A AGRJ apresenta mais uma matéria especial sobre os serviços públicos de Gastroenterologia do Rio de Janeiro. Falaremos do Serviço de Gastroenterologia do HUCFF/UFRJ, referência no estado e no país para o diagnóstico de doenças complexas do trato gastrointestinal.

Agradecemos a receptividade do Chefe do Serviço, Prof. Dr. Homero Fogaça, e do Sub-Chefe, Dr. Cesar Amorim, que nos mostraram cada detalhe do Serviço de Gastro do HUCFF, além da contribuição histórica da Prof. Associada Eponina Lemme, do Departamento de Clínica Médica da UFRJ e membro de Diretoria da AGRJ, que relembrou a trajetória percorrida pela Gastro/HUCFF até hoje.

Inaugurado em março de 1978, pelo então reitor Luís Renato Caldas, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, localizado na Cidade Universitária, no Rio de Janeiro, tinha capacidade inicial de quase 500 leitos, 22 salas de cirurgias e ampla rede de ambulatórios, além de CTI.

As obras do Hospital foram iniciadas em 1950, porém, foram paralisadas mais de uma vez por falta de recursos, até serem retomadas, em definitivo, em 1975. O que permitiu que, em 1978, o hospital fosse inaugurado.

O prédio do HUCFF é considerado um marco da arquitetura moderna e guarda em sua memória a importância da universidade pública e do movimento estudantil na luta pela saúde e educação.

Atualmente, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho é referência no tratamento de diversas doenças, possuindo um campo tecnológico avançado e profissionais especializados em todas as áreas da saúde. Hoje são 150 leitos gerais e 150 leitos para tratamento de covid-19.

Considerado um dos mais importantes hospitais universitários do Brasil, recebeu este nome em homenagem ao médico e professor Clementino Fraga Filho. O hospital, de alta e média complexidade, presta assistência aos pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde).

Hoje, o Serviço de Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva é referência no diagnóstico e tratamento de doenças complexas do trato gastrointestinal.

No inicio do serviço de Gastro, a Hepatologia também fazia parte, ou seja, os dois serviços funcionavam juntos, quando da inauguração do HUCFF. Os profissionais envolvidos na chefia deste serviço original de Gastroenterologia/Hepatologia foram, respectivamente, os Professores: Jorge Toledo, Márcio Cunha, José Flávio Ernesto e Henrique Sergio M. Coelho.

Mas os primórdios da Gastroenterologia da UFRJ datam de antes da inauguração do HUCFF, como relembra a Professora Associada Eponina Lemme, do Departamento de Clínica Médica da UFRJ:

“Antes de existir o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, o ensino da Clínica Médica era feito em vários hospitais da UFRJ. Havia a Cadeira de Clínica Médica do Prof. Clementino Fraga Filho, na Santa Casa, que contava com ambulatórios e duas enfermarias. Outras Cadeiras pertenciam aos Professores Magalhães Gomes e Carlos Cruz Lima, também na Santa Casa. Parte do ensino também era realizado no Hospital Moncorvo Filho, cujo titular era o Professor Luiz Feijó. Além disso, existia a 4ª Cadeira, chefiada pelo Prof. José de Paula Lopes Pontes, no Hospital Escola São Francisco de Assis. Quando o HUCFF inaugurou, as atividades dos três hospitais migraram para o novo hospital escola, que recebeu o nome do Prof. Clementino Fraga Filho.”

Dra. Eponina relata que, na década de 80, o serviço de Gastro era composto por duas enfermarias, ambulatórios e, separadamente, um Serviço de Métodos Especiais (SME), onde se realizavam os métodos complementares, tais como: Endoscopia digestiva alta, Retossigmoidoscopia, Laparoscopia e os primórdios da Colonoscopia.

“Inicialmente, o SME foi dirigido pelo Prof. Sergio Viegas de Andrade, recém chegado dos Estados Unidos, onde ficara quatro anos. Era um gastroenterologista completo, afinal, além de clínico, realizava todos os métodos até então disponíveis. Também introduziu no Serviço, o equipamento de Motilidade Esofágica (Manometria), sendo eu a sua 1ª discípula. Infelizmente, o Prof. Sergio Andrade veio a falecer dois anos depois. Então, pelo que me recordo, a chefia do SME, passou pelas mãos de outros professores, dentre eles: Profs. Glaciomar Machado, Marcus Tulio Haddad, José Flavio Coelho e Cléber Vargas”, conta Profa. Eponina.

