{"id":5414,"date":"2018-07-04T09:56:23","date_gmt":"2018-07-04T09:56:23","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=5414"},"modified":"2019-02-21T10:16:05","modified_gmt":"2019-02-21T10:16:05","slug":"por-que-o-movimento-antivacina-nao-tem-um-pingo-de-sentido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2018\/07\/por-que-o-movimento-antivacina-nao-tem-um-pingo-de-sentido\/","title":{"rendered":"Por que o movimento antivacina n\u00e3o tem um pingo de sentido"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/vacina-tumor1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-5415\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/vacina-tumor1-150x150.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/vacina-tumor1-150x150.png 150w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/vacina-tumor1-300x300.png 300w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/vacina-tumor1-100x100.png 100w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/vacina-tumor1-160x160.png 160w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/vacina-tumor1-320x320.png 320w\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>fonte: Portal Sa\u00fade<\/p>\n<p>por\u00a0Dra. Natalia Pasternak Taschner, bi\u00f3loga, pesquisadora do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo<\/p>\n<p>Voc\u00ea consegue imaginar um mundo sem\u00a0<a href=\"https:\/\/saude.abril.com.br\/tudo-sobre\/vacinacao\"><strong>vacinas<\/strong><\/a>? Pois essa realidade n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o antiga assim. Vamos voltar no tempo, l\u00e1 para o in\u00edcio do s\u00e9culo 20. Naquela \u00e9poca, uma em cada cinco crian\u00e7as morria de alguma doen\u00e7a infecciosa antes de completar 5 anos de idade.<\/p>\n<p>Hoje parece que a gente n\u00e3o faz ideia de qu\u00e3o cru\u00e9is eram essas mol\u00e9stias. E mal podemos imaginar a dor de perder nossos filhos para enfermidades que atualmente s\u00e3o pass\u00edveis de preven\u00e7\u00e3o por meio de imunizantes. Quem \u00e9 que morre de sarampo ou\u00a0<a href=\"https:\/\/saude.abril.com.br\/medicina\/o-que-e-a-tal-da-caxumba\/\">caxumba<\/a>\u00a0hoje em dia?<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0s vacinas, doen\u00e7as terr\u00edveis e altamente contagiosas foram quase erradicadas. Algumas, como a var\u00edola, de fato sumiram do mapa.<\/p>\n<p>Como explicar, ent\u00e3o, que existam\u00a0<a href=\"https:\/\/saude.abril.com.br\/blog\/tunel-do-tempo\/vacinas-donald-trump-e-uma-volta-ao-passado-que-ninguem-deseja\/\">grupos professando religiosamente um movimento contra a vacina\u00e7\u00e3o<\/a>? Como entender que temos por a\u00ed fam\u00edlias que deliberadamente escolhem N\u00c3O vacinar seus filhos contra males potencialmente letais e capazes de deixar sequelas? Pois \u00e9, o movimento antivacina vem crescendo no mundo todo, inclusive no Brasil. Justo em nosso pa\u00eds, que sempre foi exemplo internacional de um modelo de vacina\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<h3>Um movimento contagioso<\/h3>\n<p>Em 2016, a meta de vacina\u00e7\u00e3o contra poliomielite (a paralisia infantil) n\u00e3o foi cumprida por aqui. Imunizamos 86% da popula\u00e7\u00e3o, ante os 95% recomendados pela\u00a0<a href=\"http:\/\/www.who.int\/eportuguese\/countries\/bra\/pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS)<\/a>. Foi a pior taxa de vacina\u00e7\u00e3o dos \u00faltimos 12 anos. A p\u00f3lio \u00e9 considerada erradicada do Brasil desde 1990.<\/p>\n<p>O dilema \u00e9: ser\u00e1 que essa conquista se preservar\u00e1?<\/p>\n<p>Quando uma parte da popula\u00e7\u00e3o deixa de ser vacinada, criam-se grupos de pessoas suscet\u00edveis, que possibilitam a circula\u00e7\u00e3o de agentes infecciosos. Quando eles trafegam e se multiplicam por a\u00ed, n\u00e3o afetam apenas aqueles que escolheram deixar de se vacinar, mas tamb\u00e9m aqueles que n\u00e3o podem ser imunizados, seja porque ainda n\u00e3o t\u00eam idade suficiente para entrar no calend\u00e1rio nacional, seja porque sofrem de algum comprometimento imunol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Sim, a vacina\u00e7\u00e3o dificilmente chega a 100% da popula\u00e7\u00e3o. Mas, quanto maior for o contingente vacinado, maior a prote\u00e7\u00e3o conferida inclusive aos n\u00e3o vacinados.