{"id":7980,"date":"2019-07-15T00:20:18","date_gmt":"2019-07-15T00:20:18","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=7980"},"modified":"2019-07-09T10:22:28","modified_gmt":"2019-07-09T10:22:28","slug":"pesquisadores-desenvolvem-coquetel-contra-alergia-alimentares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2019\/07\/pesquisadores-desenvolvem-coquetel-contra-alergia-alimentares\/","title":{"rendered":"Pesquisadores desenvolvem coquetel contra alergia alimentares"},"content":{"rendered":"\n<p>fonte: Correio Braziliense<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 4 meses, Christian Couto Breder parou de mamar. Com a introdu\u00e7\u00e3o da f\u00f3rmula, os problemas come\u00e7aram: placas vermelhas pelo corpo, diarreias constantes, assaduras na pele e crises respirat\u00f3rias persistentes. \u201cLevei \u00e0 pediatra e, logo de cara, ela disse que deveria ser APLV, alergia \u00e0 prote\u00edna do leite da vaca\u201d, conta a m\u00e3e, Elis\u00e2ngela Couto de Oliveira Breder, 34 anos. O diagn\u00f3stico foi confirmado pela gastroenterologista, que tamb\u00e9m descobriu outro problema associado \u00e0 rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica: o refluxo oculto, s\u00f3 identificado por meio de exames.<\/p>\n\n\n\n<p>A alergia faz com que o sistema imunol\u00f3gico do pequeno desencadeie uma guerra quando detecta a prote\u00edna do leite de vaca, lutando de forma exagerada contra a subst\u00e2ncia. Diferentemente da intoler\u00e2ncia \u00e0 lactose, que provoca apenas efeitos gastrointestinais, a APLV tem implica\u00e7\u00f5es amplas, incluindo baixo peso e crescimento. Agora com 1 ano e 6 meses, Christian \u00e9 acompanhado por quatro especialistas, toma v\u00e1rios medicamentos e toda sua rotina tem de ser monitorada com muito cuidado pela fam\u00edlia, pois mesmo tra\u00e7os da prote\u00edna do leite deflagram as crises. \u201cAt\u00e9 a panela em que preparamos a comida dele \u00e9 s\u00f3 dele\u201d, diz Elis\u00e2ngela.<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo, a alergia alimentar atinge at\u00e9 10% da popula\u00e7\u00e3o e h\u00e1 evid\u00eancias de que vem crescendo nos pa\u00edses em desenvolvimento, como o Brasil. Ainda sem tratamento para as causas \u2014 as interven\u00e7\u00f5es lidam apenas com os sintomas \u2014, essa condi\u00e7\u00e3o vem sendo pesquisada em laborat\u00f3rios sob uma nova abordagem, considerada promissora: a associa\u00e7\u00e3o com dist\u00farbios da microbiota intestinal. Estudos recentes sugerem que a presen\u00e7a de bact\u00e9rias mal\u00e9ficas, ou a aus\u00eancia das essenciais para o bom funcionamento do organismo, impacta no sistema imunol\u00f3gico, provocando as rea\u00e7\u00f5es al\u00e9rgicas. Com isso, a expectativa \u00e9 desenvolver uma nova forma de tratar um problema que afeta especialmente crian\u00e7as pequenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na semana passada, uma pesquisa publicada na revista Nature Medicine n\u00e3o s\u00f3 encontrou o v\u00ednculo entre microbiota alterada e alergia alimentar como conseguiu preveni-la e contorn\u00e1-la adicionando, no organismo de roedores, grupos de bact\u00e9rias \u201cdo bem\u201d. \u201cIsso representa uma mudan\u00e7a de paradigma na nossa abordagem sobre terapias para alergias alimentares\u201d, diz a patologista Lynn Bry, que est\u00e1 entre os autores do estudo, realizado no Brigham and Women\u2019s Hospital, em Boston. \u201cN\u00f3s identificamos os micr\u00f3bios que est\u00e3o associados com a prote\u00e7\u00e3o e aqueles que est\u00e3o associados com a alergia alimentar em pacientes. Se administrarmos um conjunto de micro-organismos terap\u00eauticos, n\u00e3o s\u00f3 