Quando os serviços de Gastro e Hepatologia se separaram, a chefe já era a Professora Celeste Elia, que foi responsável pelo grande crescimento do serviço. Quando se aposentou, o Professor Homero Fogaça assumiu o cargo e o faz até hoje.

“Em 2005, a Prof. Celeste Elia, titular de Gastroenterologia, identificou uma área ociosa no 4º andar do hospital. Levantou recursos, com iniciativa privada, e construiu o serviço que temos hoje, com a incorporação do SME-Gastro. Adquiriu vários aparelhos e construiu três áreas separadas de exames, a saber: para a endoscopia convencional, para o laboratório de esôfago e para os métodos mais avançados, tais como: CPRE, ecoendoscopia, etc. Sempre investindo em moderna tecnologia. A prof. Celeste Elia criou o Doutorado na Gastroenterologia, consolidou as linhas de pesquisa, investiu nas agências de fomento para aquisição de equipamentos mais modernos e implementou cursos de especialização, cujos recursos foram utilizados na manutenção das condições prediais do Serviço e na manutenção e aquisição dos equipamentos. Um auditório ligado ao serviço também foi construído. Ela exerceu a chefia de forma brilhante até se aposentar. Os chefes e os médicos que construíram a história da Gastro da UFRJ sempre foram muito zelosos, demonstrando grande orgulho por pertencerem ao serviço”, ressalta Dra. Eponina Lemme, que hoje é professora colaboradora aposentada.

Atualmente sob a chefia do Prof. Dr. Homero Fogaça, o Serviço está em um patamar ainda mais elevado, tendo se tornado, o melhor ou um dos melhores do Brasil, considerando-se Hospitais Universitários, na opinião da Dra. Eponina:

“Os desafios vêm sendo cumpridos desde a sua inauguração, mantendo-se, na medida do possível, os investimentos em pessoal e em equipamentos.”

O Serviço de Gastroenterologia tem por missão desenvolver ações de ensino e pesquisa em consonância com a função social da universidade, articulada à assistência médica de alta complexidade e integrada ao SUS, promovendo atendimento de qualidade e de acordo com os princípios éticos e humanísticos.

“Quase todos os professores realizam pesquisas na área e os médicos são pós-graduados. O hospital é um dos poucos do estado que realiza os exames de colangiopancreatografia  retrógrada endoscópica(CPRE), hemodinâmica hepática e ecoendoscopia, todos de alta complexidade”, enfatiza o Prof. Dr. Homero Fogaça.

Segundo ele, trata-se de um ganho enorme à população que sofre com doenças do trato intestinal e precisa de diagnóstico rápido. O perfil do atendimento costuma ser de pacientes mais complexos, com doenças crônicas e neoplasias malignas do tubo digestivo.

“Vale ressaltar que os procedimentos endoscópicos têm se tornado as principais ferramentas e são indispensáveis para o diagnóstico e tratamento das doenças do aparelho digestivo mais prevalentes, como o câncer colorretal e o câncer gástrico, que se encontram entre as 5 neoplasias mais frequentes. A hemorragia digestiva, complicação oriunda de doenças agudas ou crônicas, também demanda múltiplas ações endoscópicas, várias em caráter emergencial”, explica Dr. Homero.

Tanto os pacientes internados, como aqueles atendidos em ambulatório, são submetidos a exames endoscópicos de média e alta complexidade, diagnósticos e terapêuticos, eletivos ou emergenciais. O serviço oferece vagas àqueles em acompanhamento regular no HUCFF e também a pacientes de outras Unidades Hospitalares do Município do Rio de Janeiro ou de outros municípios do estado, via SISREG e NIR-HUCFF.

