{"id":8774,"date":"2019-10-07T10:21:44","date_gmt":"2019-10-07T10:21:44","guid":{"rendered":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=8774"},"modified":"2019-10-07T10:21:44","modified_gmt":"2019-10-07T10:21:44","slug":"estudo-afirma-que-nao-ha-beneficios-em-restringir-consumo-de-carne-vermelha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2019\/10\/estudo-afirma-que-nao-ha-beneficios-em-restringir-consumo-de-carne-vermelha\/","title":{"rendered":"Estudo afirma que n\u00e3o h\u00e1 benef\u00edcios em restringir consumo de carne vermelha"},"content":{"rendered":"<p>fonte: NY Times<\/p>\n<p>Na \u00faltima semana, a revista acad\u00eamica Annals of Internal Medicine publicou um estudo que argumenta\u00a0que a\u00a0carne vermelha\u00a0representa risco m\u00ednimo para a sa\u00fade da maioria das pessoas\u00a0e que at\u00e9 mesmo nosso grau de certeza quanto a esse risco \u00e9 baixo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/annals.org\/aim\/fullarticle\/2752328\/unprocessed-red-meat-processed-meat-consumption-dietary-guideline-recommendations-from\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">CONFIRA O ARTIGO<\/a><\/p>\n<p>Com essas conclus\u00f5es em m\u00e3os, os autores oferecem\u00a0recomenda\u00e7\u00f5es para que a maioria das pessoas mantenha seu n\u00edvel atual de\u00a0consumo de carne.<\/p>\n<p>Ainda que eu n\u00e3o estivesse envolvido no estudo, fui coautor de um editorial publicado pela revista para resumir as conclus\u00f5es, no qual argumentamos que nossas mensagens sobre os perigos da carne vermelha podem estar sendo ignoradas e sugerimos\u00a0outras mensagens que poderiam funcionar melhor como motiva\u00e7\u00e3o para que as pessoas reduzam o consumo.<\/p>\n<p>As conclus\u00f5es e as\u00a0<a href=\"https:\/\/arte.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/match-da-saude\/#\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">recomenda\u00e7\u00f5es\u00a0<\/a>quanto a diretrizes, feitas por uma equipe internacional liderada por Bradley Johnston, epidemiologista da Universidade Dalhousie, contrariam as orienta\u00e7\u00f5es de muitas autoridades de sa\u00fade. Nesta semana, diversos pesquisadores que trabalham no campo da nutri\u00e7\u00e3o me escreveram para afirmar que discordavam veementemente da publica\u00e7\u00e3o do\u00a0estudo\u00a0e que sentiam que ele\u00a0poderia\u00a0causar males reais.<\/p>\n<p>Eles acreditam que o\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2019\/04\/quantidade-abaixo-da-recomendada-de-bacon-e-carne-bovina-eleva-risco-de-cancer.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">consumo de carne vermelha e de carne processada industrialmente<\/a>\u00a0representa um risco de sa\u00fade para as pessoas e que, se elas n\u00e3o reduzirem seu consumo, v\u00e3o colocar elas mesmas e o planeta em risco.<\/p>\n<p>As perguntas abaixo podem ajudar a compreender por que at\u00e9 mesmo pesquisadores de boa f\u00e9 podem terminar em campos opostos no debate.<\/p>\n<p><strong>Que grau de qualidade as pesquisas sobre nutri\u00e7\u00e3o podem atingir?<\/strong><\/p>\n<p>Parte do problema est\u00e1 na dificuldade de conduzir pesquisas nesse campo. \u00c9 quase imposs\u00edvel (e alguns pesquisadores diriam que \u00e9 anti\u00e9tico) conduzir o tipo mais rigoroso de experimento \u2014um ensaio cl\u00ednico aleat\u00f3rio\u2014 sobre assuntos como o consumo de carne vermelha. Por conta disso, devemos confiar em dados observacionais: perguntamos \u00e0s pessoas o que elas comem\u00a0e estabelecemos correla\u00e7\u00f5es entre as informa\u00e7\u00f5es que elas fornecem e os resultados.<\/p>\n<p>J\u00e1 outros pesquisadores, como John Ioannidis, especialista em projeto e an\u00e1lise de pesquisas na Universidade Stanford, argumentam que \u00e9 poss\u00edvel\u00a0e que talvez dev\u00eassemos\u00a0conduzir ensaios cl\u00ednicos aleat\u00f3rios sobre padr\u00f5es de dieta antes de proclamar conclus\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O &#8220;melhor que podemos obter&#8221; \u00e9 bom o suficiente?