{"id":5495,"date":"2018-07-23T10:18:27","date_gmt":"2018-07-23T10:18:27","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=5495"},"modified":"2018-07-23T10:18:27","modified_gmt":"2018-07-23T10:18:27","slug":"projeto-de-pesquisadoras-estima-impacto-das-atividades-como-mae-na-carreira-cientifica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2018\/07\/projeto-de-pesquisadoras-estima-impacto-das-atividades-como-mae-na-carreira-cientifica\/","title":{"rendered":"Projeto de pesquisadoras estima impacto das atividades como m\u00e3e na carreira cient\u00edfica"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Revista Fapesp<\/p>\n<p>Fazia pouco tempo que a cientista da computa\u00e7\u00e3o Juliana Freitag Borin havia ingressado como professora no Instituto de Computa\u00e7\u00e3o da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) quando deu \u00e0 luz seu segundo filho, em junho de 2012. Ao voltar da licen\u00e7a-maternidade, seis meses depois, retomou suas aulas, a orienta\u00e7\u00e3o de alunos e o desenvolvimento de pesquisas sobre redes de computadores e internet das coisas, mantendo intensa produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. Em 2016, quando nasceu seu terceiro filho, foi diferente. \u201cSa\u00ed com a expectativa de que conseguiria tocar ao menos parte das minhas atividades\u201d, conta. Logo percebeu que isso n\u00e3o seria poss\u00edvel. A solu\u00e7\u00e3o foi encaminhar os orientandos da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o para colegas de departamento e as disciplinas sob sua responsabilidade para outros professores. Quando voltou \u00e0 universidade, sua produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o era a mesma.<\/p>\n<p>Juliana \u00e9 uma das muitas pesquisadoras brasileiras que se veem diante do desafio de conciliar as atividades docentes e em laborat\u00f3rio com as demandas da maternidade \u2013 que, n\u00e3o raro, coincidem com o per\u00edodo de consolida\u00e7\u00e3o da carreira. A conclus\u00e3o \u00e9 de um estudo desenvolvido no \u00e2mbito do projeto \u201cParent in Science\u201d, criado em 2017 com o prop\u00f3sito de discutir a maternidade no universo acad\u00eamico brasileiro. Para o estudo, cujos resultados preliminares foram apresentados em maio no 1\u00ba Simp\u00f3sio Brasileiro sobre Maternidade e Ci\u00eancia, em Porto Alegre, foram ouvidas 1.182 pesquisadoras \u2013 921 m\u00e3es. A maternidade teve impacto negativo na trajet\u00f3ria profissional de 81% delas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-5496\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/pesquisa-1024x414.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/pesquisa-1024x414.jpg 1024w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/pesquisa-600x243.jpg 600w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/pesquisa-300x121.jpg 300w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/pesquisa-768x310.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>O projeto surgiu por iniciativa da bi\u00f3loga Fernanda Staniscuaski, do Departamento de Biologia Molecular e Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Em 2015, aos 34 anos, durante a licen\u00e7a-maternidade do segundo filho, Fernanda recebeu um comunicado da Funda\u00e7\u00e3o Internacional para a Ci\u00eancia (IFS) \u2013 organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos que oferece bolsas de pesquisa a jovens cientistas de pa\u00edses em desenvolvimento \u2013 sobre a necessidade de apresentar o relat\u00f3rio final de um financiamento que lhe havia sido concedido anteriormente. A mensagem tamb\u00e9m indicava a possibilidade de solicitar nova verba de fomento \u00e0 pesquisa. \u201cEm meio aos cuidados de duas crian\u00e7as, esqueci de responder ao e-mail\u201d, recorda. \u201cMeses depois, recebi outro comunicado, informando que o relat\u00f3rio final estava atrasado e que eu n\u00e3o estava mais eleg\u00edvel para pedir novo apoio.\u201d<\/p>\n<p>Ao compartilhar nas redes sociais suas frustra\u00e7\u00f5es e d\u00favidas sobre o conflito entre ser uma boa m\u00e3e e uma boa cientista, Fernanda percebeu estar diante de um problema abrangente e pouco discutido. Foi quando surgiu a ideia de criar, com outras pesquisadoras que experimentaram os mesmos dilemas, o \u201cParent in Science\u201d. O objetivo inicial era criar um fundo de pesquisa para m\u00e3es cientistas. \u201cNo entanto, percebemos que n\u00e3o t\u00ednhamos dados sobre o impacto da maternidade na carreira cient\u00edfica no Brasil\u201d, diz. \u201cFoi assim que convertemos o \u2018Parent in Science\u2019 em um projeto de pesquisa para estimar esse impacto.