{"id":7770,"date":"2019-05-21T13:03:03","date_gmt":"2019-05-21T13:03:03","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=7770"},"modified":"2019-05-21T13:03:42","modified_gmt":"2019-05-21T13:03:42","slug":"o-mundo-secreto-dos-medicos-que-cuba-exporta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2019\/05\/o-mundo-secreto-dos-medicos-que-cuba-exporta\/","title":{"rendered":"O mundo secreto dos m\u00e9dicos que Cuba exporta"},"content":{"rendered":"\n<p>fonte: BBC<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, profissionais cubanos integraram o programa Mais M\u00e9dicos de 2013 at\u00e9 o final de 2018, quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito e disse que n\u00e3o aceitaria mais os termos do acordo negociado com o governo de Cuba durante a gest\u00e3o da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com uma pesquisa recente, alguns dos m\u00e9dicos enviados para miss\u00f5es em diferentes pa\u00edses dizem que as condi\u00e7\u00f5es de trabalho podem ser um &#8220;pesadelo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A BBC News reuniu algumas hist\u00f3rias e dados para entender esse mundo secreto de m\u00e9dicos exportados por Cuba para o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Promessas antes das miss\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A cubana Dayli Coro sempre quis ser m\u00e9dica. &#8220;Estudei por voca\u00e7\u00e3o. Costumava dormir entre tr\u00eas e quatro horas por dia de tanto estudar. Trabalhei muito no meu primeiro ano de pr\u00e1tica. Pegava v\u00e1rios turnos extras&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;E, agora que estou formada, n\u00e3o posso ser m\u00e9dica em Cuba. \u00c9 frustrante.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Dayli, hoje com 31 anos, queria se especializar em atendimento em unidades de terapia intensiva (UTIs). Depois de se formar, disseram a ela que, se fosse para uma miss\u00e3o m\u00e9dica na Venezuela, ganharia experi\u00eancia na \u00e1rea que escolheu, al\u00e9m de poder contar esse per\u00edodo como os tr\u00eas anos de servi\u00e7o social obrigat\u00f3rio que todos os formandos em medicina precisam cumprir em Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela concordou em se juntar ao que Havana chama de &#8220;miss\u00f5es internacionalistas&#8221;, seguindo os passos de centenas de milhares de m\u00e9dicos cubanos. Desde 1960, o trabalho m\u00e9dico de Cuba no exterior \u00e9 usado pelo governo do pa\u00eds como um s\u00edmbolo de solidariedade. Fidel Castro chamava os m\u00e9dicos que participavam dessas miss\u00f5es de integrantes do &#8220;ex\u00e9rcito de jalecos brancos&#8221; de Cuba.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de ser fonte de orgulho e prest\u00edgio, a diplomacia m\u00e9dica garante recursos para o regime. De acordo com dados do governo cubano e de pesquisas acad\u00eamicas, o esquema gera para Cuba por volta de US$ 8 bilh\u00f5es (R$ 32 bilh\u00f5es) por ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, h\u00e1 cerca de 30 mil m\u00e9dicos cubanos atuando em 67 pa\u00edses &#8211; a maioria na Am\u00e9rica Latina e na \u00c1frica, mas tamb\u00e9m em alguns pa\u00edses europeus, como Portugal e It\u00e1lia. As autoridades cubanas estabelecem regras r\u00edgidas para impedir seus cidad\u00e3os de &#8220;desertarem&#8221; o regime uma vez no exterior. Mas o que atrai m\u00e9dicos para esse programa internacional?