fonte: MedScape

Em lactentes bangladenses com desnutrição grave, a reintrodução da bactéria Bifidobacterium infantis levou a um rápido ganho de peso e diminuiu os marcadores de inflamação intestinal, segundo os pesquisadores.

B. infantis é uma colonizadora inicial do intestino infantil que consume oligossacarídeos do leite humano.

“A microbiota intestinal de lactentes com desnutrição aguda grave apresentou uma composição completamente diferente da microbiota de lactentes saudáveis da mesma idade que moravam na mesma comunidade”, relatou à Reuters Health em um e-mail o Dr. Michael Barratt, da Washington University School of Medicine, nos Estados Unidos.

“A microbiota em crianças com desnutrição aguda grave era menos madura e apresentava deficiência de bactérias importantes da microbiota intestinal saudável, especialmente a B. infantis“, disse ele. “Pelo contrário, essa microbiota estava dominada por espécies de bactérias com potencial para causar efeitos adversos em crianças, como inflamação intestinal, prejuízos na função de barreira do intestino e interferência na absorção de nutrientes.”

“O tratamento de lactentes com desnutrição aguda grave com uma cepa comercial de um probiótico isolado de um lactente americano promoveu a restauração parcial dos níveis de B. infantis, mesmo que esses níveis ainda estivessem abaixo daqueles encontrados em crianças saudáveis”, observou. “O tratamento levou a um ganho de peso associado à melhora nos biomarcadores de inflamação intestinal.”

“Surpreendentemente,” acrescentou, “estudos em animais com cepas de B. infantis isoladas de crianças bangladenses saudáveis identificaram uma cepa com características genômicas peculiares que faziam com que ela fosse mais competitiva, ou seja, promovesse uma colonização intestinal mais robusta do que a cepa utilizada no nosso ensaio clínico, em uma dieta bangladense realista contendo leite e ingredientes de origem vegetal”.

Como publicado no periódico Science Translational Medicine, o Dr. Michael e colaboradores conduziram um ensaio clínico simples-cego, controlado por placebo (SYNERGIE) em 62 lactentes bangladenses (com dois a seis meses de vida) com desnutrição aguda grave. Os lactentes receberam uma cepa comercial de B. infantis (EVC001) oriunda de um doador lactente americano.

A cepa EVC001 foi administrada diariamente com ou sem a suplementação do oligossacarídeo de leite humano lacto-N-neotetraose durante 28 dias. Como ressaltado pelo Dr. Michael, a intervenção levou ao aumento da presença de B. infantis em lactentes com desnutrição aguda grave, mesmo que em níveis 10 a 100 vezes menores do que em pacientes saudáveis do grupo controle não tratados. A cepa EVC001 também promoveu ganho de peso associado à redução de marcadores de inflamação intestinal em lactentes com desnutrição aguda grave.

A equipe então cultivou cepas fecais de B. infantis de lactentes bangladenses saudáveis e colonizou camundongos gnotobióticos (ou seja, com microbiota definida) com essas bactérias. Em seguida, os camundongos receberam uma dieta similar àquela consumida por lactentes bangladenses com seis meses de vida, com ou sem oligossacarídeos de leite humano.

Uma cepa específica de B. infantis, denominada Bg_2D9, que expressou dois grupos de genes envolvidos na captação e utilização de N-glicanos e polissacarídeos de origem vegetal, apresentou uma capacidade superior de quebrar a glicose e os carboidratos vegetais, levando a um maior ganho de peso quando comparada com a cepa EVC001 em dois modelos em camundongos.

Os autores observaram que “são necessários mais testes clínicos para definir se a cepa Bg_2D9 é superior à EVC001 para o tratamento de lactentes desnutridos em uma dieta com quantidade limitada de leite materno”.

O Dr. Michael acrescentou que “apesar de muito promissor, nosso pequeno estudo-piloto foi planejado principalmente para mensurar a eficiência da colonização da cepa de B. infantis. São necessários estudos maiores para confirmar a segurança dessa intervenção nessas crianças vulneráveis e para estabelecer dados robustos sobre a magnitude e a durabilidade do benefício clínico, inclusive a identificação da duração e da frequência adequadas para o tratamento”.

“Além disso”, disse ele, “é necessário estabelecer em que medida a deficiência de B. infantis seria uma característica essencial da desnutrição aguda grave em outros contextos”.

A Dra. Rebecca Knickmeyer, professora associada do Departamento de Pediatria e Desenvolvimento Humano da Faculdade de Medicina na Michigan State University, nos Estados Unidos, considerou o estudo “bastante promissor”.

Entretanto, disse a Dra. Rebecca, “apesar de o foco na B. infantis ser bem justificado, é importante observar que as espécies do gênero Bifidobacterium representam uma porcentagem relativamente pequena da comunidade microbiana geral em muitos lactentes, sendo que outros microrganismos poderiam ter efeitos benéficos ou prejudiciais relevantes para a desnutrição aguda grave”.

“Os lactentes com desnutrição aguda grave estavam dominados por bactérias patogênicas, como EscherichiaShigellaKlebsiella e Streptococcus, porém o tratamento com a EVC001 não reduziu de forma significativa a presença dessas espécies”, observou. “Os estudos em camundongos sugerem que a cepa Bg_2D9 possa ter um desempenho melhor nesse quesito.”

“Além disso, os níveis de EVC001 caíram substancialmente após a interrupção do tratamento, sendo que essa terapia aparentemente não influenciou a composição geral do microbioma”, disse a professora. “Em outras palavras, o tratamento não produziu mudanças duradouras.”

“Os estudos materno-infantis em camundongos sugerem que tratamentos maternos com probióticos durante a gestação poderiam ajudar a prevenir a desnutrição aguda grave”, acrescentou. “Eu achei isso bastante animador, visto que no tratamento de crianças que já estão doentes é improvável que sejam revertidas as consequências da desnutrição aguda grave sobre o desenvolvimento, inclusive o neurológico.”