\u201d<\/p>\n<p><strong>Baixa produtividade<\/strong><br \/>\nPara levantar os dados, as pesquisadoras criaram um question\u00e1rio \u2013 acess\u00edvel a todas as interessadas em http:\/\/bit.ly\/2IyOlTf. Para a maioria das entrevistadas, o principal obst\u00e1culo enfrentado pelas cientistas que se tornaram m\u00e3es \u00e9 conseguir financiamento para projetos de pesquisa. A dificuldade parece estar associada \u00e0 l\u00f3gica da produtividade que norteia as avalia\u00e7\u00f5es de desempenho e a progress\u00e3o profissional dos cientistas. \u201cOcorre que muitas pesquisadoras que se tornam m\u00e3es passam por um per\u00edodo de queda na produtividade acad\u00eamica\u201d, destaca Rossana Soletti, professora da Universidade Estadual da Zona Oeste (Uezo), no Rio de Janeiro. Ela explica que enquanto as pesquisadoras sem filhos costumam manter uma taxa regular de publica\u00e7\u00f5es por ano, para muitas das que se tornam m\u00e3es esse n\u00famero cai significativamente, tend\u00eancia que s\u00f3 come\u00e7a a ser revertida quatro anos ap\u00f3s o nascimento dos filhos (<a title=\"\" href=\"http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/087-090_Carreiras_269.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\"><em>ver gr\u00e1fico<\/em><\/a>).<\/p>\n<p>O impacto da maternidade na carreira acad\u00eamica costuma variar conforme o campo de atua\u00e7\u00e3o da pesquisadora, observa a ec\u00f3loga Eugenia Zandon\u00e0, do Instituto de Biologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). \u201cAquelas que atuam em \u00e1reas como geologia, ecologia e paleontologia, por exemplo, que exigem per\u00edodos fora de casa em trabalho de campo, costumam sofrer mais com os impactos da maternidade\u201d, explica. \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ficar muito tempo longe de casa na fase de amamenta\u00e7\u00e3o e nos primeiros anos de vida das crian\u00e7as.\u201d<\/p>\n<p>Fernanda conta que, depois de dar \u00e0 luz o primeiro filho, teve projetos recusados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) em editais de apoio \u00e0 pesquisa, sob o argumento de que sua produ\u00e7\u00e3o estava \u201caqu\u00e9m do esperado\u201d em rela\u00e7\u00e3o aos seus pares. \u201cAs ag\u00eancias financiadoras ainda n\u00e3o contabilizam o impacto da maternidade na produtividade ao avaliarem as propostas de financiamento\u201d, ela ressalta. A exce\u00e7\u00e3o, segundo ela, \u00e9 o Instituto Serrapilheira, funda\u00e7\u00e3o privada criada em 2017, no Rio de Janeiro, para financiar projetos de pesquisa. Em sua primeira chamada de propostas, o instituto concedeu \u00e0s m\u00e3es, de acordo com o n\u00famero de filhos, um ou dois anos a mais na data-limite de conclus\u00e3o do doutorado \u2013 um dos crit\u00e9rios de elegibilidade do edital.<\/p>\n<p>\u201cUma conquista recente nesse sentido foi a aprova\u00e7\u00e3o da Lei n\u00ba 13.536\/2017, que garante \u00e0s bolsistas de mestrado e doutorado do CNPq e da Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior [Capes] o direito de afastamento por maternidade ou ado\u00e7\u00e3o\u201d, explica Tamara Naiz, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-graduandos (ANPG).\u201cAs mulheres agora podem suspender suas atividades acad\u00eamicas por at\u00e9 120 dias sem deixar de receber a bolsa.\u201d A prorroga\u00e7\u00e3o da vig\u00eancia corresponde ao per\u00edodo de afastamento do pesquisador. Em nota, a Capes informou que a pr\u00e1tica \u00e9 aplicada pela ag\u00eancia desde 2011. A FAPESP adotou pol\u00edtica semelhante, mas com escopo maior, em 2013. Nela est\u00e3o inclu\u00eddas bolsistas de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, pesquisadoras em est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado, da modalidade Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes, entre outras.