<\/p>\n\n\n\n<p>Os sal\u00e1rios pagos nos pa\u00edses que recebem os profissionais cubanos costumam ser muito maiores que os oferecidos em Cuba. Esse foi um dos fatores que levaram Dayli a aderir ao programa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Cuba, ela recebia um sal\u00e1rio de US$ 15 por m\u00eas, em 2011. Na Venezuela, receberia US$ 125 por m\u00eas nos primeiros seis meses &#8211; valor que subiria para US$ 250 ap\u00f3s seis meses e para US$ 325 no terceiro ano. A fam\u00edlia dela, em Cuba, tamb\u00e9m receberia um b\u00f4nus de US$ 50 por m\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com um relat\u00f3rio do Prisoners Defenders, uma ONG baseada na Espanha que advoga pelos direitos humanos em Cuba e que \u00e9 ligada ao grupo de oposi\u00e7\u00e3o cubano Uni\u00e3o Patri\u00f3tica de Cuba, os m\u00e9dicos cubanos em miss\u00f5es recebem entre 10% e 25% dos sal\u00e1rios pagos pelos pa\u00edses onde atuam. O restante \u00e9 retido pelas autoridades cubanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dayli diz que ela assinou voluntariamente o contrato para um per\u00edodo de tr\u00eas anos na Venezuela, mas n\u00e3o teve tempo de ler seu teor nem recebeu uma c\u00f3pia do documento.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro de 2011, a m\u00e9dica foi encaminhada para uma cl\u00ednica na cidade venezuelano de El Sombrero. Ela passou a integrar o programa Bairro Adentro, que distribui m\u00e9dicos cubanos em \u00e1reas pobres da Venezuela desde 2003. O governo de Nicol\u00e1s Maduro paga pelo servi\u00e7o dos m\u00e9dicos cubanos com petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dayli diz que se viu, de repente, numa quase zona de guerra, a ponto de se acostumar a ter uma arma apontada para si frequentemente.<\/p>\n\n\n\n<p>A Venezuela estava na \u00e9poca em meio a uma escalada do crime que levou a uma taxa de 92 mortos por 100 mil habitantes em 2016, de acordo com a ONG venezuelana Observat\u00f3rio da Viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o Banco Mundial diz que houve 56 mortos por 100 mil habitantes em 2016, na Venezuela &#8211; o terceiro pior resultado do continente americano, atr\u00e1s apenas de El Salvador e Honduras.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Havia muitas quadrilhas. Quando elas brigavam entre si, levavam seus feridos a n\u00f3s, porque o hospital venezuelano local tinha policiais fazendo a seguran\u00e7a e n\u00f3s, n\u00e3o. Esses garotos levavam pacientes com 12, 15 balas no corpo, apontavam as armas e exigiam que a gente os salvasse. &#8216;Se ele morrer, voc\u00ea morre&#8217;. Esse tipo de coisa acontecia diariamente. Era rotina&#8221;, diz Dayli.<\/p>\n\n\n\n<p>Os membros de grupos criminosos que a m\u00e9dica atendia tinham entre 15 e 16 anos. &#8220;J\u00e1 recebi um com uma bala no cora\u00e7\u00e3o, outro com cinco na cabe\u00e7a. Alguns poderiam sobreviver, mas voc\u00ea sabia que, se n\u00e3o fossem operados em minutos, morreriam, e a gente n\u00e3o tinha as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias nem rem\u00e9dios b\u00e1sicos. Era para haver quatro m\u00e9dicos intensivistas, mas, normalmente, s\u00f3 havia um por turno&#8221;, diz ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses pacientes eram normalmente transferidos de ambul\u00e2ncia para um hospital que ficava a 45 minutos de dist\u00e2ncia. Alguns membros de gangues ordenavam que Dayli entrasse na ambul\u00e2ncia com eles. &#8220;Uma vez uma ambul\u00e2ncia foi alvejada por outra quadrilha, e um m\u00e9dico venezuelano e o motorista morreram&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Sempre havia a possibilidade de uma gangue rival tentar eliminar o paciente durante a transfer\u00eancia para um hospital. J\u00e1 vivi uma situa\u00e7\u00e3o em que uma quadrilha rival entrou e matou o paciente. Eu tinha 24 anos. Mas, num lugar com tamanha viol\u00eancia, voc\u00ea desenvolve uma frieza emocional impressionante.