fonte: O Globo
Novos tratamentos permitiram ao mundo avançar no combate à hepatite C na última década, mas a persistência do vírus em populações de risco torna difícil manter o ritmo de queda na prevalência. Para especialistas que participaram do último congresso internacional de infectologia, o ECCMID, na Dinamarca, o mundo vai precisar de uma vacina para derrotar essa doença que afeta o fígado.
Alguns países desenvolvidos, incluindo os Estados Unidos, enfrentam agora até mesmo um aumento na prevalência da doença, e a busca de um imunizante preventivo para cuidar contra o vírus voltou à pauta no meio de pesquisa.
“Aparentemente, hoje não parece realista a meta da Organização Mundial da Saude (OMS) de eliminar as hepatites virais da lista de grandes ameaças sanitárias até 2030”, escreveu antes do encontro um trio dinamarquês que pautou discussões no encontro, liderado pela infectologista Judith Gottwein.
Em artigo na revista Science, ela e seus colegas lança um novo apelo para que agências de financiamento e instituições de ciência prestem mais atenção ao tema.
“No futuro, o cumprimento dessa meta provavelmente vai requerer uma vacina, um produto que também resultaria numa economia de custos de muitos bilhões de dólares comparada com a política atual de testagem e tratamento apenas”, escrevem os pesquisadores.
Por causa da universalização mais tardia dos medicamentos tipo DAA (Ação Direta Antiviral), países em desenvolvimento ainda estão em um ciclo de melhora nas taxas de infecção. É o caso do Brasil, que oferece o tratamento pelo SUS e viu uma redução na incidência da doença nos últimos anos.
A Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) ainda não divulgou dados de 2022, mas no anterior a queda no número de casos pareceu já estar desacelerando. Os dados da última década, porém, sofreram grande oscilação por fatores externos. Primeiro, o critério de notificação da doença mudou em 2015, o que causou um aumento artificial nos números oficiais da incidência. Depois, com a pandemia da Covid-19, a dinâmica de infecção e monitoramento foi muito perturbada, o que também dificulta a leitura da situação real.
Para especialistas brasileiros, a política de tratamento e testagem tem de ser mantida, porque está tendo sucesso, mas uma vacina será importante para atingir os grupos mais vulneráveis, que além dos usuários de drogas injetáveis inclui os homens gays e as profissionais do sexo. Em países e comunidades mais pobres, a transmissão por falta de segurança em procedimentos médicos também ainda é comum.
A OMS indica que ocorrem hoje no mundo cerca de 1,5 milhões de infecções anuais, das quais 75% progridem para doença persistente. Existe hoje uma população global de 58 milhões pessoas vivendo com a versão crônica da hepatite C, que eleva muito o risco de cirrose e câncer. Esse número melhorou muito, e é cerca de um terço do que se registrava há oito anos, mas ainda é alto. Cerca de 290 mil mortes por ano ainda podem ser atribuídas ao vírus.
A despeito da preocupação, ocorreu uma desaceleração na última década na ciência em busca da vacina, em parte porque a ampliação no tratamento com as DAA absorveu parte do investimento do setor.
Outra outra razão foi um problema de insumos para pesquisa. O único modelo animal confiável para pesquisa até a virada do milênio eram os chimpanzés, macacos muito próximos dos humanos evolutivamente. Uma campanha global para cessar o uso desses primatas como cobaias, porém, tornou-os indisponíveis. Por muitos anos depois disso, a única maneira de testar a eficácia de vacinas candidatas foram os estudos nos próprios humanos em risco, que falharam até aqui.
Mais recentemente, camundongos geneticamente modificados para ter células hepáticas similares às humanas têm ajudado na pesquisa pré-clínica. Cientistas esperam que essas cobaias ajudem a triar melhor as drogas candidatas a testes em humanos.
A grande diversidade genética do patógeno, porém, ainda é um desafio para criação de um imunizante robusto, explica Gottwein. A pesquisa básica agora está focada na localização e caracterização de proteínas do vírus que são evolutivamente “conservadas” (similares em diferentes linhagens do patógeno) para criação de vacinas mais versáteis.
Epidemia oculta
Outro pesquisador atuante na agenda internacional para a erradicação da hepatite C, Kazuaki Chayama, da Universidade de Hiroshima, defende que o mundo precisa de um plano de ampliação da testagem enquanto uma vacina é aguardada.
“Um grande problema é que muitos portadores desconhecem sua infecção”, escreveu o cientista em artigo na revista Liver International. “Como ainda não há vacina disponível, a eventual eliminação do vírus requer a identificação e tratamento de casos não diagnosticados e a triagem de populações de alto risco.”
Na opinião do pesquisador José David Urbaez, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, com uma política robusta de testagem é até possível sonhar com a eliminação da doença em alguns locais.
— Em vários países europeus, incluindo a Espanha, a França e a Itália, onde se avançou muito na identificação das pessoas com hepatite C crônica, os médicos têm certeza que vão fazer essa eliminação por meio do tratamento — afirma.
Para ele, o problema são os nichos onde a transmissão persiste, nos grupos de risco que muitas vezes não recebem atenção das autoridades. Urbaez alerta que, no Brasil, é preciso olhar com atenção também para os presidiários e a população de rua, por exemplo.
— Esses grupos são com frequência também vítimas de violência, com sangramento, e podem se expor ao vírus — explica. — Para essas populações, se a gente descobrisse uma maneira de fazer o corpo montar uma reação imunológica eficiente, com uma vacina, aí a gente resolveria o problema.
Gottwein é uma das cientistas que estão avançando na criação da vacina. Um composto criado por seu grupo conseguiu estimular em camundongos a criação de anticorpos contra subtipos do vírus que representam 80% das linhagens hoje em circulação. O desenho de testes em humanos, porém, necessário para validar as vacinas, ainda é um desafio por requererem grupos grandes.
“É preciso que modelos de testes clínicos mais acelerados da vacina sejam facilitados”, diz a pesquisadora. Com o advento das DAA, cientistas discutem até mesmo o uso de “cobaias humanas”, voluntários que se infectariam com o vírus deliberadamente para testar a eficácia de uma vacina.
