fonte: MedScape
Novos resultados de uma análise retrospectiva feita em um único centro sugerem que pessoas com diabetes e cistos pancreáticos apresentam cistos maiores no momento do diagnóstico e uma taxa de crescimento acelerado em seguida. Tabagismo foi independentemente associado à taxa de crescimento acelerado.
A maioria dos pacientes com câncer de pâncreas havia sido previamente diagnosticada com hiperglicemia e diabetes, e o câncer de pâncreas pode causar diabetes. “Esse tipo de causalidade dupla levanta questões sobre se a hiperglicemia, ou o novo diagnóstico de diabetes em si, pode ser um prenúncio de câncer ou pré-câncer. Esses pacientes deveriam ser monitorados mais de perto?”, disse o Dr. David Robbins em uma entrevista.
O Dr. David, médico e professor associado de medicina e diretor do programa de gastroenterologia no Northwell Health System, nos Estados Unidos, apresentou o estudo na reunião anual do American College of Gastroenterology.
Taxas de crescimento acelerado de cistos pancreáticos na presença de diabetes são importantes, porque representam um potencial marcador de agressividade do cisto, “portanto, a questão realmente é, no contexto do diabetes, existem fatores circulando na corrente sanguínea ou outros fatores intrínsecos que tornam esses cistos mais perigosos e exigem uma abordagem de vigilância diferente da adotada quando a pessoa não tem diabetes? Nós temos diretrizes (de vigilância) que se dirigem à população média, mas não focam realmente no que fazer com indivíduos com diabetes”, explicou o Dr. David durante a apresentação.
O estudo pode ter implicações para o rastreamento, disse a moderadora da sessão Dra. Dayna Early, médica, professora de medicina da Washington University e diretora de endoscopia do Barnes Jewish Hospital, ambos nos EUA. “Acho que esta é uma informação importante para nos guiar a observar mais de perto os pacientes com diabetes que têm cistos pancreáticos”, disse ela em uma entrevista.
O estudo incluiu 177 adultos com cistos pancreáticos ou alterações em exames de imagem entre 2013 e 2020; 65% por cento eram mulheres; a média de idade média foi de 65,4 anos; e 64,0% eram brancos, 10,0% eram negros e 8,5% eram asiáticos. Entre os participantes, 24,8% eram fumantes e 32,2% tinham diabetes tipo 2.
Pacientes com diabetes tinham cisto maiores (2,23 cm versus 2,76 cm), bem como taxa de crescimento anual do cisto mais alta (1,90 cm vs. 1,30 cm). O tamanho do cisto e a taxa de crescimento foram semelhantes entre os pacientes com diabetes controlado e não controlado. O tabagismo foi associado a cistos maiores em geral (2,2 cm vs. 1,81 cm), com cistos ainda maiores entre pacientes com diabetes que fumavam (2,35 cm).
Setenta e um pacientes tiveram confirmação patológica por punção aspirativa por agulha fina guiada por ultrassom endoscópico. “No grupo com diabetes, dois evoluíram com adenocarcinoma, enquanto seis pacientes no grupo sem diabetes apresentaram adenocarcinoma. Não houve diferença nos marcadores séricos antígeno carcenoembrionário (CEA) ou CA 19-9“, destacou o Dr. David durante sua apresentação.
Dos 28 pacientes com diagnóstico de câncer pancreático, 13 tinham diabetes tipo 2.
Definindo o perigo
A taxa de crescimento do cisto mais perigosa ainda é incerta. Algumas diretrizes recomendam que indivíduos com diabetes de início recente ou agravamento do diabetes e neoplasia mucinosa papilar intraductal ou cistos de neoplasia mucinosa cística ou cistos isolados crescendo > 3 mm por ano podem ter risco significativamente aumentado de câncer pancreático. Essas diretrizes recomendam rastreamento por ressonância magnética de curto intervalo ou aspiração por agulha fina por ultrassom endoscópico. No entanto, essa recomendação é condicional e é respaldada por um nível de evidência muito baixo.
Outros estudos mostraram riscos variáveis em taxas de crescimento diferentes. “Essa questão não está muito clara. E é por isso que eu acho que, embora nosso estudo seja pequeno e exploratório, esta é uma área em particular cuja avaliação é relativamente fácil. Temos enormes bancos de dados de evolução de cistos pancreáticos e sabemos que 30 milhões de estadunidenses têm diabetes; portanto, o próximo estudo óbvio é fazer uma análise mais sistemática disso e trabalhar com intenção de refinar e dar sentido a essas diretrizes divergentes, todas dizendo a mesma coisa, mas usando diferentes números de limiar”, disse o Dr. David.
O próximo passo é fazer estudos multicêntricos maiores no contexto de outros fatores de risco, como história familiar e tabagismo, mas o achado em tela representa uma oportunidade de detectar pelo menos alguns tumores pancreáticos mais cedo, de acordo com o Dr. David. Ele sugeriu que indivíduos com diabetes diagnosticados com cisto pancreático sejam encaminhados a um gastroenterologista ou outro especialista para monitorar o crescimento do cisto. “Ainda vão faltar muitas pessoas que não realizaram imagens por qualquer motivo (e, portanto, não têm um cisto identificado), mas é uma oportunidade inicial e é melhor do que o que estamos fazendo agora”.
Durante a palestra, o Dr. David disse: “Dada a facilidade, disponibilidade e baixo custo do rastreamento do diabetes na população clínica geral, incentivamos a inclusão da hemoglobina glicada e da glicemia em jejum em algoritmos para vigilância de cistos pancreáticos”.
A Dra. Dayna achou a sugestão intrigante, mas não estava pronta para dar apoio total. “Acho que a sugestão de possivelmente monitorar os níveis de hemoglobina glicada é uma novidade. Não sei se iremos necessariamente adotar isso como prática padrão, mas é algo que pode ser avaliado no futuro como uma forma de ajudar na estratificação do risco para decidir se os pacientes precisam ser investigados com mais frequência”, disse ela.