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que dizem os m\u00e9dicos cubanos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um relat\u00f3rio do Cuban Prisoners Defenders, baseado no depoimento in\u00e9dito de 46 m\u00e9dicos que atuaram em miss\u00f5es internacionais e nos testemunhos p\u00fablicos de outros 64 profissionais cubanos revela que:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; 89% n\u00e3o tinham conhecimento pr\u00e9vio de onde seriam alocados dentro do pa\u00eds de destino;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; 41% tiveram seus passaportes confiscados por uma autoridade cubana ao chegar ao pa\u00eds de destino;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; 91% disseram ter sido monitorados por agentes de seguran\u00e7a de Cuba durante a miss\u00e3o e pressionados a compartilhar informa\u00e7\u00f5es sobre os colegas;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; 57% n\u00e3o se voluntariaram para aderir \u00e0 miss\u00e3o, mas se sentiram obrigados a isso, enquanto 39% disseram que se sentiram fortemente pressionados a participar do programa internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A BBC fez v\u00e1rios pedidos para que o governo cubano se manifestasse, mas n\u00e3o recebeu resposta. Mas, depois do relat\u00f3rio ser publicado, o presidente cubano Miguel Diaz-Canel tuitou: &#8220;Mais uma vez, o imp\u00e9rio mente para desacreditar os programas de coopera\u00e7\u00e3o de sa\u00fade com outros pa\u00edses, rotulando-os de &#8216;escravid\u00e3o moderna&#8217; e de pr\u00e1ticas de &#8216;tr\u00e1fico humano&#8217;. Eles n\u00e3o se conformam com exemplo e a solidariedade de Cuba.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro, ele fez uma homenagem aos &#8220;her\u00f3is da medicana cubana e latino-americana&#8221; para marcar o Dia da Medicina da Am\u00e9rica Latina. &#8220;Para aqueles que lutam pela vida, \u00e9 a mesma coisa num bairro modesto de Cuba ou num vilarejo na Amaz\u00f4nia. Mais que m\u00e9dicos, eles s\u00e3o guardi\u00f5es da virtude humana&#8221;, disse o presidente cubano, no Twitter.<\/p>\n\n\n\n<p>No final do ano passado, o governo de Cuba decidiu retirar seus m\u00e9dicos do Brasil, ap\u00f3s ser alvo de cr\u00edticas de Bolsonaro, que acabara de ser eleito. O presidente brasileiro questionou a qualifica\u00e7\u00e3o dos profissionais cubanos e disse que atuavam numa situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 de &#8220;trabalho escravo&#8221;, destacando que mantinham apenas 25% da remunera\u00e7\u00e3o paga pelo Brasil e que o restante ia para o governo cubano.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resposta, as autoridades cubanas rebateram essa compara\u00e7\u00e3o com a escravid\u00e3o e disseram que n\u00e3o era &#8220;aceit\u00e1vel questionar a dignidade, o profissionalismo e o altru\u00edsmo&#8221; da equipe m\u00e9dica internacional de Cuba.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"story-body__crosshead wp-block-heading\">M\u00e9dicas relatam abusos e viol\u00eancia sexual<\/h2>\n\n\n\n<p>Alguns profissionais tamb\u00e9m relatam ter sofrido viol\u00eancia sexual nos pa\u00edses onde atuaram. \u00c9 o caso de uma m\u00e9dica de 48 anos que prefere ser identificada nesta reportagem como J\u00falia para poupar os familiares do sofrimento pelo qual passou.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de sua miss\u00e3o de cinco anos na Venezuela, ela foi levada ao Estado de Bol\u00edvar. &#8220;Tive o azar de o coordenador da miss\u00e3o se interessar por mim. N\u00e3o aceitei suas insinua\u00e7\u00f5es repulsivas, e ele me mandou para uma s\u00e9rie de miss\u00f5es em \u00e1reas rurais&#8221;, diz J\u00falia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dado momento, ela foi alojada num casebre, juntamente com outra m\u00e9dica cubana. &#8220;Acordei numa noite com algu\u00e9m cobrindo a minha boca. A m\u00e9dica no outro quarto estava gritando. Havia dois homens portando armas&#8221;, diz Julia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela conta que foi estuprada. O coordenador da miss\u00e3o retirou as duas mulheres da localidade, mas J\u00falia diz que ele n\u00e3o sofreu qualquer reprimenda por ter exposto integrantes de seu time a situa\u00e7\u00f5es de perigo. A m\u00e9dica foi levada a Caracas, onde recebeu medicamento anti-HIV e passou por sess\u00f5es com um psic\u00f3logo cubano. &#8220;Mas n\u00e3o era o melhor tratamento. O foco era basicamente me fazer n\u00e3o contar para ningu\u00e9m o que aconteceu.