{"id":9113,"date":"2020-01-14T12:46:33","date_gmt":"2020-01-14T12:46:33","guid":{"rendered":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=9113"},"modified":"2020-01-14T12:46:33","modified_gmt":"2020-01-14T12:46:33","slug":"artigo-como-me-curei-da-hepatite-c-e-o-que-o-sus-tem-a-ver-com-isso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2020\/01\/artigo-como-me-curei-da-hepatite-c-e-o-que-o-sus-tem-a-ver-com-isso\/","title":{"rendered":"ARTIGO: Como me curei da hepatite C e o que o SUS tem a ver com isso"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/sofos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-9115\" src=\"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/sofos-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>por\u00a0Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi relator do Plano Diretor e Secret\u00e1rio de Cultura de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Em 1973, aos 18 anos, operei o cora\u00e7\u00e3o para corrigir um defeito cong\u00eanito na aorta que me atormentava e me impedia de fazer qualquer esfor\u00e7o f\u00edsico. Como, na \u00e9poca, era um procedimento de risco, meus pais esperaram eu chegar \u00e0 maioridade para eu mesmo decidir se queria fazer a opera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tive d\u00favidas!<\/p>\n<p>O dr. Adib Jatene e sua equipe da\u00a0Benefic\u00eancia Portuguesa abriram meu peito, conectaram-me a um cora\u00e7\u00e3o e pulm\u00e3o artificial e retiraram uma membrana que estreitava a aorta. Comecei uma segunda vida, liberado para fazer coisas b\u00e1sicas como jogar futebol, andar de bicicleta ou dar uma corridinha. Ap\u00f3s cinco\u00a0anos de acompanhamento, esqueci essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>S\u00f3 voltei a pensar nela 34 anos depois, em 2007, quando me consultei com o saudoso dr. Nestor Shor. Intrigado com os altos \u00edndices das enzimas do meu f\u00edgado, ele pediu um exame de hepatite C. Fez o que todo m\u00e9dico deveria fazer (mas n\u00e3o faz), pois a hepatite C \u00e9 uma doen\u00e7a silenciosa.<\/p>\n<p>Quando os sintomas aparecem, o paciente j\u00e1 est\u00e1 pr\u00f3ximo de\u00a0contrair uma cirrose ou um c\u00e2ncer de f\u00edgado, ainda mais se consumir bebidas alco\u00f3licas. Estima-se que cerca de 700 mil brasileiros estejam infectados (70 milh\u00f5es em todo o mundo), mas apenas 25% sabem disso.<\/p>\n<p>Tomava um chopp no Rio de Janeiro, ap\u00f3s um semin\u00e1rio, quando recebi a not\u00edcia por celular: o exame deu positivo. Olhei para o copo com um gosto amargo.\u00a0Estava proibido de beber \u00e1lcool.<\/p>\n<p>O v\u00edrus havia sido adquirido na transfus\u00e3o de sangue naquela opera\u00e7\u00e3o esquecida pois, at\u00e9 a epidemia da Aids (1985), n\u00e3o havia controle nos bancos de sangue e, at\u00e9 1989, o v\u00edrus da hepatite C era desconhecido. Portador h\u00e1 34 anos desse v\u00edrus, meu f\u00edgado poderia estar em frangalhos.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o uma epopeia que incluiu\u00a0bi\u00f3psia para saber o n\u00edvel de fibrose do f\u00edgado e uma batalha para obter um tratamento, na \u00e9poca feito com Interferon, uma droga que gerava fortes efeitos colaterais e uma taxa de cura de apenas 40%. S\u00f3 era recomendado para est\u00e1gios avan\u00e7ados da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Em 2015, o laborat\u00f3rio americano\u00a0Gilead desenvolveu um novo medicamento, o\u00a0Sofosbuvir,\u00a0que combinado com o Daclatasvir, possibilitava uma taxa de cura de 90% a 95%, com efeitos colaterais suport\u00e1veis. Mas, devido \u00e0 patente, o tratamento era car\u00edssimo e o SUS s\u00f3 fornecia para quem estivesse em est\u00e1gios mais avan\u00e7ados de comprometimento do f\u00edgado.<\/p>\n<p>Na rede privada, foi informado que o pre\u00e7o dos medicamentos estaria entre US$ 82 mil e US$ 92 mil (cerca de R$ 300 mil ent\u00e3o). Como n\u00e3o podia arcar com essa despesa, continuei com o v\u00edrus e com uma ang\u00fastia: teria que esperar a doen\u00e7a se agravar para o SUS pagar o tratamento. Drama que foi vivido por centenas de milhares de brasileiros.<\/p>\n<p>Em 2016, o primeiro lote de medicamentos foi adquirido\u00a0pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para 30 mil pacientes em situa\u00e7\u00e3o grave. Devido \u00e0 escala e a uma combina\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, o governo conseguiu um enorme desconto. Ainda assim, gastou US$ 9.600 por paciente e cerca de R$ 1 bilh\u00e3o no total.