poderemos evitar alergias, mas tamb\u00e9m conseguiremos reverter as j\u00e1 existentes. Com esses micr\u00f3bios, o que fazemos \u00e9 \u2018reiniciar\u2019 o sistema imunol\u00f3gico\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>O trato gastrointestinal \u00e9 colonizado por trilh\u00f5es de bact\u00e9rias, que, al\u00e9m de ajudar o organismo na digest\u00e3o e produzir vitaminas, como a B e a K, desempenham um papel importante no sistema imunol\u00f3gico. Recentemente, ganhou peso uma teoria de que o aumento dos casos nos pa\u00edses em desenvolvimento est\u00e1 diretamente associado ao abuso na prescri\u00e7\u00e3o e na compra de antibi\u00f3tico. A ideia \u00e9 que o excesso desses medicamentos mate micro-organismos importantes para a modula\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas de defesa em um sistema ainda em forma\u00e7\u00e3o. Com a flora gastrointestinal desequilibrada, as crian\u00e7as ficaram mais sujeitas a rea\u00e7\u00f5es exageradas na presen\u00e7a de alguma subst\u00e2ncia imunog\u00eanica, como a prote\u00edna do leite ou do amendoim.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nessas hip\u00f3teses, os pesquisadores de Boston coletaram, m\u00eas a m\u00eas, amostras fecais de beb\u00eas e, usando o material, compararam as bact\u00e9rias intestinais de 56 crian\u00e7as que desenvolveram alergia alimentar \u00e0s das 98 que n\u00e3o tiveram o problema. Os resultados mostraram, assim como estudos anteriores haviam indicado, que a popula\u00e7\u00e3o de micr\u00f3bios dos pequenos com alergia alimentar \u00e9 diferente da dos que n\u00e3o apresentam a condi\u00e7\u00e3o. Os cientistas quiseram ir adiante e pesquisar em que extens\u00e3o essas diferen\u00e7as implicam na rea\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>A fase seguinte do estudo foi feita com camundongos. A equipe transplantou amostras da microbiota de crian\u00e7as com e sem alergia em ratos desenvolvidos para apresentar sensibilidade \u00e0 prote\u00edna do ovo. Aqueles que receberam material dos beb\u00eas n\u00e3o al\u00e9rgicos tiveram menos rea\u00e7\u00f5es ao alimento do que os roedores receptores da flora de crian\u00e7as com alergia alimentar. T\u00e9cnicas computacionais apontaram as diferen\u00e7as exatas entre as amostras, permitindo identificar as bact\u00e9rias associadas \u00e0 prote\u00e7\u00e3o. Os pesquisadores, ent\u00e3o, desenvolveram dois coquet\u00e9is de micr\u00f3bios, compostos por bact\u00e9rias dos grupos Clostridiales e Bacteroidetes, coletadas da microbiota humana. Esses organismos tornaram os ratos resistentes \u00e0 rea\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Alerta alterado<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Por fim, a equipe examinou os mecanismos por tr\u00e1s da alergia e da prote\u00e7\u00e3o no n\u00edvel celular. Eles descobriram que as bact\u00e9rias ben\u00e9ficas evitaram a rea\u00e7\u00e3o ao ovo agindo em c\u00e9lulas-T do sistema imunol\u00f3gico, respons\u00e1veis por deflagrar uma resposta quando identificam agentes externos que precisam ser eliminados do organismo. As bact\u00e9rias alteraram o estado de alerta das c\u00e9lulas, evitando que elas se mobilizassem para combater a prote\u00edna. \u201cQuando se descobre o mecanismo que permite compreender quais micr\u00f3bios e quais os alvos de a\u00e7\u00e3o envolvidos, voc\u00ea n\u00e3o apenas est\u00e1 fazendo uma boa ci\u00eancia, mas abre a oportunidade de encontrar abordagens terap\u00eauticas e diagn\u00f3sticas melhores para a doen\u00e7a. No caso das alergias alimentares, o estudo nos indicou uma terapia digna de confian\u00e7a com a qual podemos trabalhar nos cuidados com pacientes\u201d, afirma Lynn Bry.