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil conduzir bem at\u00e9 mesmo os testes observacionais. A maior parte dos grandes reveses em termos de sa\u00fade \u00e9 bastante rara. \u00c9 dif\u00edcil encontrar grandes diferen\u00e7as em termos de morte, c\u00e2ncer e ataques card\u00edacos at\u00e9 mesmo em grandes grupos de pessoas, a n\u00e3o ser que elas sejam acompanhadas por per\u00edodos longos. Mas quantificar o que as pessoas est\u00e3o comendo durante longos per\u00edodos tamb\u00e9m \u00e9 desafiador, porque as pessoas n\u00e3o se lembram.<\/p>\n<p>Estudos como esses tamb\u00e9m s\u00e3o dif\u00edceis de interpretar\u00a0por conta dos chamados fatores de confus\u00e3o. Talvez as pessoas que\u00a0comem mais carne sejam mais pobres. Talvez elas\u00a0fumem,\u00a0bebam \u00e1lcool demais\u00a0ou\u00a0n\u00e3o se exercitem. Esse tipo de coisa tamb\u00e9m pode levar a maus resultados, e \u00e9 dif\u00edcil distinguir entre os componentes individuais ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Se forem conduzidos ensaios com pessoas submetidas a risco maior \u2014aquelas que j\u00e1 tenham sofrido ataques card\u00edacos, por exemplo\u2014, fica mais f\u00e1cil determinar se mudan\u00e7as importam.<\/p>\n<p>O teste Predimed, por exemplo, que estudou a chamada dieta mediterr\u00e2nea, tinha por foco pessoas que j\u00e1 sofriam de diabetes ou apresentavam diversos tra\u00e7os que as colocavam em risco elevado de doen\u00e7as card\u00edacas. Mas essas pessoas n\u00e3o s\u00e3o necessariamente representativas do p\u00fablico geral, para o qual as recomenda\u00e7\u00f5es nutricionais s\u00e3o escritas.<\/p>\n<p>Tudo isso significa que ind\u00edcios observacionais, que s\u00e3o mais f\u00e1ceis de obter, ser\u00e3o classificados como &#8220;de baixa qualidade&#8221; por alguns pesquisadores. Outros argumentar\u00e3o que eles s\u00e3o o melhor que se pode obter, e que, portanto, dever\u00edamos aplicar padr\u00f5es diferentes a pesquisas desse tipo.<\/p>\n<p><strong>Nas pesquisas, dever\u00edamos nos preocupar com sinais como press\u00e3o sangu\u00ednea ou s\u00f3 com grandes eventos, como ataques card\u00edacos?<\/strong><\/p>\n<p>Por resultados graves serem raros, a pesquisa ocasionalmente considera indicadores intermedi\u00e1rios. Esses indicadores, como peso, press\u00e3o sangu\u00ednea, n\u00edveis de colesterol, podem mudar em per\u00edodos mais curtos. Haver\u00e1 quem aponte para estudos nesses campos e diga que eles provam que a redu\u00e7\u00e3o no consumo de carne tem efeitos significativos sobre a sa\u00fade.<\/p>\n<p>Press\u00e3o sangu\u00ednea elevada ou n\u00edveis altos de colesterol s\u00e3o vistos amplamente como fatores graves de risco de eventos adversos. Outros estudiosos discordar\u00e3o sobre em que medida podemos confiar em indicadores intermedi\u00e1rios. Os novos estudos em quest\u00e3o se concentram apenas em resultados de est\u00e1gio final.<\/p>\n<p><strong>Se os especialistas est\u00e3o incertos, \u00e9 aceit\u00e1vel que eles fa\u00e7am recomenda\u00e7\u00f5es, quaisquer que sejam?<\/strong><\/p>\n<p>Os cr\u00edticos dos novos estudos sobre a carne argumentam que, levando em conta a baixa certeza dos autores sobre suas conclus\u00f5es, eles n\u00e3o deveriam ter feito recomenda\u00e7\u00f5es. Isso n\u00e3o \u00e9 insensato.<\/p>\n<p>Quando o Grupo de Trabalho Preventivo dos Estados Unidos n\u00e3o disp\u00f5e de provas suficientes para fazer recomenda\u00e7\u00f5es preventivas, confere a essas recomenda\u00e7\u00f5es a classifica\u00e7\u00e3o &#8220;I&#8221;\u00a0e afirma que as provas atuais s\u00e3o insuficientes para determinar o balan\u00e7o exato entre benef\u00edcios e danos. Isso \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>Talvez esse devesse ser o m\u00e9todo prefer\u00edvel,\u00a0ao inv\u00e9s de\u00a0publicar recomenda\u00e7\u00f5es de que as pessoas mantenham seu n\u00edvel atual de consumo de carne.<\/p>\n<p><strong>Devemos considerar o indiv\u00edduo ou popula\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo em estudos que identificam efeitos estatisticamente significativos, os benef\u00edcios absolutos s\u00e3o quase sempre pequenos. Muita gente argumentar\u00e1, por\u00e9m, que mesmo que os benef\u00edcios individuais possam ser pequenos, os benef\u00edcios para a popula\u00e7\u00e3o podem ser grandes.<\/p>\n<p>Essas pessoas n\u00e3o est\u00e3o erradas. Digamos que a redu\u00e7\u00e3o absoluta de risco de c\u00e2ncer no c\u00f3lon seja de 0,5%. Isso significa que para cada 200 pessoas que reduzam seu consumo de carne uma veria benef\u00edcio e outras 199, n\u00e3o. Para um indiv\u00edduo,\u00a0pode n\u00e3o parecer relevante.