fonte: Faperj

Com uma vida dedicada ao estudo da Diabetes Tipo 1, a professora Marilia de Brito Gomes, médica e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), se prepara para se afastar da vida acadêmica, deixando o legado do único estudo do Brasil, e mundialmente o mais completo, sobre o Diabetes Tipo 1 no País. Realizada com a colaboração de quase duas dezenas de instituições, entre universidades, hospitais, associações e centros de pesquisa, a investigação avaliou 1.760 pacientes de diversos perfis socioeconômicos em todas as regiões do País. O estudo resultou na publicação de diversos artigos, que fizeram com que o Diabetes Tipo 1 ganhasse visibilidade em todo o Brasil e no exterior.

A investigação foi realizada em duas etapas distintas. Na primeira, ainda na Presidência da Sociedade Brasileira de Diabetes (2008/2009), Marília estimulou a aplicação de um questionário e a avaliação dos prontuários médicos dos doentes. Na segunda fase, já com apoio da FAPERJ e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a equipe pôde realizar um trabalho realmente de ponta. Segundo a endocrinologista, pela primeira vez a comunidade científica internacional teve conhecimento da Diabetes do Tipo 1 no Brasil, como a doença se comporta, qual o perfil dos pacientes, como é e quais as dificuldades de tratamento. “O Brasil tem uma população muito miscigenada e a comunidade científica internacional não tem conhecimento nem vivência nesse aspecto”, explica Marilia. Outro ponto importante da pesquisa apresentado internacionalmente foram os dados socioeconômicos dos pacientes analisados, que, muitas vezes, justificam as dificuldades enfrentadas por eles no sistema púbico de saúde.

A médica, que conta com recursos do Programa Cientista do Nosso Estado da FAPERJ para desenvolver suas pesquisas, é pró-cientista da Uerj e pesquisadora do CNPq, esclarece que a Diabetes tipo 1 difere completamente da Diabetes tipo 2, tendo em comum apenas o aumento da glicose no sangue, mas causadas por motivos diferentes. Segundo ela, no tipo 1 o paciente tem o diagnóstico ainda jovem e saudável, enquanto o tipo 2 se caracteriza como uma doença progressiva e insidiosa, mais comum em adultos e idosos, ocasião na qual o doente geralmente já possui comorbidades como hipertensão, obesidade etc.

“No Diabetes tipo 1 há uma destruição quase total das células que produzem insulina, portanto, os pacientes dependem totalmente da reposição desse hormônio, sob pena de entrarem em coma ou irem a óbito”, explica a médica. Marilia garante que o diagnóstico costuma ser rápido, principalmente devido à uma evolução muito abrupta e uma sintomatologia muito florida da doença, na qual os principais sinais são a perda severa de peso, sede excessiva e necessidade frequente de urinar. A evolução é tão rápida que, não raro, leva crianças a uma descompensação aguda e à necessidade de internação em CTI. A endocrinologista ressalta as melhorias das ferramentas disponíveis atualmente para o tratamento: “Já dispomos de canetas e agulhas muito finas para a aplicação da insulina e podemos fazer a monitorização e acompanhamento da glicemia capilar e de outras formas mais cuidadosas com o paciente”.

Outro estudo, em parceria com a Associação de Diabéticos de Bauru (SP), revelou o aumento da incidência da doença no País, com um aumento anual médio de 3%. A doença já atinge de 10 a 20 jovens a cada 100 mil habitantes. O levantamento mostra ainda que 75% dos pacientes do universo pesquisado tiveram diagnóstico da doença até os 20 anos de idade. Em média, os doentes se aposentam muito jovens, por volta dos 38 anos, devido a uma perda de capacidade/ano de 17 anos, principalmente em decorrência da retinopatia diabética, complicação muito comum da doença, que pode evoluir para a cegueira.  A taxa de mortalidade dos pacientes é três vezes maior do que a população brasileira, em geral, e a morte ocorre muito precocemente devido às complicações crônicas da doença.

A professora contou com a ajuda fundamental da aluna de doutorado Laura Gomes Nunes de Melo, contemplada com Menção Honrosa no Prêmio Capes deste ano, para estudar essa doença multifatorial. “A menção honrosa foi uma vitória para a Laura e para todos que participaram do trabalho. Para mim, particularmente, foi muito gratificante porque a Laura foi uma aluna especial. Ela não fez a faculdade na Uerj, veio da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Não nos conhecíamos, mas ela mostrou uma capacidade de trabalho muito grande”, conta a orientadora, comemorando o fato de ter contribuído para o crescimento científico e acadêmico da aluna.

