fonte: MedScape
A incidência de eventos cardiovasculares e de morte por todas as causas aumentou significativamente entre pacientes com diabetes tipo 2 que informaram uso regular de algum inibidor da bomba de prótons (IBP) em um estudo com mais de 19.000 pacientes registrados no UK Biobank.
Durante uma mediana de acompanhamento de cerca de 11 anos, o uso regular de IBPs por pacientes com diabetes tipo 2 foi significativamente associado a um aumento relativo de 27% na incidência de doença arterial coronariana, em comparação com a ausência de uso de IBPs, após um ajuste completo para possíveis diversos fatores de confusão.
Os resultados também mostram que, após o ajuste, o uso de IBPs foi significativamente associado a um aumento relativo de 34% na incidência de infarto agudo do miocárdio, de 35% na incidência de insuficiência cardíaca e de 30% na incidência de morte por todas as causas, segundo um estudo conduzido por uma equipe de pesquisadores chineses, publicado recentemente no periódico Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism.
Os IBPs são uma classe farmacológica muito usada — com e sem prescrição médica — para reduzir a produção de ácido gástrico e tratar a doença do refluxo gastroesofágico e outros distúrbios relacionados à acidez gástrica. Essa classe farmacológica inclui medicamentos extremamente comuns, como o esomeprazol, o lansoprazol e o omeprazol.
As análises realizadas no estudo foram “rigorosas” e os achados de “uma elevação moderada do risco de doenças cardiovasculares são os resultados de “progressivos estudos observacionais em populações com e sem diabetes”, comentou a Dra. Mary R. Rooney, Ph.D., epidemiologista da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, nos EUA, cujo trabalho se concentra em diabetes e doenças cardiovasculares.
Estudos observacionais anteriores
Por exemplo, um estudo observacional prospectivo de autoria da Dra. Mary, publicado em 2021, com mais de 4.300 pacientes nos Estados Unidos, verificou que a exposição cumulativa aos IBPs por mais de cinco anos foi significativamente associada a uma incidência de eventos cardiovasculares duas vezes maior, em comparação com os pacientes que não faziam uso de IBPs. (Esse estudo não avaliou o possível efeito da presença do diabetes.)
Em outro estudo observacional prospectivo, com mais de 1.000 pacientes australianos com diabetes tipo 2, o início do tratamento com IBPs foi significativamente associado a um aumento de 3,6 vezes na incidência de eventos cardiovasculares, em comparação com os pacientes que não usavam IBPs.
Nos EUA, a prática clínica cotidiana frequentemente leva ao prolongamento desnecessário do tratamento com IBPs, segundo os autores de um editorial que acompanhou o estudo publicado em 2021 pela Dra. Mary e coautores.
Uso prolongado de IBPs pode causar danos
“A prática de realizar a profilaxia de úlceras de estresse [através da administração de um IBP] em unidades de terapia intensiva é comum”, escreveram os autores do editorial. “Embora [essa prática] seja baseada em dados e bem-intencionada, a possibilidade de causar danos (se [o IBP] for mantido por um longo período após a resolução da doença aguda) é plausível”, alertaram no editorial os médicos Dr. Nitin Malik e Dr. William S. Weintraub.
As novas análises, baseadas em dados do UK Biobank, incluíram 19.229 pacientes adultos com diabetes tipo 2, sem história de doença arterial coronariana, infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca ou acidente vascular cerebral. A coorte foi composta por 15.954 pacientes (83%) que não relataram o uso de IBPs e 3.275 que usavam IBPs regularmente na época do estudo. As limitações do estudo foram o autorrelato como única forma de verificação do uso de IBPs e a falta de informações sobre o tipo de IBP, posologia ou tempo de uso.
Os achados se mantiveram consistentes em várias análises de sensibilidade, incluindo uma análise pareada por escore de propensão, e após um ajuste adicional pelo uso de antagonistas do receptor de histamina do tipo 2, uma classe de medicamentos com indicações semelhantes às dos IBPs.
Os autores especularam que os mecanismos que podem associar o uso de IBPs ao aumento do risco de doenças cardiovasculares e morte podem incluir alterações na microbiota intestinal e possíveis interações entre os IBPs e agentes antiplaquetários.
