fonte: MedScape

Especialistas em saúde pública do Reino Unido disseram que um adenovírus segue sendo o mais provável fator subjacente no surto de hepatite de início súbito em crianças da região.

As investigações ainda estão em andamento sobre se algum um cofator pode fazer com que um adenovírus normal produza uma apresentação clínica mais grave, informou a UK Health Security Agency (UKHSA) em um comunicado divulgado no início da semana.

Outros três casos confirmados de hepatite aguda não A-E em crianças com transaminases séricas superiores a 500 UI/L foram registrados desde o último comunicado da agência em 21 de abril, elevando o número total de casos conhecidos para 111. Desses, 81 ocorreram na Inglaterra, 14 na Escócia, 11 no País de Gales e cinco na Irlanda do Norte.

Nenhuma morte foi registrada no Reino Unido, mas um total de 10 crianças afetadas posteriormente precisaram ser submetidas a um transplante de fígado. Dos casos na Inglaterra, 43 indivíduos já se recuperaram.

Crianças pequenas

Os casos envolveram predominantemente crianças menores de cinco anos, embora um pequeno número com 10 anos ou mais esteja sendo investigado, de acordo com um briefing técnico publicado pela UKHSA, que não deu mais detalhes sobre os pacientes por questões de confidencialidade.

“Os casos na Inglaterra não são conhecidos por serem epidemiologicamente conectados, não são contatos entre si, e estão dispersos por todo o país”, disse a Dra. Meera Chand, diretora de infecções clínicas e emergentes da UKHSA, em uma sessão especial do congresso do European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC), em Lisboa, Portugal.

“A mediana de idade dos casos é de três anos, aquela faixa etária ainda pré-escolar, a grande maioria está na faixa de um a seis anos.”

Link com adenovírus

Dos 53 casos testados para adenovírus, 40 foram positivos. A tipagem preliminar foi consistente com o tipo 41F, nos casos em que os dados estavam disponíveis a partir de amostras de sangue, embora outros tipos de adenovírus tenham sido identificados em amostras não sanguíneas. Dados laboratoriais e de rotina do NHS mostraram um aumento acentuado atual de infecções por adenovírus em comparação com anos anteriores, particularmente em crianças de um a quatro anos.

A UKHSA informou que o sequenciamento completo do genoma ainda é necessário antes que a natureza do adenovírus envolvido no aumento de casos possa ser mapeada, um processo que pode confirmar ou descartar a hipótese de que uma nova cepa de adenovírus tenha surgido com características alteradas. No entanto, o sequenciamento está se mostrando um desafio devido aos baixos níveis virais nas amostras.

“Acho que nossa principal hipótese, baseada nos dados que vimos, provavelmente seria que temos um adenovírus normal circulando”, disse a Dra. Meera.

“Mas temos algum cofator afetando uma faixa etária específica de crianças pequenas, que está tornando essa infecção mais grave ou fazendo com que ela desencadeie algum tipo de imunopatologia”.

A covid teria algum papel?

Embora o principal suspeito do surto de hepatite não-A-E continue sendo um adenovírus, a agência britânica disse que as investigações estão examinando outras possibilidades, incluindo maior suscetibilidade devido à exposição reduzida a patógenos durante a pandemia de covid-19, infecção anterior por SARS-CoV-2, outras infecções, ou mesmo toxinas.

No entanto, as altas taxas de detecção de SARS-CoV-2 não foram inesperadas, devido à alta prevalência na comunidade, disseram os especialistas em saúde pública. Até agora não há evidências de que uma nova variante do SARS-CoV-2 possa estar implicada. Da mesma forma, vacinas anticovídicas, viagens e os vírus das hepatites A a E foram descartados como possíveis fatores.

A síndrome clínica muitas vezes começa com sintomas parecidos com os da gastroenterite, seguidos pelo aparecimento de icterícia. Pesquisadores na Escócia identificaram o surto pela primeira vez em 31 de março, quando a Public Health Scotland foi alertada depois que crianças de três a cinco anos foram internadas no Royal Hospital for Children, em Glasgow, com hepatite grave de etiologia desconhecida, todas em uma janela de três semanas.

“Realmente, isso foi obra de médicos astutos, que perceberam que estavam vendo algo incomum”, disse a Dra. Meera.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) foi alertada em 5 de abril, com o governo do Reino Unido relatando mais casos na Inglaterra, no País de Gales e na Irlanda do Norte, em 12 de abril. Em todo o mundo, pelo menos 169 casos graves de hepatite em crianças com idades entre um mês e 16 anos foram identificados no surto atual, informou a OMS. Entre os casos, pelo menos uma criança morreu e 17 necessitaram de transplantes de fígado. As crianças têm entre 1 mês e 16 anos.

Perguntas não respondidas

Comentando sobre o último briefing da UKHSA para o Science Media Center, a Dra. Deirdre Kelly, professora de hepatologia pediátrica da Universidade de Birmingham, disse: “Ainda precisamos ver evidências de uma relação com infecção anterior por covid, e se as crianças afetadas são geneticamente ou imunologicamente diferentes, especialmente em relação ao adenovírus, que pode ser um gatilho e não o fator causador”. Também é necessário realizar uma análise dos fígados explantados, acrescentou a especialista.