<\/p>\n<p>Em geral, as universidades brasileiras n\u00e3o disp\u00f5em de pol\u00edticas para mulheres que retomam suas atividades cient\u00edficas ap\u00f3s a licen\u00e7a-maternidade. Em nota, a Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) disse que \u201ca reitoria est\u00e1 desenvolvendo a\u00e7\u00f5es para implementar novos projetos e integrar, em n\u00edvel institucional, as iniciativas pontuais concebidas pelas suas unidades\u201d. Diante disso, as pesquisadoras do \u201cParent in Science\u201d lan\u00e7aram o movimento Maternidade no Lattes, que incentiva cientistas a inclu\u00edrem em suas biografias, na plataforma, o tempo dedicado aos filhos durante a licen\u00e7a-maternidade. \u201cA men\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade no curr\u00edculo acad\u00eamico \u00e9 uma pr\u00e1tica comum em v\u00e1rios pa\u00edses\u201d, comenta Rossana. \u201cO objetivo \u00e9 mostrar que n\u00e3o se pode comparar a produtividade de um pesquisador que n\u00e3o teve pausas na sua carreira com a de outro profissional que passou um per\u00edodo afastado.\u201d<\/p>\n<p><strong>Experi\u00eancias no exterior<\/strong><br \/>\nA lei sancionada em dezembro de 2017 constitui medida t\u00edmida se comparada com iniciativas de outros pa\u00edses. A National Science Foundation (NSF), principal ag\u00eancia de fomento \u00e0 pesquisa dos Estados Unidos, por exemplo, oferece financiamento suplementar de cerca de US$ 12 mil (aproximadamente R$ 45 mil), por at\u00e9 tr\u00eas meses ap\u00f3s o parto, para pesquisadoras e bolsistas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas de ci\u00eancia, tecnologia, engenharia e matem\u00e1tica custearem um t\u00e9cnico de laborat\u00f3rio. O Centro Europeu de Investiga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m adaptou suas regras e criou, em 2008, um programa de igualdade de g\u00eanero que garante \u00e0s m\u00e3es pesquisadoras prazo maior para solicitar subs\u00eddios de pesquisa.<\/p>\n<p>J\u00e1 o Instituto Max Planck, da Alemanha, tem v\u00e1rios programas para mulheres com crian\u00e7as. Um deles garante assist\u00eancia mensal extra de at\u00e9 \u20ac 400 (cerca de R$ 1.700) para despesas dom\u00e9sticas e cuidados infantis a estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em ci\u00eancias naturais e medicina. Na Inglaterra, o Imperial College de Londres disp\u00f5e de bolsa para pesquisadoras que retornam ao trabalho ap\u00f3s o parto ou ado\u00e7\u00e3o, eximindo-lhes por at\u00e9 12 meses da responsabilidade de ministrar aulas ou lidar com quest\u00f5es administrativas, para que possam se concentrar em suas pesquisas. Na Argentina, o Conselho Nacional de Pesquisas Cient\u00edficas e T\u00e9cnicas (Conicet), prorroga em um ano o limite de idade das candidatas a bolsas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, para cada um de seus filhos.<\/p>\n<p>As pesquisadoras do \u201cParent in Science\u201d reivindicam que as institui\u00e7\u00f5es de ensino superior e pesquisa e as ag\u00eancias de fomento ajustem o limite de tempo para an\u00e1lise da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, de acordo com o per\u00edodo em que a pesquisadora esteve afastada. \u201cEsse tipo de avalia\u00e7\u00e3o hoje se concentra nos \u00faltimos cinco anos de produ\u00e7\u00e3o dos pesquisadores, sendo que esse per\u00edodo poderia ser estendido para seis anos, nos casos das mulheres que tiveram um filho, e para sete anos, no caso das que tiveram dois filhos ou mais\u201d, diz Eugenia. Elas tamb\u00e9m defendem a elabora\u00e7\u00e3o e ado\u00e7\u00e3o de um \u201cmanual de boa conduta\u201d a ser usado em bancas de concursos p\u00fablicos para que n\u00e3o haja discrimina\u00e7\u00e3o de gestantes e m\u00e3es em processos seletivos. Outra medida seria a cria\u00e7\u00e3o de creches pr\u00f3ximas ou no pr\u00f3prio\u00a0<em>campus<\/em>das universidades.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ag\u00eancias de fomento, as integrantes do \u201cParent in Science\u201d reivindicam, entre outros pontos, que concedam bolsas para pesquisadores substitutos durante o per\u00edodo em que estiverem afastadas e, a exemplo da FAPESP, aux\u00edlio para os dependentes menores de idade, no caso de bolsas no exterior. \u201c\u00c9 preciso naturalizar a maternidade no ambiente acad\u00eamico\u201d, advoga Fernanda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Revista Fapesp Fazia pouco tempo que a cientista da computa\u00e7\u00e3o Juliana Freitag Borin havia ingressado como professora no Instituto [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5496,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-5495","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5495"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5495\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5497,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5495\/revisions\/5497"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5496"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}