fonte: MedScape

Cerca de 5% dos adultos com diabetes tipo 2 têm remissão espontânea da doença, muitas vezes sem o conhecimento do paciente e sem história de intervenção agressiva de perda ponderal, segundo uma nova análise de dados de mais de 160.000 pessoas de um registro nacional de diabetes na Escócia.

“Um dos nossos principais novos achados é que uma proporção razoavelmente grande de pessoas com diabetes tipo 2 teve resolução espontânea com o atendimento de rotina, sem passar por cirurgia bariátrica e antes da introdução de intervenções de redução calórica no atendimento de rotina”, disse a médica Dra. Mireille Captieux, primeira autora do artigo, em uma entrevista.

Os resultados “corroboram relatos anteriores de que a perda ponderal está associada à remissão do diabetes tipo 2”, disse Dra. Mireille, que é pesquisadora em diabetes na University of Edinburgh, na Escócia.

Na análise, duas das mais fortes correlações de remissão foram relacionadas à perda ponderal.

Em primeiro lugar, a história de cirurgia bariátrica, que só representou 488 pessoas (0,3% da coorte do estudo), foi associada a um aumento da taxa de remissão 13 vezes maior do que a ausência de cirurgia bariátrica. Em segundo lugar, uma perda ponderal ≥ 15 kg no momento da detecção da remissão em 2019, em comparação ao peso no momento do diagnóstico do diabetes, foi associada a um aumento de mais de quatro vezes da taxa de remissão em comparação aos que não perderam tanto peso.

Mas, “mesmo a perda uma pequena quantidade de peso, aumentou as chances de remissão”, destacou a Dra. Mireille. “Este achado contrapõe a pessimista suposição de que quase todo mundo acha muito difícil perder peso.”

Mensagem de esperança, mas quem alcança a remissão do diabetes?

“O animador aqui é o fato de haver pessoas que provavelmente não fizeram nada demais e ainda assim entraram em remissão. O próximo passo é descobrir quem são essas pessoas e o que elas fizeram para conseguir essa resolução espontânea da doença”, comentou a Dra. Julia Lawton, Ph.D., professora de saúde e ciências sociais na University of Edinburgh, que pesquisa a relação dos pacientes com o diabetes.

“Se conseguirmos entender quem são os pacientes que podem ter resolução espontânea sem nenhuma medida extrema, isso pode ajudar os profissionais de saúde a superarem suas premissas sobre quem é ou não bom candidato à remissão do diabetes”, disse Dra. Julia, que não participou do novo estudo.

A mensagem deste estudo é “muito esperançosa”, disse a Dra. Julia em uma entrevista. “Como podemos disponibilizar esta oportunidade de remissão do diabetes para mais pacientes? O que podemos aprender com esses pacientes e aplicar a outros pacientes?”

A Dra. Mireille concordou. Diante dos achados, um importante próximo passo é saber mais sobre a população em remissão para entender melhor “suas perspectivas em relação aos desafios e aos benefícios de apoiar a perda ponderal.”

“A obesidade é um problema complexo e, portanto, as intervenções de perda ponderal que visam ações e comportamentos individuais têm maior probabilidade de serem eficazes se forem acompanhadas de várias intervenções, em diferentes níveis”, disse a Dra. Mireille.

Além disso, “são necessárias mais evidências para avaliar a sustentabilidade da remissão do diabetes e o efeito de diferentes durações de remissão para uma definição que tenha relevância clínica”.

Melhor definição da remissão do diabetes

A Dra. Mireille observou que a nova definição internacional de consenso da remissão do diabetes tipo 2, que especifica uma duração mínima de três meses de controle glicêmico para se qualificar como remissão, significando que as pessoas com diabetes “podem frequentemente oscilar” entre a remissão e a doença ativa.

Isso torna importante definir melhor o efeito da duração da remissão do diabetes em relação às várias complicações da doença.

Outra questão levantada pelos novos achados é a importância de diferenciar as pessoas que perdem peso em decorrência de uma alimentação mais saudável e do aumento da atividade física daquelas que perdem peso em decorrência de alguma doença crônica ou fragilidade, seguida de resultados adversos em longo prazo.

Se essas duas populações não forem diferenciadas em um estudo de coorte observacional, como o realizado por Dra. Mireille et al., então as pessoas com doença crônica podem parecer ter piores desfechos após a remissão do diabetes.

Dra. Mireille et al. usaram dados obtidos no registro Scottish Care Information–Diabetes, que contém informações de quase todas as pessoas diagnosticadas com diabetes na Escócia. Os pesquisadores se concentraram nas pessoas com diabetes diagnosticadas entre 2004 e 2018, que tinham pelo menos 30 anos de idade no momento do diagnóstico inicial, e que foram tratadas no sistema nacional de saúde em 2019.

Isso rendeu uma coorte de estudo de 162.316 pessoas, das quais 7.710 (4,8%) foram identificadas pelos pesquisadores como estando em remissão em 2019.

Os pacientes em remissão foram definidos como pessoas com hemoglobina glicada (HbA1c) < 6,5% na leitura índice, em 2019, e cujo nível de HbA1c poderia ter sido registrado como < 6,5% pelo menos um ano antes da dosagem de 2019.

Em uma análise primária de regressão logística, os autores identificaram cinco variáveis significativamente relacionadas com a remissão: ter pelo menos 65 anos de idade (a associação foi ainda mais forte > 75 anos), nível de HbA1c mais baixo no momento do diagnóstico inicial de diabetes, perda ponderal, cirurgia bariátrica e ausência de tratamento com hipoglicemiantes.

A associação mais forte foi a ausência de história de tratamento com hipoglicemiantes em 2019. As pessoas que preencheram esse critério tiveram quase 15 vezes mais chances de estarem em remissão em 2019 do que aquelas que receberam pelo menos um agente.