, com ênfase nos padrões alimentares e na orientação alimentar em vez de simplesmente listar cada alimento ou nutriente.

A declaração científica 2021 Dietary Guidance to Improve Cardiovascular Health, elaborada sob o comando da nutricionista Dra. Alice H. Lichtenstein, Ph.D., diretora do grupo de redação da AHA, traz 10 recomendações baseadas em evidências com o objetivo de promover a saúde cardiometabólica.

“O caminho para fazer escolhas saudáveis para o coração todos os dias”, disse Dra. Alice, do Jean Mayer USDA Human Nutrition Research Center on Aging da Tufts University, nos Estados Unidos, em uma declaração. “É dar um passo para trás, olhar para o ambiente em que você come – seja em casa, no trabalho, durante interações sociais – e então identificar as melhores opções. E se não houver boas opções, pense em como modificar o ambiente para que elas existam”.

A declaração, publicada no periódico Circulation , destaca as evidências cada vez maiores de que as doenças crônicas relacionadas com a nutrição têm origem materno-nutricional, e que a prevenção da obesidade infantil é fundamental para preservar e prolongar a saúde cardiovascular ideal.

As caraterísticas são:

  • Ajustar a ingestão e o gasto de calorias para atingir e manter um peso saudável. Para contrabalançar a modificação no sentido do maior consumo de calorias e de estilos de vida mais sedentários nas últimas três décadas, a declaração recomenda pelo menos 150 minutos de atividade física regular de intensidade moderada por semana, ajustados por idade, nível de atividade, sexo e peso/estatura.
  • Coma muitas frutas e vegetais; com grande variedade. Estudos observacionais e de intervenção comprovam que uma alimentação rica em frutas e vegetais variados, com exceção da batata inglesa, está relacionada com menor risco de doença cardiovascular. Além disso, frutas inteiras e vegetais, que contêm mais fibras e promovem saciedade, são preferidos aos sucos.
  • Escolha alimentos integrais e produtos feitos principalmente com cereais integrais em vez de cereais refinados. Evidências provenientes de estudos observacionais, intervencionistas e clínicos confirmam os benefícios do consumo frequente de cereais integrais em vez de um consumo pouco frequente ou do consumo de grãos refinados em termos de risco de doença cardiovascular, doença coronarianaacidente vascular cerebralsíndrome metabólica, fatores de risco cardiometabólico, diarreia e microbiota intestinal.
  • Escolha fontes de proteínas saudáveis, principalmente de origem vegetal (legumes e oleaginosas).
  • Maior consumo de legumes ricos em proteínas e fibras está associado a menor risco de doença cardiovascular, enquanto maior consumo de oleaginosas está associado a menor risco de doença cardiovascular, doença coronariana e menor incidência de ou morte por acidente vascular cerebral. A substituição dos alimentos de origem animal pelos alimentos integrais e de origem vegetal, para além dos benefícios que traz para a saúde, reduz a pegada de carbono alimentar. As alternativas à carne muitas vezes são ultraprocessadas e há poucas evidências sobre seus efeitos para a saúde em curto e longo prazos. As gorduras insaturadas são as melhores, assim como as carnes magras, não processadas.
  • Utilize óleos vegetais líquidos em vez de óleos tropicais (coco, palma e palmiste), gorduras animais (manteiga e banha) e gorduras parcialmente hidrogenadas. Gorduras saturadas e trans (gorduras animais e laticínios, e gordura parcialmente hidrogenada) devem ser substituídas por óleos vegetais líquidos não tropicais. Evidências respaldam os benefícios cardiovasculares das gorduras insaturadas alimentares, especialmente as gorduras poli-insaturadas, primariamente de óleos vegetais (como os óleos de soja, milho, açafrão, girassol, nozes e linhaça).
  • Escolha alimentos minimamente processados em vez de ultraprocessados. Devido a sua comprovada associação com desfechos adversos para a saúde, como sobrepeso, obesidade, distúrbios cardiometabólicos (diabetes tipo 2, doença cardiovascular) e morte por todas as causas, o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados é preocupante. Esses alimentos contêm corantes e sabores artificiais, além de conservantes, que promovem a estabilidade do produto durante muito tempo, preservando a textura, e aumentando a palatabilidade. Um princípio geral é dar ênfase aos alimentos não processados ou minimamente processados.
  • Reduza a ingestão de bebidas e alimentos com adição de açúcares. O acréscimo de açúcares (geralmente glicose, dextrose, sacarose, xarope de milho, mel, xarope de ácer e o suco concentrado da fruta) está relacionado com o aumento do risco elevado de diabetes tipo 2, aumento do colesterol e excesso de peso. Os achados de metanálises sobre o peso e os desfechos metabólicos ao substituir os açúcares adicionados por edulcorantes de baixa energia são heterogêneos, e foi levantada a possibilidade de causalidade reversa.
  • Escolha e prepare alimentos com pouco ou nenhum sal. Em geral, os efeitos da redução do sódio na pressão arterial tendem a ser mais expressivos entre pessoas negras, de meia-idade, idosas e/ou hipertensas. Nos Estados Unidos, as principais fontes combinadas de ingestão de sódio são os alimentos processados, preparados fora de casa, embalados e de restaurante. Os sais enriquecidos com potássio são uma alternativa promissora.
  • Se você não consome bebidas alcoólicas, não comece; se optar por fazê-lo, limite a ingestão.
  • Embora as relações entre a ingestão de bebidas alcoólicas e os resultados cardiovasculares sejam complexas, o 2020 Dietary Guidelines Advisory Committee concluiu recentemente que as pessoas que bebem não devem consumir mais do que uma dose por dia e não devem beber demais; as diretrizes Dietary Guidelines for Americans de 2020 seguem recomendando até uma dose por dia para as mulheres e duas doses por dia para os homens.
  • Siga as diretrizes independentemente dos ambientes. A orientação nutricional aplica-se a todos os alimentos e bebidas, independentemente de onde tenham sido preparados, adquiridos ou consumidos. Devem ser adotadas políticas de incentivo a opções de rotina mais saudáveis (como grãos integrais e diminuição do teor de sódio e açúcar).