O Sub-Chefe do Serviço, Dr. Cesar Amorim, explica que no 1º e 2º andar funcionam os ambulatórios:

“Temos ambulatórios de todas as subespecialidades da Gastro. Desde a gastroenterologia geral à ambulatórios especializados em enfermidades do esôfago, pâncreas e intestino. Atuamos fortemente nas famosas doenças inflamatórias intestinais, inclusive, cinco ambulatórios são dedicados exclusivamente à este tema”, comenta.

Os exames mais realizados no serviço são Endoscopia e Colonoscopia. Por dia, somam em torno de 20 endoscopias e de 10 a 12 colonoscopias. Há cerca de um ano o serviço começou a realizar a enteroscopia por cápsula endoscópica, algo totalmente inédito no Rio de Janeiro.

“Recentemente, adquirimos um enteroscópio de duplo balão, que é outra ferramenta usada para investigação do intestino delgado, e viramos referência regional junto com  a aquisição da cápsula endoscópica. Só a gente possui este equipamento no estado do Rio, e no Brasil. Apenas outros dois locais possuem esta cápsula. Também realizamos, por semana, 20 CPRE´S”, comenta Dr. Cesar.

A excelência do serviço também é resultado da política de renovação de equipamentos por editais de pesquisa.

“Em 2008, por exemplo, conseguimos através de um apoio de projeto de pesquisa da FAPERJ, comprar um ecoendoscópio, o que era extremamente novo na época. As doenças do intestino delgado sempre foram de difícil avaliação e com as novas tecnologias passaram a ser mais identificadas. Ou seja, ao longo da nossa caminhada, fruto do trabalho em equipe e dos investimentos, aumentamos o nosso nível de abrangência”, explica Dr. Cesar.

“Temos curso de pós-graduação, mestrado, doutorado e de aperfeiçoamento com atuação em Gastroenterologia Clínica e Endoscopia Digestiva, o que também garante a nossa qualidade”, frisa Dr. Homero.

Em 2020, apesar das mudanças ocasionadas com a pandemia de covid-19, o Serviço de Gastroenterologia do HUCFF se manteve produtivo. Devido ao aumento da demanda assistencial, o serviço abriu duas novas salas de atendimento ambulatorial geral e, em 2021, houve a necessidade de abertura de mais uma para o acompanhamento de pacientes com doença inflamatória intestinal.

“Durante a pandemia, o hospital conseguiu arrecadar recursos e reformou todo o 1º e 2º andar. As paredes pintadas e os novos assentos foram um esforço da direção em arrecadar fundos tanto na esfera pública quanto privada. Houve um ganho enorme nas condições estruturais dos ambulatórios e das enfermarias”, afirma Dr. Cesar.

Hoje, o serviço conta com duas enfermarias com cinco leitos cada, sendo uma masculina e outra feminina, 18 salas com turnos de ambulatórios gerais e especializados, Laboratório de Esôfago, composto por três salas de exames, Setor de Métodos Especiais (SME-Gastro), composto por seis salas de exames, e atendimento permanente de urgência aos pacientes internados nas emergências hemorrágicas, à noite, e também aos finais de semana e feriados.

No Laboratório de Esôfago são realizados pHmetria, manometria tradicional e de alta resolução, impedanciopHmetria, videofluoroscopia da deglutição, videoesofagografia e ultrassonografia intraluminal esofagiana.

Já no Setor de Métodos Especiais, são realizados exames de endoscopia alta, colonoscopia, colangiopancreatografia endoscópica (CPER), ecoendoscopia e diversos procedimentos endoscópicos (dilatações endoscópicas, gastrostomias, polipectomias, mucosectomia, etc.), biópsias hepáticas e medidas de gradiente de pressão do sistema porta, além da enteroscopia por videocápsula endoscópica.

O sucesso atual do serviço se deve também, em grande parte, às lideranças passadas, como a da Dra. Celeste Elia, professora titular aposentada.

“Ela assumiu a chefia do serviço em 2005 e reestruturou o todo o modelo de atendimento, com uma administração focada no paciente e mais empreendedora. A partir dela, o número de atendimentos da gastroenterologia aumentou vertiginosamente”, frisa Dr. Homero.

