{"id":8513,"date":"2019-08-26T18:11:10","date_gmt":"2019-08-26T18:11:10","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=8513"},"modified":"2019-08-26T18:11:10","modified_gmt":"2019-08-26T18:11:10","slug":"bacterias-multirresistentes-sao-identificadas-fora-do-ambiente-hospitalar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2019\/08\/bacterias-multirresistentes-sao-identificadas-fora-do-ambiente-hospitalar\/","title":{"rendered":"Bact\u00e9rias multirresistentes s\u00e3o identificadas fora do ambiente hospitalar"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>Bact\u00e9rias da esp\u00e9cie\u00a0<em>Klebsiella pneumoniae\u00a0<\/em>est\u00e3o entre os microrganismos que mais causam infec\u00e7\u00f5es hospitalares e tamb\u00e9m entre os que mais t\u00eam desenvolvido resist\u00eancia a antibi\u00f3ticos nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Pertence ao grupo, por exemplo, a KPC (<em>Klebsiella pneumoniae\u00a0<\/em><em>carbapenemase<\/em>), que ganhou a alcunha de superbact\u00e9ria por produzir uma enzima capaz de inativar os f\u00e1rmacos mais potentes dispon\u00edveis para o tratamento de infec\u00e7\u00f5es graves.<\/p>\n<p>Um estudo recente apoiado pela Fapesp\u00a0e publicado no Journal of Global Antimicrobial Resistance mostrou que pat\u00f3genos multirresistentes \u2014inclusive as produtoras de KPC\u2014 j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o um problema restrito ao ambiente hospitalar no Brasil.<\/p>\n<p>Ao analisar esp\u00e9cimes de\u00a0<em>K. pneumoniae\u00a0<\/em>isolados da urina de 48 pessoas diagnosticadas com infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria na regi\u00e3o de Ribeir\u00e3o Preto, interior de S\u00e3o Paulo, cientistas observaram que 29 amostras (60,4%) continham bact\u00e9rias n\u00e3o suscet\u00edveis a tr\u00eas ou mais classes de antibi\u00f3ticos e, portanto, consideradas multirresistentes (MDR).<\/p>\n<div class=\"c-advertising c-advertising--300x250 u-hidden-xs\">\n<div id=\"banner-300x250-area-materia\" class=\"c-advertising__banner-area\"><\/div>\n<\/div>\n<p>Em 30 amostras (62,5%), foram identificados 73 diferentes genes de virul\u00eancia \u2014codificadores de prote\u00ednas que ajudam o microrganismo a driblar o sistema imune ou a se disseminar mais facilmente no ambiente.<\/p>\n<p>\u201cFicamos surpresos ao encontrar bact\u00e9rias com tanta multirresist\u00eancia e virul\u00eancia em pessoas que n\u00e3o estavam hospitalizadas Algumas das bact\u00e9rias analisadas tinham perfil gen\u00e9tico carater\u00edstico de cepas causadoras de infec\u00e7\u00e3o hospitalar\u201d, disse \u00e0 Ag\u00eancia Fapesp\u00a0Andr\u00e9 Pitondo da Silva, professor da Universidade de Ribeir\u00e3o Preto (Unaerp) e coautor do artigo.<\/p>\n<p>Pitondo-Silva coordena um projeto que tem como objetivo comparar o perfil molecular de esp\u00e9cimes de\u00a0<em>Klebsiella\u00a0<\/em>isolados em pacientes de hospitais das cinco regi\u00f5es brasileiras (Londrina, Bras\u00edlia, Teresina, Manaus e Ribeir\u00e3o Preto) e de pa\u00edses dos cinco continentes (Nova Zel\u00e2ndia, Canad\u00e1, Holanda, \u00c1frica do Sul e \u00cdndia).<\/p>\n<p>As amostras da comunidade ribeir\u00e3o-pretana foram obtidas por acaso, quando os pesquisadores coletavam bact\u00e9rias isoladas em pacientes de um hospital local. O trabalho teve in\u00edcio quando Pitondo-Silva ainda era pesquisador da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas de Ribeir\u00e3o Preto (FCFRP), da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>\u201cNesse hospital parceiro, h\u00e1 um laborat\u00f3rio de an\u00e1lises cl\u00ednicas particular que atende pessoas de diversos munic\u00edpios do entorno, al\u00e9m de ser respons\u00e1vel pelos exames dos pacientes internados. Quando nos enviaram as amostras de\u00a0<em>K.\u00a0<\/em><em>pneumoniae<\/em>, percebemos que nem todas tinham informa\u00e7\u00f5es sobre a ala de interna\u00e7\u00e3o. Ao questionarmos os funcion\u00e1rios do laborat\u00f3rio, fomos informados que as amostras eram de pessoas que n\u00e3o estavam hospitalizadas. Surgiu, ent\u00e3o, o interesse de estudar essas bact\u00e9rias da comunidade e compar\u00e1-las com as do ambiente hospitalar\u201d, contou.