fonte: O Globo
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) criou novas diretrizes para o rastreamento e diagnóstico do diabetes tipo 2 no país. Entre as principais novidades, a entidade passa a recomendar os exames de rastreio, ou seja, para identificar a doença de forma precoce em pessoas sem sintomas, a partir dos 35 anos.
Pelas regras anteriores, a estratégia era indicada dos 45 para cima. No entanto, os especialistas responsáveis pelo documento, publicado na revista científica Diabetology & Metabolic Syndrome, citam o avanço da doença e a identificação de casos cada vez mais precoces como motivos para antecipar o rastreio.
— Antigamente, chamávamos diabetes tipo 1 de “diabetes juvenil” e a tipo 2 de “diabetes do adulto”. Mas hoje vemos diabetes tipo 2 já em jovens de 12, 14 anos, está cada vez mais cedo o aparecimento da doença. E acredito que nos próximos anos pode se antecipar ainda mais — diz Luciano Giacaglia, coordenador do Departamento de Diabetes Tipo 2 e Pré-diabetes da SBD.
A doença é causada pela produção insuficiente ou pela má absorção de insulina, o hormônio responsável por remover o excesso de glicose (açúcar) do sangue. Uma menor parte dos casos, entre 5% e 10% do total, é do tipo 1, quando a causa é um problema autoimune que leva o próprio corpo a atacar as células produtoras do hormônio no pâncreas.
Por isso, esse tipo era conhecido como “juvenil”, por se manifestar geralmente na infância e não ter relação com os hábitos de vida. Já o diabetes tipo 2, que responde por 90% dos pacientes, é associado a fatores como sobrepeso, sedentarismo e hábitos alimentares ruins. São condições que levam o organismo a demandar cada vez mais insulina, até que as células produtoras do hormônio se esgotam e deixam de funcionar adequadamente.
Segundo o Atlas da Federação Internacional de Diabetes (IDF, da sigla em inglês), 589 milhões de adultos viviam com diabetes no mundo em 2024, ou seja, 1 em cada 9. O número deve subir 45% e chegar a 853 milhões até 2050. Além disso, foram registradas 3,4 milhões de mortes ligadas à doença no ano passado, 1 a cada 6 segundos.
No Brasil, são 16,6 milhões de pessoas com diabetes, número que deve crescer 44,6% e chegar a 24 milhões nos próximos 25 anos. Porém, um grande entrave para o tratamento é o número alto de pacientes que nem mesmo sabem que vivem com a doença. Segundo o IDF, 43% dos pacientes adultos não foram diagnosticados no mundo. No Brasil, são 31,9%.
— O diabetes é uma doença silenciosa, com poucas manifestações a não ser que o paciente já esteja muito descompensado. Por isso, metade dos pacientes não sabem. Em relação ao pré-diabetes, para cada paciente que sabe, estimamos 9 que não sabem. E, no pré- diabetes, o indivíduo já perdeu de 20% a 30% das células beta que produzem insulina — afirma Giacaglia.
Testes para rastreio
Melanie Rodacki, do departamento de Diretrizes da SBD e membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica quais são os exames indicados na estratégia do rastreio:
— Recomendamos a glicemia de jejum e a hemoglobina glicada, que são exames de sangue fáceis de serem feitos. Se ambos vierem compatíveis com o diagnóstico de diabetes, mais nenhum exame é necessário para o diagnóstico. Se apenas um vier, é preciso repetir para confirmação. Agora, se os resultados vierem fora da faixa de normalidade, mas ainda não nos critérios do diabetes, recomendamos o teste adicional de tolerância à glicose oral.
Este último teste é mais sensível, usado geralmente para confirmar o diagnóstico quando os exames iniciais são inconclusivos. Nele, primeiro é feita uma coleta de sangue para, em seguida, o paciente ingerir uma solução com alta concentração (75g) de glicose. Depois, espera-se um tempo para que o exame de sangue seja repetido e, com isso, seja analisada a mudança do nível de açúcar.
Giacaglia explica que também houve uma mudança significativa nas novas diretrizes em relação a esse teste. Antes, o período de espera era de duas horas. Agora, passou para uma hora, e o nível considerado normal foi reduzido. A SBD foi a primeira sociedade médica no mundo a adotar o novo parâmetro, diz o endocrinologista:
— Parece algo simples, mas tem um impacto grande. Foi uma avaliação que o IDF vinha discutindo baseado em alguns estudos mostrando que acabávamos atrasando o diagnóstico, de maneira que muitos pacientes já estavam com comprometimento importante do pâncreas quando descobriam. Viram que poderia se antecipar em até 2 anos o diagnóstico com os novos critérios, o que no diabetes faz muita diferença.
Caso os exames estejam normais, e o indivíduo não tenha outros fatores de risco, a entidade médica recomenda que o rastreamento seja feito novamente depois de três anos. Já se houver alguma alteração, ou se o paciente tiver uma maior chance de desenvolver a doença, o prazo varia de seis meses a um ano.
A doutora em Endocrinologia pela Universidade de São Paulo (USP) Andressa Heimbecher, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, vê com bons olhos a atualização das regras no Brasil:
Sobre a alta de casos, ela destaca que o diabetes geralmente é um problema ligado à obesidade. Por isso, fatores como sedentarismo e má alimentação, cada vez mais comuns, agravam o cenário. São as principais causas de morte de pacientes com diabetes e da população em geral.
— Temos um aumento importante de obesidade e síndrome metabólica, que é o sobrepeso com acúmulo de gordura na região abdominal, levando a alterações lipídicas como nos triglicerídeos e no colesterol. Então precisamos também de políticas públicas para garantir que vamos oferecer cuidado num passo anterior, ou seja, prevenção de sobrepeso e obesidade e tratamento correto dessas doenças.
Além daqueles acima de 35 anos, as novas diretrizes recomendam o rastreamento para pessoas mais novas de acordo com alguns critérios. São eles:
Crianças e adolescentes a partir de 10 anos, ou do início da puberdade, que tenham sobrepeso ou obesidade e pelo menos um dos fatores abaixo:
- História materna de DM2 ou diabetes gestacional durante sua gravidez;
- História familiar de DM2 em parente de primeiro ou segundo grau;
- Acantose nigricans (uma doença de pele);
- Hipertensão arterial;
- Dislipidemia;
- Síndrome de ovários policísticos (SOP).
Adultos com menos de 35 anos que tenham sobrepeso ou obesidade e pelo menos um dos fatores abaixo:
- Histórico familiar de diabetes tipo 2 em um parente de primeiro grau;
- Histórico de doença cardiovascular;
- Hipertensão arterial;
- Colesterol HDL menor que 35 mg/dL;
- Triglicerídeos maiores que 250 mg/dL;
- Síndrome do ovário policístico (SOP);
- Acantose nigricans;
- Sedentarismo.
Adultos com menos de 35 anos, mesmo sem sobrepeso ou obesidade, que tenham pelo menos um dos fatores abaixo:
- Diagnóstico prévio de pré-diabetes;
- Histórico de diabetes gestacional;
- Indivíduos que usam medicamentos indutores de hiperglicemia (por exemplo, corticosteroides).