“Eu ainda era aluno da faculdade da Gastro, quando em 2005, houve uma nova etapa no serviço. Dra. Celeste foi um marco na nossa história, uma revolução! Nordestina de pulso forte, ela rompeu padrões e fez negociações com a direção do hospital. Ela conseguiu um espaço no 4º andar, que estava vazio, derrubou tudo e com apoio e verba de doações construiu uma nova etapa no serviço. Dando origem à sala de métodos especiais, tão importante atualmente. Inclusive, o nome do nosso anfiteatro, que tem capacidade para 40 pessoas, foi em sua homenagem”, recorda Dr. Cesar.

Outra melhoria foi a instalação de fibras óticas, que ligam as salas de atendimento aos pacientes ao auditório reformado. Assim, os alunos conseguem acompanhar os exames endoscópicos e os procedimentos em tempo real. E como ressalta Prof. Dr. Homero: “é uma forma de evitar a exposição do paciente sem prejudicar a qualidade do ensino.”

O serviço ainda conta com um bisturi de argônio, que em alguns casos, evita a realização de procedimentos e cirurgias maiores em detrimento de procedimentos mais simples.

A novidade do serviço é que em breve atenderá, através do SISREG, à solicitações de Enteroscopia por Cápsula Endoscópica.

Orgulhosa por ter vivenciado essa história de sucesso, Dra Eponina Lemme, finaliza com um balanço dos anos trabalhados com a equipe da Gastro:

“Muitos professores se aposentaram por idade e vários médicos foram contratados, todos de padrão excelente, o que nos orgulha muito. Sou Profa. Associada aposentada, exercendo o cargo de Prof. Colaboradora voluntária, sendo responsável pelo Laboratório de Esôfago e também por um dos ambulatórios de Doenças de Esôfago, que são referência para doenças da motilidade. Sendo assim, acredito que a divulgação do Serviço é muito importante para todos nós.”

STAFF ATUAL

* A planilha abaixo inclui os funcionários ligados à Divisão Médica do HUCFF e os professores de Gastroenterologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFRJ. (A equipe de enfermagem está vinculada à Divisão de Enfermagem e a chefe setorial no SME-Gastro, que no momento, é a enfermeira Sônia Cristina Peçanha)

CARGO NOME
MÉDICO ANDREA RODRIGUES
MÉDICO ANA PAULA NOGUERES SAMPAIO
PROFESSOR CYRLA ZALTMAN
VICE-CHEFE DO SERVIÇO/MÉDICO CÉSAR AUGUSTO DA F. AMORIM
MÉDICO CAROLINA PASSOS TELLES T. MARTINS
ASS. ADMIN CARLA DA COSTA FERREIRA
AUX. ADMIN DIEGO OLIVEIRA
MÉDICO EDUARDO MADEIRA
MÉDICO EDUARDO ANTONIO PEREIRA PEIXOTO
PROF. COLABORADORA APOSENTADA EPONINA LEMME
MÉDICO FERNANDA FERREIRA FRANCISCO
PROF. SUBSTITUTA FLÁVIA MORILO
CHEFE DO SERVIÇO/PROFESSOR HOMERO SOARES FOGAÇA
MÉDICO HUANG LING FANG
PROFESSOR HEITOR SIFFERT P. SOUZA
MÉDICO ISABEL FONSECA SANTOS
PROFESSOR LUCILA MARIETA PERROTTA DE SOUZA
SECRETÁRIA LILIAN MARIA DOS SANTOS
PROFESSOR LUIZ JOÃO ABRAHÃO JR.
MÉDICO MARCELO SOARES NEVES
MÉDICO MÁRCIA FERREIRA PINTO
MÉDICO MÁRCIO DE CARVALHO COSTA
MÉDICO MARÍLIA SANTANA DE ANDRADE
MÉDICO MÔNICA SOLDAN
PROF. SUBSTITUTO MÁRCIA BEIRAL HAMMERLE
MÉDICO OCTAVIO BARROSO
MÉDICO PAULA NOVAIS ZDANOWSKI
TÉC. DE RX PAULO ROBERTO DE JESUS JANUARIO
MÉDICO RAFAEL ARARIPE
RECEPÇÃO VIVIANE SERPA ALVES ARAUJO

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