O estudo da Laura avaliou justamente a retinopatia diabética, uma complicação que reduz, significativamente, a qualidade de vida do paciente, já que sua evolução pode gerar cegueira. “Esta complicação gera um custo alto para o sistema de saúde, pois esses pacientes se aposentam muito cedo devido à cegueira. Além disso, a morbidade é muito elevada”, esclarece Marilia. Segundo a orientadora, a fim de aprofundar o estudo, todos os oftalmologistas envolvidos na pesquisa receberam treinamento, conduzido pelo professor Paulo Henrique Morales, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e os procedimentos foram padronizados, aumentando a robustez dos dados. Além disso, a verba do CNPq viabilizou a aquisição de seis retinógrafos para facilitar o trabalho dos oftalmologistas.

Com o sentimento de ver seu trabalho reconhecido, Laura, que publicou quatro artigos sobre o tema como principal autora, também atribui seu sucesso ao esforço da orientadora em empreender um estudo tão completo e pioneiro, “apesar das dificuldades enfrentadas por pesquisadores no País”. A oftalmologista avaliou, pela primeira vez no Brasil, a prevalência da retinopatia diabética no universo de 1.760 pacientes estudados e os diversos níveis de evolução da doença, que afeta um terço dos pacientes com Diabetes Tipo 1, comprovando o que a literatura mundial já mostrava. O estudo identificou os fatores de risco para o desenvolvimento da retinopatia entre os doentes, mostrando que o tempo da doença, a hipertensão arterial e o descontrole glicêmico são os principais fatores que levam os diabéticos tipo 1 a desenvolverem a retinopatia, corroborando com o disponível na literatura. Laura conta que o estudo revelou uma novidade: uma associação entre os níveis de ácido úrico e a retinopatia diabética. (https://bmcpublichealth.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12889-018-5859-x e https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/aos.13760). Outra vertente da investigação constatou que os pacientes com retinopatia diabética proliferativa (fase mais avançada da doença) têm duas vezes mais chances de desenvolverem problemas cardiovasculares. O artigo publicado gerou diversas citações e configurou entre os principais artigos da revista Frontiers in Endocrinology (https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fendo.2019.00689/full). O quarto artigo produzido pela oftalmologista como primeira autora, já aceito para publicação, aborda a relação da retinopatia diabética proliferativa com fatores inflamatórios (http://dx.doi.org/10.1159/000510879). Sua expressiva produção acadêmica inclui, além dos artigos como primeira autora, a colaboração com outros trabalhos do restante da equipe.

A professora Marilia ressalta a importância da investigação da orientanda na correlação entre a retinopatia diabética e os riscos de o paciente desenvolver doença cardiovascular. “Como a Diabetes é uma doença vascular sistêmica, nesse conjunto sistêmico o coração é afetado, assim como o cérebro”, explica a endocrinologista. Segundo ela, dependendo do resultado do exame de olho, o oftalmologista terá um alerta para a necessidade de encaminhar o paciente diabético para uma avaliação cardiológica. A pesquisadora destaca outro artigo, publicado recentemente, com apoio da FAPERJ, na Diabetes Research and Clinical Practice, uma publicação da International Diabetes Federation, único estudo disponível sobre a prevalência da doença renal nos pacientes com diabetes tipo 1 no Brasil, mostrando mais essa complicação (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33010359/). “Este artigo é importante para mostrar à comunidade científica as dificuldades de prosseguirmos na investigação da doença renal em pacientes com diabetes tipo 1. É um alerta para o Brasil e demais países que se dizem ‘desenvolvidos’ e não conseguem enxergar o que acontece em países situados abaixo da linha do Equador”, afirma a pesquisadora. A última etapa que finalizará o estudo, que também conta com apoio da FAPERJ por meio do Edital de Apoio a Projetos Temáticos, será a coleta de DNA, ou seja, um raio-x genético dos pacientes de Diabetes Tipo 1 no Brasil.

“Vou encerrar minha carreira acadêmica finalizando esse trabalho, que é uma grande realização, pois sempre trabalhei com Diabetes tipo 1 e desejava fazer uma radiografia dessa doença no Brasil”. E estamos conseguindo fazer. Marília manda um recado para jovens médicos que se interessarem por estudarem a Diabetes Tipo 1: “É uma doença sem fim de semana, sem feriado e sem férias, pois exige uma interação e dedicação grande ao paciente”. Marilia acredita que devido a todas as particularidades e complicações da doença, o sistema de saúde público e o privado precisam entender que o paciente muitas vezes demanda mais de uma hora de consulta. “Toda a família fica psicologicamente muito afetada, pois é uma das doenças endócrinas mais frequentes nos jovens e até hoje não tem cura. Por isso humaniza muito o médico, já que geralmente acompanha a criança até a vida adulta e, muitas vezes, o médico compartilha da evolução para as complicações crônicas o que causa muita diminuição da qualidade de vida de indivíduos ainda jovens”, lamenta Marilia.