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m significa que, se dois milh\u00f5es de pessoas fizerem essa mudan\u00e7a, 10 mil veriam um benef\u00edcio, o que, do ponto de vista de uma popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 \u00f3timo. Mas tamb\u00e9m significa que 1.990.000 pessoas n\u00e3o veriam benef\u00edcios.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas coisas que podem fazer diferen\u00e7a, em n\u00edvel de uma popula\u00e7\u00e3o, ainda que as pessoas n\u00e3o se disponham a mud\u00e1-las em n\u00edvel individual.<\/p>\n<p>As pessoas aceitam grandes riscos a cada dia ao dirigir carros e\u00a0esquiar, por exemplo. Por qu\u00ea? Porque essas atividades trazem benef\u00edcios que os indiv\u00edduos avaliam compensar os riscos. Em nossas recomenda\u00e7\u00f5es\u00a0dever\u00edamos nos preocupar com o indiv\u00edduo ou com a popula\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Dever\u00edamos permitir que as pessoas decidam por si pr\u00f3prias?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 quem acredite que n\u00e3o devemos levar em conta nossas prefer\u00eancias ao redigir orienta\u00e7\u00f5es. O foco deve ficar apenas nos benef\u00edcios \u00e0 sa\u00fade e n\u00e3o em outros fatores \u2014como o fato de que as pessoas gostam muito de comer carne. Afinal, ao dizer para as pessoas que elas n\u00e3o devem fumar, n\u00e3o nos importamos se elas &#8220;gostam&#8221; de\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/equilibrioesaude\/2019\/09\/casos-provaveis-de-doencas-causadas-por-cigarro-eletronico-nos-eua-sobem-para-530.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cigarro<\/a>.<\/p>\n<p>Outros podem rebater afirmando que um estudo publicado em 2012 pelo International Journal of Cancer constatou que homens que fumam mais de 30 cigarros ao dia apresentavam risco 10.250% mais alto de desenvolver carcinoma de c\u00e9lulas escamosas. \u00c9 um indicador s\u00e9rio. Uma eleva\u00e7\u00e3o de 18% (risco relativo de 1,18), no caso do consumo de carne industrializada, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa\u00a0e, portanto, poderia ser razo\u00e1vel refletir sobre a alegria das pessoas com suas dietas atuais.<\/p>\n<p>Risco relativo \u00e9 uma refer\u00eancia \u00e0 mudan\u00e7a percentual do risco absoluto (geral) como resultado de alguma mudan\u00e7a de comportamento (1,18, por exemplo, significa uma mudan\u00e7a de 18% ante 1, e 1 representa a linha de base que denota altera\u00e7\u00e3o zero no risco entre o grupo experimental e o grupo de controle.)<\/p>\n<p>Como todas essas quest\u00f5es n\u00e3o t\u00eam respostas f\u00e1ceis ou definidas, pesquisadores podem observar os mesmos conjuntos de dados e chegar a conclus\u00f5es muito diferentes.<\/p>\n<p>A recomenda\u00e7\u00e3o deve se preocupar mais com popula\u00e7\u00f5es ou indiv\u00edduos?\u00a0Que n\u00edvel de risco deve existir para que isso fa\u00e7a diferen\u00e7a? Prefer\u00eancias pessoais devem ser consideradas? O que devemos dizer diante de ind\u00edcios inferiores ao\u00a0ideal?<\/p>\n<p>Infelizmente, no caso do consumo de carne, muitas dessas discuss\u00f5es chegam aos antagonismos tribais.<\/p>\n<p>Por outro lado, existem pontos sobre os quais n\u00e3o vejo desacordo.<\/p>\n<p>Comer carne bovina \u00e9 um\u00a0grande problema para o meio ambiente, por exemplo. Comer menos carne para melhorar as perspectivas de longo prazo relacionadas \u00e0\u00a0mudan\u00e7a do clima\u00a0poderia fazer uma grande diferen\u00e7a, al\u00e9m de ser um prov\u00e1vel ponto de concord\u00e2ncia entre a maioria dos envolvidos nesses debates.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: NY Times Na \u00faltima semana, a revista acad\u00eamica Annals of Internal Medicine publicou um estudo que argumenta\u00a0que a\u00a0carne vermelha\u00a0representa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-8774","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8774","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8774"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8774\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8776,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8774\/revisions\/8776"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}