\u00a0<strong>Isso \u00e9 o que chamamos de imunidade de rebanho<\/strong>.<\/p>\n<p>Por essas e outras, a vacina\u00e7\u00e3o \u00e9 algo maior que uma escolha pessoal. Vira assunto de sa\u00fade p\u00fablica. Se voc\u00ea n\u00e3o vacina seu filho de 5 anos, ele pode contrair uma doen\u00e7a e passar para o meu beb\u00ea de 6 meses, que ainda n\u00e3o tomou todas as doses necess\u00e1rias. Assim, a SUA escolha afeta a vida do MEU filho. E esse \u00e9 um fen\u00f4meno que tem acontecido no Brasil.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que casos isolados de poliomielite e coqueluche t\u00eam sido reportados. Em 2014, registraram-se dois casos de coqueluche em uma fam\u00edlia de classe alta de S\u00e3o Paulo. As v\u00edtimas foram crian\u00e7as n\u00e3o vacinadas por escolha dos pais. Eles temiam que\u00a0<strong>as vacinas causassem autismo<\/strong>\u00a0ou mesmo tumores (liga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem p\u00e9 nem cabe\u00e7a).<\/p>\n<p>A filha mais velha, de 6 anos, contraiu a doen\u00e7a e a transmitiu \u00e0 sua irm\u00e3zinha de 6 meses. A beb\u00ea chegou a lutar pela sua vida na UTI enquanto a m\u00e3e declarava que a outra filha sofreu semanas com intensa falta de ar.<\/p>\n<p>No Cear\u00e1 e em Pernambuco, no ano de 2013 houve uma queda na vacina\u00e7\u00e3o de sarampo, seguida de um surto que acometeu 1 277 pessoas. O Brasil n\u00e3o tinha um \u00fanico caso de sarampo aut\u00f3ctone \u2013 de origem local \u2013 desde 2000. Os poucos epis\u00f3dios eram de pessoas que vinham do exterior.<\/p>\n<p>Em abril de 2017, 200 pessoas ficaram em quarentena em Minesotta, nos Estados Unidos, ap\u00f3s 12 casos de sarampo serem notificados em apenas duas semanas, todos em crian\u00e7as n\u00e3o vacinadas com menos de 6 anos. Enquanto isso, do outro lado do oceano, em Portugal, uma mo\u00e7a de 17 anos morria de sarampo, decorrente de um surto como outros que v\u00eam ocorrendo na Europa.<\/p>\n<p>Mais recentemente, reportagens publicadas no Brasil revelam um preocupante avan\u00e7o do movimento antivacina\u00e7\u00e3o. O mais surpreendente \u00e9 que fam\u00edlias que escolhem n\u00e3o vacinar seus filhos reportam abertamente que usam,\u00a0<strong>como fonte de informa\u00e7\u00e3o, as redes sociais!<\/strong><\/p>\n<p>Curiosamente, o medo das vacinas espalhado pelas redes come\u00e7ou por causa de um m\u00e9dico que nunca foi partid\u00e1rio da causa antivacina. Ele apenas queria ficar rico vendendo um imunizante contra o sarampo. Para isso, fraudou um trabalho cient\u00edfico a fim de relacionar a vacina tr\u00edplice viral MMR, que protege frente a sarampo, rub\u00e9ola e caxumba, com o autismo.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria aconteceu em 1998 e o protagonista foi\u00a0<a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/saude\/estudo-que-vinculava-autismo-a-vacina-triplice-era-fraude-elaborada-diz-revista-britanica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o m\u00e9dico brit\u00e2nico Andrew Wakefield<\/a>. Seu estudo, embora tenha sido publicado em um peri\u00f3dico respeitado no meio cient\u00edfico, contava com apenas 12 pacientes e n\u00e3o dispunha de fundamento. Forjando uma\u00a0<a href=\"https:\/\/saude.abril.com.br\/blog\/cientistas-explicam\/causa-e-efeito\/\">rela\u00e7\u00e3o inexistente<\/a>, Wakefield afirmava categoricamente que a vacina era a causa do autismo de seus pacientes.<\/p>\n<p>Anos depois, descobriu-se n\u00e3o apenas que a pesquisa era uma fraude, com todos os dados e prontu\u00e1rios alterados, como tamb\u00e9m o estimado doutor havia sido financiado por um advogado que pretendia lucrar milh\u00f5es processando os fabricantes da vacina. Ele mesmo tinha ambi\u00e7\u00e3o de patentear uma nova vacina para substituir a MMR.<\/p>\n<p>Reparem: Wakefield nunca foi contra imunizantes. Ele s\u00f3 queria emplacar a sua pr\u00f3pria solu\u00e7\u00e3o como arma exclusiva contra o sarampo. Resultado: o m\u00e9dico foi julgado e considerado culpado de fraude e conspira\u00e7\u00e3o na Inglaterra; a revista cient\u00edfica retirou o estudo e se retratou; Wakefield teve sua licen\u00e7a m\u00e9dica cassada e foi demitido do instituto onde atuava.