<\/p>\n<p>No estudo agora divulgado no Journal of Global Antimicrobial Resistance\u00a0foram consideradas apenas as an\u00e1lises das 48 amostras dos pacientes n\u00e3o internados. Destes, 31,3% tinham mais de 60 anos, 27,1% tinham entre 30 e 59 anos, 14,6% eram jovens entre 16 e 29 anos e 12,5% eram crian\u00e7as com idade entre 1 e 15 anos. Havia tamb\u00e9m um rec\u00e9m-nascido e outros seis pacientes sem idade identificada. Em rela\u00e7\u00e3o ao sexo, 75% das amostras analisadas eram de mulheres.<\/p>\n<p>O primeiro passo do estudo foi confirmar se todas as bact\u00e9rias isoladas eram de fato da esp\u00e9cie\u00a0<em>K.\u00a0<\/em><em>pneumoniae<\/em>. Para isso, o grupo usou uma t\u00e9cnica conhecida como MALDI-TOF, uma aplica\u00e7\u00e3o da espectrometria de massas \u00e0 microbiologia. Em seguida, foi feito um antibiograma para investigar o perfil de resist\u00eancia. Esse exame \u00e9 bastante comum em laborat\u00f3rios de an\u00e1lises cl\u00ednicas e permite descobrir a quais antibi\u00f3ticos os pat\u00f3genos s\u00e3o suscet\u00edveis.<\/p>\n<p>\u201cCultivamos as bact\u00e9rias presentes em cada amostra em placas de Petri e colocamos sobre as culturas pequenos discos impregnados com antibi\u00f3ticos. Testamos simultaneamente 38 antibi\u00f3ticos diferentes e, depois, avaliamos o quanto cada um foi capaz de inibir o crescimento microbiano\u201d, explicou Pitondo-Silva.<\/p>\n<p>Entre os 48 isolados de\u00a0<em>K.\u00a0<\/em><em>pneumoniae<\/em>, todos mostraram n\u00e3o susceptibilidade a quatro ou mais antibi\u00f3ticos testados. Todos foram resistentes \u00e0 trimetoprima, 47 (97,9%) \u00e0s sulfonamidas, 43 (89,6%) ao \u00e1cido nalid\u00edxico, 40 (83,3%) \u00e0 nitrofuranto\u00edna, 26 (54,2%) \u00e0 trimetoprima\/sulfametoxazol, 24 (50%) \u00e0 doxiciclina, 19 (39,6%) \u00e0 minociclina, 18 (37,5%) \u00e0 lomefloxacina, 17 (35,4%) \u00e0 piperacilina\/tazobactam, 16 (33,3%) \u00e0 estreptomicina e ao cefaclor, 15 (31,3%) \u00e0 ticarcilina e ao \u00e1cido clavul\u00e2nico, 14 (29,2%) \u00e0 ceftarolina, 13 (27,1%) \u00e0 ampicilina\/sulbactam, cefixima e tobramicina, 11 (22,9%) \u00e0 amoxicilina\/\u00e1cido clavul\u00e2nico, cefalotina e norfloxacina, 10 (20,8%) ao cloranfenicol, 9 (18,8%) ao aztreonam, cefazolina, cefepima, ceftriaxona, ertapenem, imipenem e meropenem, 8 (16,7% cada um) \u00e0 amicacina, cefotaxima, cefuroxima, ciprofloxacina, ceftazidima, tetraciclina e ofloxacina, 7 (14,6% cada um) ao doripenem, cefoxitina e levofloxacina e 5 (10,4%) \u00e0 gentamicina.<\/p>\n<p>Os genes de resist\u00eancia e virul\u00eancia foram investigados pelas t\u00e9cnicas de PCR (rea\u00e7\u00e3o em cadeia da polimerase) e sequenciamento e a rela\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica entre as bact\u00e9rias foi avaliada por ERIC-PCR (an\u00e1lise das regi\u00f5es repetitivas interg\u00eanicas em enterobact\u00e9rias) e MLST (sequenciamento de m\u00faltiplos loci).<\/p>\n<p>\u201cOs resultados nos deixaram bastante surpresos. Achamos sete isolados com perfil gen\u00e9tico compat\u00edvel ao complexo clonal 258 [CC258], geralmente associado a infec\u00e7\u00f5es hospitalares e com grande capacidade de se disseminar. Al\u00e9m disso, encontramos v\u00e1rias bact\u00e9rias produtoras de KPC.&#8221;<\/p>\n<p>Outros dois isolados apresentaram um fen\u00f3tipo de virul\u00eancia encontrado apenas em hospitais, conhecido como hipermucoviscosidade. Essas bact\u00e9rias produzem um biofilme espesso e viscoso, capaz de aderir ao epit\u00e9lio da bexiga, tornando dific\u00edlima sua elimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cComo para os casos estudados n\u00e3o existiam prontu\u00e1rios m\u00e9dicos, n\u00e3o conseguimos levantar o hist\u00f3rico de sa\u00fade dessas pessoas. Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que j\u00e1 tenham sido hospitalizadas no passado e, durante a interna\u00e7\u00e3o, foram colonizadas por essas bact\u00e9rias multirresistentes\u201d, disse Pitondo-Silva.<\/p>\n<p>A\u00a0<em>K.