Reconhecendo impedimentos

A declaração científica das sociedades AHA/ASA se encerra com a afirmação: “Criar um ambiente que facilite, em vez de impedir, a adesão a uma alimentação saudável para a função cardiovascular para todas as pessoas é um imperativo de saúde pública”. Indica o 2020-2030 Strategic Plan for National Institutes of Health Nutrition Research do National Institutes of Health dos EUA, que se concentra na nutrição de precisão como meio de “determinar o impacto na saúde não só de quem a consome, como também do porquê, quando, e como se alimentam durante toda sua vida”

Em última análise, a nutrição de precisão pode oferecer dietas personalizadas para prevenção da doença cardiovascular. Mas o “ambiente alimentar”, muitas vezes condicionado por “desinformação nutricional desenfreada” por meio de práticas e políticas municipais, estaduais e federais, pode impedir a adoção de padrões alimentares saudáveis. Fatores como marketing alimentício (como de alimentos processados e bebidas em bairros minoritários), racismo estrutural, segregação por bairros, ambientes pouco saudáveis e insegurança alimentar criam ambientes nos quais os alimentos que não são saudáveis constituem a primeira opção”.

Esses fatores compõem efeitos adversos da alimentação na saúde, e ressaltam a necessidade de “combater diretamente a desinformação nutricional entre o público e os profissionais de saúde”. Também explicam por quê, apesar do conhecimento geral acerca dos componentes alimentares saudáveis para o coração, pouco progresso tem sido feito para alcançar os objetivos da alimentação nos Estados Unidos.

O escritório da Dra. Alice, em resposta a um pedido relativo à defesa de direitos da AHA e a programas de consumidores, forneceu os seguintes links: website da iniciativa Voices for Healthy Kids (Vozes por crianças mais saudáveis) e choosing healthier processed foods (escolhendo comidas processadas mais saudáveis) e um sobre fresh, frozen, and canned fruits and vegetables (frutas e vegetais frescos, congelados e enlatados).