<\/p>\n<p>Ainda assim, suas fajutas conclus\u00f5es conquistaram seguidores no mundo todo, principalmente nos Estados Unidos, onde teve in\u00edcio um movimento antivacina\u00e7\u00e3o sem precedentes na hist\u00f3ria. Por causa de um estudo falso, hoje milhares de pessoas est\u00e3o convencidas de que vacinas, como um todo \u2013 e n\u00e3o somente a MMR \u2013 s\u00e3o a causa do autismo. O n\u00famero de crian\u00e7as n\u00e3o vacinadas est\u00e1 crescendo. Doen\u00e7as antigas, quase erradicadas, est\u00e3o reemergindo.<\/p>\n<h3>Olhem l\u00e1 atr\u00e1s<\/h3>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por menos que \u00e9 preciso lembrar como era o mundo pr\u00e9-vacinas. Para as mam\u00e3es que alegam que seus filhos s\u00e3o saud\u00e1veis e n\u00e3o carecem de picadas e gotinhas, cabe o questionamento se as crian\u00e7as do passado por acaso eram menos saud\u00e1veis do que as nossas, j\u00e1 que adoeciam (e morriam) especialmente de doen\u00e7as infecciosas. Ora, podemos supor inclusive que os pequenos do in\u00edcio do s\u00e9culo 20 eram at\u00e9 mais saud\u00e1veis do que a crian\u00e7ada dos dias de hoje, uma vez que eram mais ativos e conviviam com menos polui\u00e7\u00e3o. Ainda assim, garanto, eles morriam.<\/p>\n<p>Antes da vacina de Jonas Salk para poliomielite ser testada em 1952, aproximadamente 20 mil casos eram reportados por ano, s\u00f3 em terra americana. No ano de 1952, particularmente, os casos chegaram em 58 mil. Hoje, depois das vacinas Salk e Sabin, a p\u00f3lio foi praticamente erradicada nas Am\u00e9ricas e na Europa, sendo que os poucos casos restantes adv\u00eam de regi\u00f5es sem acesso \u00e0s\u00a0vacinas, na \u00c1sia e na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as acometidas pela p\u00f3lio, mesmo quando sobreviviam, ficavam paral\u00edticas, com retardo mental, ou, na melhor das hip\u00f3teses, passavam\u00a0meses\u00a0em respiradores artificiais, os \u201cpulm\u00f5es de a\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, antes da vacina contra sarampo, havia aproximadamente de 3 a 4 milh\u00f5es de casos por ano, e uma m\u00e9dia de 450 mortes anuais, registradas entre 1953 e 1963.<strong>\u00a0Ap\u00f3s a introdu\u00e7\u00e3o da vacina, nenhum caso foi reportado at\u00e9 2004, quando a vacina\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser questionada e deixada de lado por parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Meningite era um mal que matava em m\u00e9dia 600 crian\u00e7as por ano, e deixava sobreviventes com sequelas como surdez e retardo mental. Antes da vacina de coqueluche, quase todas as crian\u00e7as contra\u00edam a doen\u00e7a, com aproximadamente 150 a 260 mil casos reportados anualmente e 9 mil mortes. Desde 1990, apenas 50 casos ao todo foram noticiados.<\/p>\n<p>Rub\u00e9ola \u00e9 um problema relativamente banal em adultos, mas pode acometer gravemente crian\u00e7as ao nascer, se a m\u00e3e for contaminada durante a gesta\u00e7\u00e3o. As repercuss\u00f5es incluem defeitos card\u00edacos, problemas de vis\u00e3o,\u00a0<a href=\"https:\/\/saude.abril.com.br\/bem-estar\/em-busca-do-som-perdido\/\">surdez<\/a>\u00a0e retardo mental. Em 1964, antes da imuniza\u00e7\u00e3o, 20 mil beb\u00eas nasciam de m\u00e3es infectadas. Desses, 11 mil eram surdos, 4 mil cegos e 1 800 apresentavam retardo mental.<\/p>\n<p>Podemos nos estender nos exemplos e falar tamb\u00e9m de\u00a0<a href=\"https:\/\/saude.abril.com.br\/medicina\/enfim-um-exame-de-urina-que-detecta-a-tuberculose\/\">tuberculose<\/a>, catapora, caxumba, hepatite B e difteria, que foram controladas com vacinas eficazes, mas que acometeram e mataram milhares de pessoas em um passado n\u00e3o t\u00e3o distante.<\/p>\n<p>As vacinas nos protegem contra doen\u00e7as terr\u00edveis, capazes de causar sofrimento, sequelas e morte. Esse fato n\u00e3o pode ser refutado. H\u00e1 60 anos as vacinas t\u00eam se mostrado eficazes e seguras.<\/p>\n<p><strong>Os imunizantes parecem hoje ser v\u00edtimas do seu pr\u00f3prio sucesso.<\/strong>\u00a0As pessoas esqueceram como era viver sem vacinas e que, gra\u00e7as a elas, vencemos v\u00e1rias infec\u00e7\u00f5es. Lembre-se daquele n\u00famero: antes desse progresso da medicina, uma em cada cinco crian\u00e7as perdia a vida. O mundo antes das vacinas n\u00e3o me parece um local muito alentador. Eu n\u00e3o gostaria de voltar para l\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Portal Sa\u00fade por\u00a0Dra. 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