<\/p>\n\n\n\n<p>O gastroenterologista Bernardo Martins, membro titular da Sociedade Brasileira de Gastroenterologia e m\u00e9dico do Hospital Santa L\u00facia, afirma que os conhecimentos recentes sobre o papel da microbiota no sistema imunol\u00f3gico j\u00e1 come\u00e7am a alterar a pr\u00e1tica cl\u00ednica. \u201cEspecialmente quanto ao uso indiscriminado de antibi\u00f3tico. A maioria dos pediatras, agora, evita ao m\u00e1ximo passar antibi\u00f3ticos para crian\u00e7as nos primeiros meses de vida, quando o sistema imunol\u00f3gico est\u00e1 sendo modulado. Tamb\u00e9m temos visto que, al\u00e9m de n\u00e3o tentar matar as bact\u00e9rias, muitos aumentaram a utiliza\u00e7\u00e3o de prebi\u00f3ticos e probi\u00f3ticos, que est\u00e3o cada vez mais seguros no primeiro ano de vida\u201d, diz. \u201cAgora, a expectativa \u00e9 de que se possa tratar e prevenir as alergias alimentares com bact\u00e9rias, mas, antes, \u00e9 preciso descobrir em qual momento agir e qual a concentra\u00e7\u00e3o de micro-organismos para se ter uma resposta cl\u00ednica.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O risco de se co\u00e7ar<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O eczema \u2014 uma inflama\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica na pele, respons\u00e1vel por coceira, incha\u00e7o e vermelhid\u00e3o \u2014 \u00e9 considerado fator de risco para alergias alimentares. A estimativa \u00e9 de que mais da metade das crian\u00e7as com eczema s\u00e3o al\u00e9rgicas a um ou mais alimentos. A conex\u00e3o entre essas duas condi\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 muito clara. Um grupo de pesquisadores do Hospital Infantil de Boston (EUA) come\u00e7a a desvendar esse mist\u00e9rio. Segundo eles, co\u00e7ar a pele promove rea\u00e7\u00f5es al\u00e9rgicas a alimentos, incluindo anafilaxia, quando a rea\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica surge subitamente e pode ser fatal.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, aqueles beb\u00eas que costumam comer se lambuzando correm perigo. Se tiverem eczema, ant\u00edgenos alimentares podem entrar no corpo por meio de quebras de pele causadas por arranh\u00f5es. A invas\u00e3o pode, ent\u00e3o, acionar o sistema imunol\u00f3gico para produzir anticorpos IgE contra a comida. \u201c\u00c9 assim que eles ficam sensibilizados\u201d, resume Raif Geha, um dos l\u00edderes do estudo, divulgado no jornal Immunity.<\/p>\n\n\n\n<p>Os anticorpos IgE ligam-se a c\u00e9lulas conhecidas como mast\u00f3citos, que disparam subst\u00e2ncias qu\u00edmicas que atuam no tecido para produzir uma resposta al\u00e9rgica. A rela\u00e7\u00e3o foi detectada em experimentos com roedores. Os cientistas mostraram que as quebras de pele (criadas retirando um peda\u00e7o de fita, em vez de co\u00e7ar) desencadeiam uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia no intestino delgado, expandindo e ativando o mast\u00f3citos.<\/p>\n\n\n\n<p>Camundongos que foram sensibilizados de forma semelhante, mas n\u00e3o tiveram a pele lesionada, tiveram rea\u00e7\u00f5es al\u00e9rgicas menos graves. Ao examinar bi\u00f3psias de quatro crian\u00e7as com eczema e quatro sem a complica\u00e7\u00e3o, os cientistas encontraram mais mast\u00f3citos no primeiro grupo, independentemente dos n\u00edveis de IgE. \u201cA pele \u00e9 o principal portal para sensibiliza\u00e7\u00e3o da alergia alimentar. Voc\u00ea tem que selar a pele e dar medicamentos para reduzir a coceira\u201d, sugere Raif Geha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Correio Braziliense Aos 4 meses, Christian Couto Breder parou de mamar. 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