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante uma miss\u00e3o na Bol\u00edvia, J\u00falia fugiu e cruzou a fronteira com o Chile. Atualmente, ela mora na Espanha, onde pediu asilo e trabalha como assistente de um cirurgi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria, cujo nome foi trocado para proteger sua identidade, \u00e9 outra m\u00e9dica cubana que diz que o fato de ser mulher a transformou em alvo. Ela tinha 26 anos quando foi encaminhada para a Guatemala, em sua primeira miss\u00e3o internacional, em 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a jornada at\u00e9 o Estado de Alta Verapaz, o coordenador da miss\u00e3o come\u00e7ou a contar para ela sobre um homem rico da regi\u00e3o, a quem se referia como engenheiro. &#8220;Ele insinuou que esse homem gostava de mulheres cubanas.&#8221; Maria conta que recebeu um celular, e o &#8220;engenheiro&#8221; passou a telefonar para ela todos os dias.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o respondia e cheguei a trocar de n\u00famero, mas ele continuou ligando. O coordenador me disse que seria mandada para casa como puni\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o me encontrasse com esse homem. Embarquei numa miss\u00e3o pelo meu pa\u00eds com a ideia de ajudar pessoas pobres. Foi muito frustrante. Estava assustada, n\u00e3o tinha como fugir.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Maria conta que seu passaporte foi confiscado por funcion\u00e1rios cubanos assim que chegou \u00e0 Guatemala. Ap\u00f3s dois meses resistindo \u00e0 press\u00e3o para que se encontrasse com o homem, ela foi transferida para outra miss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns meses depois, soube que o &#8220;engenheiro&#8221; havia sido preso numa opera\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito, acusado de ser traficante de drogas. Maria completou dois anos na Guatemala e desertou quando ia ser enviada ao Brasil, se inscrevendo num programa do governo americano dedicado a ajudar m\u00e9dicos cubanos a fugir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Metas estabelecidas pelos l\u00edderes da miss\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dayli conta que ela e seu time na Venezuela tinham que cumprir metas semanais estabelecidas pelos l\u00edderes da miss\u00e3o cubana, como n\u00fameros m\u00ednimos de vidas salvas, pacientes admitidos e tratamentos para determinadas doen\u00e7as. Ela diz que rejeitou aderir ao que chamou de interfer\u00eancia anti\u00e9tica nos princ\u00edpios m\u00e9dicos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o aceitei mentir. Se um paciente est\u00e1 pronto para receber alta e tomar medicamento oralmente, n\u00e3o vou intern\u00e1-lo por cinco dias (para cumprir a meta). N\u00e3o tenho como antecipar quantos pacientes com ataques card\u00edacos vou receber numa semana.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o relat\u00f3rio do Cuban Prisoners Defenders, mais da metade dentre 46 m\u00e9dicos com experi\u00eancia em miss\u00f5es internacionais entrevistados relatou ter falsificado estat\u00edsticas e inventar pacientes, atendimentos e patologias que n\u00e3o existiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao exagerar a efic\u00e1cia das miss\u00f5es, as autoridades cubanas podem, diz o relat\u00f3rio, exigir pagamentos maiores dos pa\u00edses que recebem os profissionais ou justificar extens\u00f5es no contrato de colabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dayli diz que as discord\u00e2ncias que manifestou sobre adultera\u00e7\u00e3o de estat\u00edsticas fizeram com que fosse transferida para uma cidade rural mais calma, San Jos\u00e9 de Guaribe. Mas as dificuldades de trabalhar sem equipamentos m\u00e9dicos suficientes e as ordens para atingir metas imposs\u00edveis continuaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez, uma mulher chegou \u00e0 cl\u00ednica em trabalho de parto, lembra Dayli, mas n\u00e3o havia instrumentos adequados para auxiliar no parto. Em outra ocasi\u00e3o, ela diz que teve de usar a luz do pr\u00f3prio telefone como ilumina\u00e7\u00e3o para entubar um paciente. Dayli tamb\u00e9m conta que seu pedido para transferir um homem com c\u00e2ncer no pulm\u00e3o para Caracas foi recusado para que ele fosse inserido na estat\u00edstica da sua cl\u00ednica.