fonte: MedScape
Um microbioma intestinal saudável e diversificado está associado a melhor função cognitiva na meia-idade, sugere nova pesquisa.
Os pesquisadores realizaram testes cognitivos e analisaram amostras de fezes de cerca de 600 adultos. Eles descobriram que a diversidade beta, uma medida da composição da comunidade microbiana intestinal, estava significativamente associada a pontuações cognitivas.
Três gêneros bacterianos específicos mostraram associação positiva com o desempenho em pelo menos um teste cognitivo, enquanto um apresentou associação negativa.
“Os dados do nosso estudo apoiam uma associação entre a comunidade microbiana intestinal e a medida da função cognitiva, resultados consistentes com os achados de outras pesquisas em humanos e animais”, relatou ao Medscape a pesquisadora do estudo Katie Meyer, professora assistente do Departamento de Nutrição da UNC Gillings School of Public Health, nos Estados Unidos.
“No entanto, também é importante reconhecer que ainda estamos aprendendo a caracterizar o papel dessa comunidade ecológica dinâmica e a traçar caminhos mecanicistas”, disse ela.
O estudo foi publicado on-line em 09 de fevereiro no periódico JAMA Network Open.
Pesquisa “inédita”
“As vias de comunicação entre as bactérias intestinais e a função neurológica (referida como ‘eixo intestino-cérebro’) surgiram como uma nova área de pesquisa sobre os potenciais mecanismos que regulam a saúde do cérebro por vias imunológicas, metabólicas e endócrinas”, escreveram os autores.
Vários estudos “mostraram associações entre medidas microbianas intestinais e desfechos neurológicos, inclusive função cognitiva e demência”, mas os mecanismos subjacentes a essas associações “não foram totalmente estabelecidos”.
Pequenos estudos em animais e humanos sugeriram que a diversidade microbiana reduzida estivesse associada a uma cognição mais pobre, mas os estudos não tiveram populações grandes e diversificadas baseadas na comunidade.
Os pesquisadores então examinaram associações transversais de diversidade microbiana intestinal e composição taxonômica com condição cognitiva em um grande grupo de adultos negros e brancos inscritos no estudo Coronary Artery Risk Development in Young Adults (CARDIA). O grupo era morador de quatro áreas metropolitanas e tinha diversidade sociodemográfica.
Os autores do estudo levantaram a hipótese de que a diversidade microbiana estaria positivamente associada à condição cognitiva global e domínio-específica, e que uma melhor condição cognitiva estaria associada a grupos taxonômicos específicos envolvidos na produção de ácidos graxos de cadeia curta.
O exame de acompanhamento no 30º ano do CARDIA ocorreu em 2015/2016, quando os participantes originais tinham entre 48 e 60 anos. Durante esse exame, os participantes fizeram uma bateria de avaliações cognitivas e 615 forneceram uma amostra fecal para um subestudo do microbioma; destes, 597 (média [desvio padrão] de idade, 55,2 [3,5] anos, 44,7% negros, 45,2% brancos) tinham DNA de fezes disponível para sequenciamento e uma bateria completa de testes cognitivos, sendo incluídos no estudo atual.
Os testes cognitivos foram: Teste de Substituição de Dígitos por Símbolos (DSST, sigla do inglês Digit Symbol Substitution Test), Teste de Aprendizagem Auditivo-Verbal de Rey, teste de Stroop cronometrado, fluência de letras e fluência de categorias e Avaliação Cognitiva de Montreal (MoCA, sigla do inglês Montreal Cognitive Assessment).
Covariáveis que podem confundir associações entre medidas microbianas e cognitivas, incluindo índice de massa corporal, diabetes, idade, sexo, raça, centro de pesquisa, educação, atividade física, tabagismo atual, qualidade da dieta, número de medicamentos e hipertensão, foram incluídas nas análises.
Os pesquisadores conduziram três análises microbianas padrão: diversidade alfa intrapessoal; diversidade beta interpessoal; e taxa individual.
Possíveis caminhos
As associações mais fortes nos testes de variância para diversidade beta, que foram significativas para todas as medidas de cognição na análise multivariada ajustada coordenada principal (todos os Ps = 0,001, exceto para o teste de Stroop: P = 0,007). No entanto, a associação com a fluência das letras não foi considerada significativa (P = 0,07).
Após o ajuste completo para variáveis sociodemográficas, comportamentos de saúde e covariáveis clínicas, os pesquisadores descobriram que três gêneros estavam associados positivamente, enquanto um estava associado negativamente, a medidas cognitivas.
| Microbiota | Associação | Teste cognitivo | Beta (IC de 95%) |
|---|---|---|---|
| Barnesiella | Positiva |
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| Lachnospiraceae grupoFCS020 | Positiva |
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| Akkermansia | Positiva |
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| Sutterella | Negativa |
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“Os resultados mais fortes do nosso estudo foram de uma análise multivariada que pode ser considerada uma avaliação da comunidade em geral”, explicou a Prof.a Katie.
Ela apontou vários caminhos pelos quais a microbiota intestinal pode contribuir para a saúde do cérebro.
“Sabemos, por conta de estudos mecanicistas em modelos animais, que a microbiota intestinal está envolvida na inflamação sistêmica, que é um fator de risco de patologia cerebral”, disse.
Além disso, “a microbiota intestinal está envolvida na produção de metabólitos, que podem afetar o cérebro, inclusive metabólitos de triptofano e ácidos graxos de cadeia curta, muitos dos quais derivam de componentes da dieta, o que pode ajudar a explicar associações entre dieta e cognição (por exemplo, uma dieta de estilo mediterrâneo pode ser protetora)”, acrescentou.
Ponto de partida
Comentando para o Medscape, o Dr. Timothy Dinan, Ph.D., médico e professor de psiquiatria e pesquisador do APC Microbiome Institute, University College Cork, na Irlanda, disse: “Este é um estudo importante, que contribui para o crescente corpo de evidências de que a microbiota intestinal influencia a função cerebral”.
O Dr. Timothy, que não participou do estudo, continuou: “Em uma amostra impressionantemente grande, foi demonstrada uma associação entre cognição e arquitetura da microbiota intestinal”.
Ele alertou que o estudo “é limitado pelo fato de ser transversal e as relações serem correlacionais”. No entanto, “apesar dessas advertências óbvias, o artigo, sem dúvida, avança no campo”.
A Prof.a Katie concordou, observando que há “uma escassez de biomarcadores que podem ser usados para prever declínio cognitivo e demência”, mas como o estudo foi transversal, “não podemos avaliar a temporalidade (ou seja, se a microbiota intestinal prevê declínio cognitivo); mas, para começar, podemos avaliar associações”.
Ela acrescentou: “Neste momento, sabemos bem mais sobre os fatores de risco modificáveis que demonstraram estar positivamente associados à função cognitiva”, inclusive a dieta mediterrânea e a atividade física.
“É possível que os efeitos protetores da dieta e da atividade física possam, em parte, operar através da microbiota intestinal”, sugeriu a Prof.a Katie.
