{"id":8485,"date":"2019-08-19T10:55:50","date_gmt":"2019-08-19T10:55:50","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=8485"},"modified":"2019-08-19T10:55:50","modified_gmt":"2019-08-19T10:55:50","slug":"artigo-sem-o-sus-e-a-barbarie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2019\/08\/artigo-sem-o-sus-e-a-barbarie\/","title":{"rendered":"ARTIGO: Sem o SUS, \u00e9 a barb\u00e1rie"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>por Dr\u00e1uzio Varella, m\u00e9dico cancerologista<\/p>\n<p>\u201cSem o SUS, \u00e9 a barb\u00e1rie.\u201d A frase n\u00e3o \u00e9 minha, mas traduz o que penso. Foi dita por Gonzalo Vecina, da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP, um dos sanitaristas mais respeitados entre n\u00f3s, numa mesa redonda sobre os rumos do\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2019\/08\/o-sus-e-para-todo-mundo-diz-bolsonaro-sobre-avo-de-michelle.shtml\">SUS<\/a>, na Funda\u00e7\u00e3o Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p>Estou totalmente de acordo com ela, pela simples raz\u00e3o de que pratiquei medicina por 20 anos antes da exist\u00eancia do SUS.<\/p>\n<p>Talvez voc\u00ea n\u00e3o saiba que, naquela \u00e9poca, s\u00f3 os brasileiros com carteira assinada tinham direito \u00e0 assist\u00eancia m\u00e9dica, pelo antigo INPS. Os demais pagavam pelo atendimento ou faziam fila na porta de meia d\u00fazia de hospitais p\u00fablicos espalhados pelo pa\u00eds ou dependiam da caridade alheia, concentrada nas santas casas de miseric\u00f3rdia e em algumas institui\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p>Eram enquadrados na indig\u00eancia social os trabalhadores informais, os do campo, os desempregados e as mulheres sem maridos com direito ao INPS. As crian\u00e7as n\u00e3o tinham acesso a pediatras e recebiam uma ou outra vacina em campanhas bissextas organizadas nos centros urbanos, de prefer\u00eancia em per\u00edodos eleitorais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, 30 anos atr\u00e1s, um grupo de vision\u00e1rios ligados \u00e0 esquerda do espectro pol\u00edtico defendeu a ideia de que seria poss\u00edvel criar um sistema que oferecesse sa\u00fade gratuita a todos os brasileiros. Parecia divaga\u00e7\u00e3o de sonhadores.<\/p>\n<p>Ao saber que se movimentavam nos corredores do Parlamento, para convencer deputados e senadores da viabilidade do projeto, achei que levar\u00edamos d\u00e9cadas at\u00e9\u00a0dispor de recursos financeiros para a implanta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas com tal alcance.<\/p>\n<p>Menosprezei a determina\u00e7\u00e3o, o compromisso com a justi\u00e7a social e a capacidade de convencimento desses precursores. Em 1988, escrevemos na Constitui\u00e7\u00e3o: \u201cSa\u00fade \u00e9 direito do cidad\u00e3o e dever do Estado\u201d.<\/p>\n<p>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, poucos brasileiros sabem que o Brasil \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds com mais de 100 milh\u00f5es de habitantes que ousou levar\u00a0assist\u00eancia m\u00e9dica gratuita a toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Falamos com admira\u00e7\u00e3o dos sistemas de sa\u00fade da Su\u00e9cia, da Noruega, da Alemanha, do\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/paulkrugman\/2019\/06\/mar-a-lago-quer-abocanhar-a-saude-publica-britanica.shtml\">Reino Unido<\/a>, sem lembrar que s\u00e3o pa\u00edses pequenos, organizados, ricos, com tradi\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de sa\u00fade p\u00fablica instalados desde o fim da\u00a0Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Sem menosprez\u00e1-los, garantir assist\u00eancia m\u00e9dica a todos em lugares com essas caracter\u00edsticas \u00e9 brincadeira de\u00a0crian\u00e7a perto do desafio de faz\u00ea-lo num pa\u00eds continental, com 210 milh\u00f5es de habitantes,<br \/>\nbaixo n\u00edvel educacional,\u00a0pobreza, mis\u00e9ria e desigualdades regionais e sociais das dimens\u00f5es das nossas.<\/p>\n<p>Para a maioria dos brasileiros, infelizmente, a\u00a0imagem do SUS \u00e9 a do pronto-socorro com macas no corredor, gente sentada no ch\u00e3o e fila de doentes na porta.\u00a0Tamanha carga de impostos para isso, reclamam todos.<\/p>\n<p>Esquecem-se de que o SUS oferece gratuitamente o maior programa de vacina\u00e7\u00f5es e de transplantes de \u00f3rg\u00e3os do mundo. Nosso programa de distribui\u00e7\u00e3o de medicamentos contra a Aids revolucionou o tratamento da doen\u00e7a nos cinco continentes. N\u00e3o percebem que o resgate chamado para socorrer o acidentado \u00e9 do SUS, nem que a\u00a0qualidade das transfus\u00f5es de sangue nos hospitais de luxo \u00e9 assegurada por ele.<\/p>\n<p>Nossa Estrat\u00e9gia Sa\u00fade da Fam\u00edlia, com agentes comunit\u00e1rios em equipes multiprofissionais que j\u00e1 atendem de casa em casa dois ter\u00e7os dos habitantes, \u00e9 citada pelos t\u00e9cnicos da Organiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nMundial da Sa\u00fade como um dos mais importantes do mundo.<\/p>\n<p>Pouqu\u00edssimos t\u00eam consci\u00eancia de que o SUS \u00e9, disparado, o maior e o mais democr\u00e1tico programa de distribui\u00e7\u00e3o de renda do pa\u00eds. Perto dele, o Bolsa Fam\u00edlia n\u00e3o passa de pequena ajuda. Enquanto investimos no SUS cerca de R$ 270 bilh\u00f5es anuais, o or\u00e7amento do Bolsa Fam\u00edlia mal chega a 10% disso.<\/p>\n<p>Os desafios s\u00e3o imensos. Ainda nem nos livramos das\u00a0epidemias de doen\u00e7as infecciosas e parasit\u00e1rias e j\u00e1 enfrentamos os agravos que amea\u00e7am a sobreviv\u00eancia dos servi\u00e7os de sa\u00fade p\u00fablica dos pa\u00edses mais ricos: envelhecimento populacional, obesidade, hipertens\u00e3o, diabetes, doen\u00e7as cardiovasculares, c\u00e2ncer,<br \/>\ndegenera\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Ao SUS faltam recursos e gest\u00e3o competente para investi-los de forma que n\u00e3o sejam desperdi\u00e7ados, desviados pela corrup\u00e7\u00e3o ou para atender a interesses paroquiais e, sobretudo, continuidade administrativa.\u00a0Nos \u00faltimos dez anos tivemos 13 ministros da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Apesar das dificuldades, estamos numa situa\u00e7\u00e3o incompar\u00e1vel \u00e0 de 30 anos atr\u00e1s. Devemos defender o SUS e nos\u00a0orgulhar da exist\u00eancia dele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP por Dr\u00e1uzio Varella, m\u00e9dico cancerologista \u201cSem o SUS, \u00e9 a barb\u00e1rie.\u201d A frase n\u00e3o \u00e9 minha, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-8485","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8485","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8485"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8485\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8487,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8485\/revisions\/8487"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8485"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8485"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8485"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}