fonte: O Globo

Brasil e mundo precisam redobrar seus esforços se quiserem cumprir a meta da Organização Mundial da Saúde( OMS) de eliminara hepatite C até 2030, reduzindo em 80% a incidência e em 65% as mortes decorrentes da doença frente aos níveis registrados em 2015, para que ela deixe de ser uma das maiores ameaças à saúde pública do planeta.

O alerta é de estudo que avaliou os impactos dedi ferentes intervenções no curso da epidemia até o fim do século, publicado ontem no prestigiado periódico científico “The Lancet ”. Segundo os pesquisadores, casoto d asas medidasre comendadas sejam adotadas, seria possível evitar 15,1 milhões de novos casos e 1,5 milhão de mortes por cirrose ou câncer de fígado provocados pela hepatite C em todo o mundo até 2030.

No estudo, os cientistas liderados por Alastair Heffernan, do Imperial College London, traçaram seis cenários para a epidemia em 190 países. Em dois deles, há a manutenção das políticas de prevenção, diagnóstico e tratamento da doença observados em cada um em 2015, com a diferença apenas de fornecimento ou não dos novos medicamentos antivirais de ação direta (DAAs, na sigla em inglês) desenvolvidos nos últimos anos e que em muito elevaram as taxas de cura.

Nos quatro restantes, foram calculados os efeitos cumulativos de quatro pacotes de ações: projetos de segurança hematológica, com testagem mais ampla de doações de sangue para transfusão e melhores práticas no uso de agulhas e injeções; criação de programas de redução de danos para pessoas que usam drogas injetáveis; prescrição imediata dos DAAs a todos os diagnosticados; e expansão do diagnóstico, com exames em massa da população.

De acordo com os pesquisadores, só o primeiro pacote de intervenções, com uma consequente redução em 95% do risco de infecção pela população em geral, levaria a uma queda em 58% no número de novos casos de hepatite C em 2030 frente ao esperado no cenário de manutenção das políticas atuais com acesso aos novos medicamentos. Já a implantação de programas de redução de danos para usuários de drogas, atingindo 40% desta população e baixando seu risco de infecção em 75%, reduziria o número de casos em 7% adicionais no mesmo ano, num total cumulativo de 14,1 milhões a menos até 2030.

REMÉDIOS MAIS BARATOS

Mas, como a hepatite Céu ma doença “silenciosa”, com um longo período de incubação antes que sintomas mais graves comecem ase manifestar, esses dois conjuntos de medidas pouco afetariam a mortalidade pela doença na próxima década. Nesse ponto, destacam os pesquisadores, os novos medicamentos têm papel chave, coma ampliação de seu acessoa todos os doentes conhecidos e evitando 640 mil mortes até 2030.

Isoladamente, porém, essa última intervenção terá pouco efeito sobre as taxas de incidência da doença, ressaltamos cientistas. Assim, é aqui que entra a quarta medida recomendada, de ampliação dos diagnósticos. De acordo com os cálculos do estudo, se os programas de testagem identificarem 90% dos doentes, serão evitadas mais aproximadamente 950 mil novas infecções até 2030, totalizando 15,1 milhões casos amenos no período. E o número de mortes também diminuiria em quantidade similar, somando 1,5 milhão de vidas salvas.

— Eliminara hepa ti teCé uma meta extremamente desafiadora, que requer intervenções na prevenção e no diagnóst ico—r es um eH effernan.—Masem todo o planeta essas medidas estão muito aquém dos níveis que estimamos serem necessários para terem um grande impacto na epidemia. Precisamos de mais pesquisas de como melhorar isso em todos os aspectos, e mais recursos, se quisermos atingir essa meta.

Segundo especialistas, para o Brasil os maiores desafios estão na ampliação dos diagnósticos e do acesso aos tratamentos mais modernos e eficazes. Neste caso, a concessão pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) de patente do medicamento sofosbuvir à multinacional farmacêutica Gilead, em setembro do ano passado, impedindo a fabricação de genérico por um consórcio entre empresas nacionais e o laboratório público Farmanguinhos/Fiocruz, pode ser um empecilho.

— Temos dois problemas centrais: remédios bons, porém caros, o que dificulta o acesso ao tratamento; e um baixo número de diagnosticados, o que pode ser resolvido com campanhas e políticas públicas de saúde que consigam achar essas pessoas que têm hepatite Cea in danem sabem—destaca Pedro Villardi, coordenador do Grupo de Trabalho em Propriedade Intelectual (GTPI) da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids(Abia).—Noresto,temos uma situação de conformidade coma maioria da sindicações. Drogas injetáveis não são um grande problema brasileiro,todo sangue do adono paí sé tratado, e as normas nacionais exigem uso de material hospitalar descartável.

Com relação aos tratamentos mais modernos, Villardi lembra que diretriz de março de 2018 do Ministério da Saúde permite o acessoa e lesem qualquer estágio da doença, fazendo do custo o principal obstáculo na sua universalização.

—O Brasil já oferece melhores tratamentos. O problema é o preço — diz. — Os medicamentos dão conta de tratar todo mundo, mas são caros, porque usam componentes patenteados, seja o sofosbuvir, seja combinações usadas na composição do genérico. Por exemplo, no último pregão (no dia 16) o genérico não conseguiu apresentar valor mais barato, porque depende de um outro medicamento (o daclastavir) que compõe a combinação e também é patenteado no Brasil. Esse remédio nos custou em torno de US$ 1.400, enquanto o custo de produção é de cerca de US$ 200. O Brasil tem um dos melhores preços das Américas. Nos EUA, o tratamento custa US$ 80 mil em média. Mas há países onde ele é muito mais barato.