\u00a0<\/em><em>pneumoniae<\/em>\u00a0\u00e9 considerada uma bact\u00e9ria oportunista, ou seja, pode integrar a microbiota de um indiv\u00edduo durante anos, sem causar problemas. Por\u00e9m, quando h\u00e1 queda na imunidade \u2014em decorr\u00eancia de uma doen\u00e7a, de um tratamento ou do envelhecimento\u2014 o microrganismo pode se manifestar de diversas formas, como\u00a0infec\u00e7\u00f5es pulmonares, urin\u00e1rias, feridas (cir\u00fargicas ou escaras) e at\u00e9 mesmo sepse (infec\u00e7\u00e3o generalizada).<\/p>\n<p>\u201cNo caso de pacientes com infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria recorrente, o risco \u00e9 o quadro evoluir para pielonefrite [doen\u00e7a inflamat\u00f3ria infecciosa que afeta os rins], podendo causar comprometimento renal e at\u00e9 mesmo sepse. Portanto, quando esses pacientes retornam ao hospital, podem disseminar no local os microrganismos multirresistentes\u201d, disse o pesquisador.<\/p>\n<p>A principal forma de contamina\u00e7\u00e3o \u00e9 o contato com fluidos do paciente infectado, que pode ocorrer por meio de sondas e cateteres, por exemplo. \u201cQuando bact\u00e9rias MDR s\u00e3o identificadas em hospitais, principalmente as produtoras de KPC, s\u00e3o adotados protocolos rigorosos para evitar a dissemina\u00e7\u00e3o, podendo at\u00e9 mesmo limitar a visita\u00e7\u00e3o ao paciente\u201d, disse Pitondo-Silva.<\/p>\n<p>Conhecer as caracter\u00edsticas moleculares das bact\u00e9rias encontradas nos hospitais de diferentes regi\u00f5es do Brasil e do mundo ajuda a entender como os genes de resist\u00eancia e virul\u00eancia est\u00e3o se disseminando e como a esp\u00e9cie est\u00e1 evoluindo, informa\u00e7\u00e3o essencial para o controle de infec\u00e7\u00f5es e o tratamento correto dos pacientes.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito importante investigar a quais antibi\u00f3ticos a bact\u00e9ria \u00e9 suscet\u00edvel, pois administrar o medicamento errado pode at\u00e9 piorar o quadro cl\u00ednico do paciente, selecionando as cepas mais resistentes\u201d, disse Pitondo-Silva.<\/p>\n<p>Em um hospital de Londrina, no Paran\u00e1, o grupo identificou amostras de\u00a0<em>K.\u00a0<\/em><em>pneumoniae<\/em>\u00a0classificadas como pan-resistentes (PDR), ou seja, que n\u00e3o respondem a nenhuma classe de antibi\u00f3tico dispon\u00edvel. Os dados foram divulgados na revista Infection, Genetics and Evolution em 2017. Nesses casos, os m\u00e9dicos costumam associar medicamentos para tentar eliminar o microrganismo por meio de uma a\u00e7\u00e3o sin\u00e9rgica.<\/p>\n<p>Atualmente, al\u00e9m das bact\u00e9rias isoladas de infec\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e hospitalares, o grupo de microbiologia da Unaerp est\u00e1 pesquisando o perfil de resist\u00eancia e virul\u00eancia de\u00a0<em>Klebsiellas\u00a0<\/em>causadoras de infec\u00e7\u00f5es orais (endod\u00f4nticas) e tamb\u00e9m a poss\u00edvel dissemina\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias multirresistentes no meio ambiente por meio de \u00e1guas fluviais e de esgoto hospitalar.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S2213716519300323?via%3Dihub\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Molecular characterisation of multidrug-resistant Klebsiella pneumoniae belonging to CC258 isolated from outpatients with urinary tract infection in Brazil<\/a>, de Paola Aparecida Alves Azevedo, Jo\u00e3o Pedro Rueda Furlan, Guilherme Bartolomeu Gon\u00e7alves, Carolina Nogueira Gomes, Rafael da Silva Goulart, Eliana Guedes Stehling e Andr\u00e9 Pitondo-Silva.<a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S2213716519300323?via%3Dihub.\">\u00a0<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP Bact\u00e9rias da esp\u00e9cie\u00a0Klebsiella pneumoniae\u00a0est\u00e3o entre os microrganismos que mais causam infec\u00e7\u00f5es hospitalares e tamb\u00e9m entre os [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-8513","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8513","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8513"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8513\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8515,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8513\/revisions\/8515"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}