fonte: MedScape

A intolerância às estatinas é muito menos comum do que os relatos anteriores indicam, diz nova metanálise que analisou os efeitos adversos das estatinas a partir de dados de mais de 4 milhões de adultos de todo o mundo.

O estudo coloca a prevalência de intolerância às estatinas entre 6% e 10%, o que significa que, na maioria dos casos, a intolerância às estatinas é “superestimada e diagnosticada em excesso”, disse à imprensa o Dr. Maciej Banach, Ph.D. médico da Universidade de Medicina de Lodz e da Universidade de Zielona Góra, na Polônia.

Isso também significa que “cerca de 93% dos pacientes em terapia com estatinas podem ser tratados de forma eficaz, com muito boa tolerabilidade e sem problemas de segurança”, acrescentou Dr. Maciej.

O estudo, realizado em nome da Lipid and Blood Pressure Meta-Analysis Collaboration e do International Lipid Expert Panel, foi publicado on-line em 16 de fevereiro no periódico European Heart Journal.

Dados tranquilizadores

Em uma declaração da organização sem fins lucrativos britânica Science Media Center, o Sir Nilesh J. Samani, diretor médico da British Heart Foundation, disse: “Décadas de evidências provam que as estatinas salvam vidas. Esta última análise, mostrando que o risco de efeitos colaterais das estatinas é menor do que se pensava, deve tranquilizar aqueles que recebem o medicamento para reduzir o risco de infarto do miocárdio ou acidente vascular cerebral (AVC)”.

A prevalência de intolerância às estatinas varia amplamente, desde 2% a 3% até 50%, principalmente porque “ainda falta uma maneira clara e fácil de aplicar a definição de intolerância às estatinas”, disse Dr. Maciej ao Medscape.

“As que usamos em ambulatórios de tratamento de dislipidemia – pela National Lipid Association (NLA), European Atherosclerosis Society (EAS) e International Lipid Expert Panel (ILEP) – não são usadas ou são raramente usadas na prática clínica pelos clínicos gerais e outros especialistas”, explicou o Dr. Maciej.

Ele também culpou “a inércia do médico. Quando ouvem um paciente reclamar de dor muscular ou veem alanina aminotransferase (ALT) elevada, na maioria dos casos, eles suspendem imediatamente as estatinas, sem maiores investigações. Deve-se lembrar que existem muitas causas secundárias de intolerância às estatinas”, disse Dr. Maciej.

Para entender melhor a verdadeira prevalência de intolerância às estatinas, a equipe do estudo fez uma metanálise de 4.143.517 pacientes em todo o mundo a partir de 176 estudos: 112 ensaios clínicos randomizados e 64 estudos de coorte.

A prevalência global de intolerância às estatinas foi de 9,1% (intervalo de confiança [IC] de 95% de 8,0% a 10,0%).

A prevalência de intolerância às estatinas foi ainda menor quando avaliada com critérios diagnósticos da NLA (7,0%; IC 95% de 6,0% a 8,0%), da ILEP (6,7%; IC 95% de 5,0% a 8,0%) e da EAS (5,9%; IC 95% de 4,0% a 7,0%).

Os principais fatores associados ao aumento do risco de intolerância às estatinas são sexo feminino, hipotireoidismo, alta dose de estatina, idade avançada, uso concomitante de antiarrítmicos e obesidade. Outros fatores incluem raça (ser asiático ou afro-americano), diabetes tipo 2, uso de álcool e doenças hepáticas ou renais crônicas.

“Nossos achados significam que devemos avaliar os sintomas dos pacientes com muito cuidado, primeiro para ver se são realmente causados pelas estatinas e, em segundo lugar, para avaliar se pode ser a percepção dos pacientes de que as estatinas são prejudiciais ­– o chamado efeito nocebo ou ‘drucebo’[1] – o que pode responder por mais de 50% de todos os sintomas, em vez do medicamento em si”, disse o Dr. Maciej.

Ele incentiva o uso do Índice Clínico de Sintomas Musculares Associados a Estatinas (SAMS-CI) para avaliar a probabilidade de os sintomas musculares de um paciente serem causados ou agravados pelo uso de estatinas.

Análise substancial, resultados válidos

“Esta é uma análise substancial e, com base no que sabemos sobre os efeitos colaterais das estatinas até o momento, os resultados provavelmente serão amplamente válidos e indicam que não devemos superestimar os efeitos colaterais das estatinas ou sermos muito rápidos em suspender as estatinas sem a devida consideração”, disse Dr. Riyaz Patel, médico, professor de cardiologia da University College London, no Reino Unido.

“Alguns pacientes apresentam efeitos colaterais reais e fazemos o melhor possível para ajudá-los com terapias alternativas, como com qualquer outro medicamento. No entanto, na grande maioria dos casos de efeitos colaterais com as estatinas, podemos trabalhar com o paciente para que ele entenda os sintomas e use estratégias comprovadas para gerenciá-los, garantindo que eles não deixem de ter os benefícios bem estabelecidos das estatinas”, disse Dr. Riyaz.

“Isso é especialmente importante para pessoas que já tiveram um infarto do miocárdio ou AVC, em que a terapia com estatinas é realmente importante para a prevenção de novos eventos”, acrescentou o Dr. Riyaz.

Também avaliando os resultados, Dr. Peter Sever, médico, professor de farmacologia clínica e terapêutica do Imperial College London, disse: “A importância para médicos e pacientes é perceber que os sintomas comumente relatados, como dor muscular e letargia, não são devidos à química do medicamento”.

“Esses sintomas nocebo podem ser de origem psicológica, mas não são menos reais do que os sintomas farmacológicos em termos de comprometimento da qualidade de vida”, disse Dr. Peter.

“No entanto, é importante notar que, como não são causados diretamente pelo medicamento, não devem anular a decisão de prescrever e tomar estatinas por conta de seu benefício comprovado na redução de morte e incapacidade por ataques cardíacos, derrames e outras condições cardiovasculares” adicionou.

Esta metanálise foi realizada de forma independente; nenhuma empresa ou instituição prestou apoio financeiro. Dr. Maciej é palestrante da Amgen, Herbapol, Kogen, KRKA, Polpharma, Mylan/Viatris, Novartis, Novo Nordisk, Sanofi-Aventis, Teva e Zentiva; é consultor da Abbott Vascular, Amgen, Daichii Sankyo, Esperion, FreiaPharmaceuticals, Novartis, Polfarmex e Sanofi-Aventis; recebeu subsídios da Amgen, Mylan/Viatris, Sanofi e Valeant; e atua como CMO da Nomi Biotech Corporation. Sir Nilesh não tem divulgações relevantes. Dr. Riyaz recebeu honorários anteriores e honorários de consultoria de empresas farmacêuticas que fabricam novos medicamentos para baixar o colesterol e atualmente trabalha com o NICE como consultor de tópicos para prevenção de doença cardiovascular. Dr. Peter recebeu bolsas de pesquisa e consultoria da Pfizer e da Amgen.