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A sa\u00fade dos venezuelanos n\u00e3o importa para a miss\u00e3o. Um menino de 11 anos morreu nos meus bra\u00e7os quando tentei coloc\u00e1-lo em aparelhos respirat\u00f3rios que n\u00e3o estavam funcionando&#8221;, diz ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Dayli tamb\u00e9m conta que qualquer fraterniza\u00e7\u00e3o com venezuelanos fora do ambiente de trabalho era proibido. Os m\u00e9dicos cubanos moravam juntos e tinham de respeitar um toque de recolher \u00e0s 18h.<\/p>\n\n\n\n<p>O coordenador da miss\u00e3o era um agente do servi\u00e7o de intelig\u00eancia cubano. &#8220;Ele costumava perguntar sobre meus colegas de casa e tinha uma rede de informantes locais que passavam qualquer informa\u00e7\u00e3o que pudesse indicar poss\u00edveis desertores. N\u00e3o nos era permitido tomar um drink com um venezuelano ou ir \u00e0 casa de algu\u00e9m que voc\u00ea salvou para ver como ela estava.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma reportagem do jornal americano The New York Times, publicada em mar\u00e7o, trouxe depoimentos de m\u00e9dicos cubanos baseados na Venezuela que disseram que tiveram persuadir seus pacientes a votar no Partido Socialista, do governo de Nicol\u00e1s Maduro.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cubanos seriam orientados a recusar tratamento para simpatizantes da oposi\u00e7\u00e3o e a entregar rem\u00e9dios como propina em troca de votos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resposta, o governo cubano negou as acusa\u00e7\u00f5es dizendo que seus m\u00e9dicos salvaram quase 1,5 milh\u00e3o de vidas na Venezuela, al\u00e9m de citar a participa\u00e7\u00e3o dos profissionais na luta contra o v\u00edrus Ebola na \u00c1frica e da C\u00f3lera, no Haiti, entre outros exemplos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s as experi\u00eancias nas miss\u00f5es internacionais, Dayli retornou a Cuba em 2014, onde foi alocada num hospital que n\u00e3o tem unidade de terapia intensiva &#8211; um sinal claro, diz ela, de que n\u00e3o contava com a simpatia do regime. Posteriormente, foi suspensa de praticar a medicina em face de alega\u00e7\u00f5es de que teria se ausentado injustificadamente do trabalho, o que ela nega.<\/p>\n\n\n\n<p>Dayli conta que passou a ser tratada como dissidente e que um agente de seguran\u00e7a do governo cubano passou a vigiar sua casa e segui-la para onde fosse. Amigos e familiares passaram a ser assediados, afirma. Em dado momento, ela n\u00e3o conseguiu mais suportar a situa\u00e7\u00e3o e est\u00e1, agora, visitando parentes na Espanha, onde pretende tentar permanecer.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Queria ser uma m\u00e9dica em Cuba, mas tive que desistir. N\u00e3o quer ser um risco para a minha fam\u00edlia. Falei o que achava, e essa \u00e9 a consequ\u00eancia. Eles querem soldados, n\u00e3o m\u00e9dicos.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: BBC No Brasil, profissionais cubanos integraram o programa Mais M\u00e9dicos de 2013 at\u00e9 o final de 2018, quando o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-7770","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7770","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7770"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7770\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7773,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7770\/revisions\/7773"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7770"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7770"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7770"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}