<\/p>\n<p>O custo dos medicamentos \u00e9 uma das quest\u00f5es mais relevantes da sa\u00fade p\u00fablica. Sua regula\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel para que o direito a sa\u00fade, previsto na Constitui\u00e7\u00e3o e nos Objetivos do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ONU), seja alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p>A maioria dos pa\u00edses europeus e asi\u00e1ticos adota\u00a0pre\u00e7os regulados por ag\u00eancias governamentais, ao contr\u00e1rio dos Estados Unidos, onde os pre\u00e7os s\u00e3o livres e alt\u00edssimos, o que torna a quest\u00e3o\u00a0um dos temas mais pol\u00eamicos da pol\u00edtica (e da elei\u00e7\u00e3o) americana.<\/p>\n<p>L\u00e1, em v\u00e1rios casos, os medicamentos chegam a custar tr\u00eas vezes mais do que na Europa e seis vezes mais do que no Brasil. Pesquisas recentes t\u00eam descoberto rem\u00e9dios para in\u00fameras doen\u00e7as que antes n\u00e3o tinham cura. Mas, sem regula\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica p\u00fablica de sa\u00fade, os pre\u00e7os s\u00e3o inacess\u00edveis.<\/p>\n<p>Desde 1999, o Brasil avan\u00e7ou muito na regula\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os e acesso \u00e0 medicamentos, estando na vanguarda na Am\u00e9rica Latina em muitas dessas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Dentre os avan\u00e7os, est\u00e3o a lei dos gen\u00e9ricos, o estabelecimento de teto m\u00e1ximo no pre\u00e7o de medicamentos tanto para o SUS como para a mercado privado\u00a0pela C\u00e2mara de Regula\u00e7\u00e3o do Mercado de Medicamentos, a incorpora\u00e7\u00e3o de novas tecnologias, feita pela Comiss\u00e3o Nacional de Incorpora\u00e7\u00e3o de Tecnologia no SUS (Conitec), e a cria\u00e7\u00e3o da Parceria de Desenvolvimento Produtivo (PDP).<\/p>\n<p>A PDP utiliza o poder de compra do SUS, um dos maiores do mundo,\u00a0para gerar coopera\u00e7\u00e3o entre os detentores de patentes de medicamentos inovadores, laborat\u00f3rios p\u00fablicos e privados nacionais e institui\u00e7\u00f5es de pesquisas para desenvolvimento, transfer\u00eancia e absor\u00e7\u00e3o pelo pa\u00eds de capacidade produtiva e tecnol\u00f3gica em medicamentos estrat\u00e9gicos para atender a sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Em 2016, a tecnologia de 51 novos medicamentos estava\u00a0sendo absorvida por laborat\u00f3rios p\u00fablicos e privados nacionais.<\/p>\n<p>Na esteira desses avan\u00e7os, o governo brasileiro aderiu em 2018 a uma campanha da OMS, que objetiva erradicar a hepatite C no mundo at\u00e9 2030, e decidiu fornecer o tratamento a todos os portadores do v\u00edrus.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 essa pol\u00edtica e \u00e0 nova escala, os pre\u00e7os despencaram. Em preg\u00e3o realizado em janeiro de 2019, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade pagou US$ 1.148 por paciente na aquisi\u00e7\u00e3o de 50 mil lotes do medicamento,um oitavo do que pagara em 2016.<\/p>\n<p>Entrei na fila e depois de 14 meses, em julho de 2019, recebi um telefonema de uma profissional do Centro de Refer\u00eancia e Tratamento de DST Aids, respons\u00e1vel pela distribui\u00e7\u00e3o dos medicamentos em S\u00e3o Paulo, avisando que o Sofosbuvir havia chegado. Era um gen\u00e9rico, baseado na Lei 9787\/1999, produzido pelo Laborat\u00f3rio Blanver, em Itapevi, S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Apesar de todas as cr\u00edticas que s\u00e3o feitas ao sistema de sa\u00fade no Brasil, \u00e9 ineg\u00e1vel os avan\u00e7os que se\u00a0tem conseguido na universaliza\u00e7\u00e3o do acesso a sa\u00fade pelo SUS. Pol\u00edticas como os gen\u00e9ricos, a farm\u00e1cia popular, as PDPs, a regula\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os e a facilita\u00e7\u00e3o do acesso aos medicamentos precisam continuar avan\u00e7ando.<\/p>\n<p>Em dezembro, dois exames confirmaram que a carga viral da hepatite C n\u00e3o foi detectada no meu f\u00edgado. \u00c9 como se uma terceira vida come\u00e7asse.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP por\u00a0Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi relator do Plano Diretor [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-9113","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9113","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9113"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9113\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9116,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9113\/revisions\/9116"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9113"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9113"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9113"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}