{"id":5275,"date":"2018-06-04T11:21:30","date_gmt":"2018-06-04T11:21:30","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=5275"},"modified":"2019-02-21T10:16:30","modified_gmt":"2019-02-21T10:16:30","slug":"medicina-para-quem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2018\/06\/medicina-para-quem\/","title":{"rendered":"Medicina para quem?"},"content":{"rendered":"<p>fonte: CFM<\/p>\n<p>por\u00a0<em>Andrey Oliveira da Cruz,\u00a0<\/em><em>acad\u00eamico do 5\u00ba ano do curso de medicina da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas e da Sa\u00fade da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP)<\/em><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o da not\u00edcia de que o atual Governo utilizar\u00e1 uma morat\u00f3ria para a suspens\u00e3o da abertura de cursos de medicina no Pa\u00eds pelo per\u00edodo de cinco anos, uma s\u00e9rie de coment\u00e1rios tem tomado conta das redes sociais e dividindo opini\u00f5es sobre o assunto.<\/p>\n<p>A morat\u00f3ria, fruto de uma negocia\u00e7\u00e3o e apelo entre as entidades m\u00e9dicas e o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC), surge a partir de diverg\u00eancias antigas e debates criados a partir da promulga\u00e7\u00e3o da Lei n\u00ba 12.871, de 22 de outubro de 2013, tamb\u00e9m conhecida como \u201cLei dos Mais M\u00e9dicos\u201d.<\/p>\n<p>Atualmente, vivemos em um pa\u00eds que partiu do discurso falacioso de que escolas m\u00e9dicas fixariam profissionais em regi\u00f5es carentes, permitindo a abertura irrespons\u00e1vel de faculdades de medicina em um n\u00famero nunca antes visto. Hoje o Brasil ocupa o segundo lugar em quantidade de escolas m\u00e9dicas em funcionamento, atr\u00e1s somente da \u00cdndia, que possui uma popula\u00e7\u00e3o de 1,2 bilh\u00e3o de habitantes, em compara\u00e7\u00e3o aos 207 milh\u00f5es de brasileiros.<\/p>\n<p>Em contradi\u00e7\u00e3o ao discurso pol\u00edtico usado como base para abertura de novas escolas, vivenciamos a realidade dos nossos sistemas de sa\u00fade sucateados, tanto o p\u00fablico quanto o privado, oferecendo sa\u00fade de qualidade a uma parcela muito pequena da popula\u00e7\u00e3o. Ainda em rela\u00e7\u00e3o a isso, a abertura indiscriminada de novas escolas em regi\u00f5es mostra que o n\u00famero de faculdades de medicina j\u00e1 \u00e9 alto proporcionalmente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com estudos da Demografia m\u00e9dica no Brasil (SCHEFFER, 2015), a regi\u00e3o Norte contava com raz\u00e3o de 1,09 m\u00e9dico por mil habitantes, e o Nordeste, 1,3, ambas abaixo da m\u00e9dia nacional de 2,09. Em contrapartida, a regi\u00e3o Sudeste, por si s\u00f3, apresentava taxa de 2,75 m\u00e9dicos\/mil habitantes, acima da m\u00e9dia nacional.<\/p>\n<p>Anos ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do Mais M\u00e9dicos, estamos colhendo os primeiros frutos do programa e seus impactos na educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica no Pa\u00eds. Apesar disso, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel perceber que tal pol\u00edtica muito pouco influenciou na fixa\u00e7\u00e3o de novos m\u00e9dicos em pequenos centros, uma vez que n\u00e3o foi acompanhada de planos a longo prazo para reconstru\u00e7\u00e3o e desenvolvimento dos sistemas de sa\u00fade deteriorados, tampouco para a cria\u00e7\u00e3o de um plano de carreira no servi\u00e7o p\u00fablico de sa\u00fade e revis\u00e3o dos pisos salariais e tabelas de servi\u00e7os que incentivassem o maior comprometimento dos egressos.<br \/>\nAinda no mesmo panorama, vemos a situa\u00e7\u00e3o piorar com a baixa disponibilidade de servi\u00e7os de resid\u00eancia m\u00e9dica suficientes para atender a expans\u00e3o no n\u00famero de profissionais m\u00e9dicos e sua distribui\u00e7\u00e3o desordenada pelo Pa\u00eds, associado \u00e0 irris\u00f3ria bolsa de resid\u00eancia m\u00e9dica, que incentiva a m\u00e3o de obra barata dos profissionais rec\u00e9m-formados e vai de encontro aos princ\u00edpios da educa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica continuada.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, ainda vivenciamos a propaganda populista de que o bloqueio na abertura de escolas m\u00e9dicas \u00e9 contra a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o e o acesso de estudantes carentes na forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. O que me faz perguntar: nossa medicina \u00e9 pra quem?<\/p>\n<p>Hoje a faculdade de medicina possui g\u00eanero, classe social, cor e diversas outras defini\u00e7\u00f5es bem especificadas. O perfil do estudante de medicina \u00e9 do estudante jovem, branco, de classe m\u00e9dia alta, com acesso a ensino b\u00e1sico privado e, muito provavelmente, cursos pr\u00e9-vestibulares. Mesmo com os atuais projetos de a\u00e7\u00f5es afirmativas, pol\u00edticas como o Prouni permitem o acesso de, geralmente, 10% de estudantes de baixa renda, em um pa\u00eds onde o financiamento estudantil e as a\u00e7\u00f5es de aux\u00edlio ao estudante s\u00e3o basicamente inexistentes.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, continua a abertura de escolas m\u00e9dicas, privadas, de mensalidades que beiram o absurdo de 7 a 10 mil reais, em regi\u00f5es j\u00e1 abastadas de faculdades de medicina no Pa\u00eds, como o Centro-Sul do Brasil. Quando associamos a abertura de escolas em pequenos centros, ainda lidamos com a aus\u00eancia de hospitais-escola e educadores capacitados para o ensino da medicina e a forma\u00e7\u00e3o de boa qualidade, pr\u00e1tica e te\u00f3rica, de nossos profissionais. Para finalizar o quadro, o crescimento dos cursos de prepara\u00e7\u00e3o para as provas de resid\u00eancia m\u00e9dica, os \u201ccursinhos\u201d, confirmam a privatiza\u00e7\u00e3o e o privilegiado acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Se o acesso aos cursos de medicina \u00e9 t\u00e3o espec\u00edfico que somente uma parcela t\u00e3o privilegiada pode usar essa forma\u00e7\u00e3o, devemos repensar nosso modelo atual de acesso ao ensino e aprofundar o n\u00edvel do debate. O que, novamente, me faz perguntar: nossa medicina \u00e9 para quem?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: CFM por\u00a0Andrey Oliveira da Cruz,\u00a0acad\u00eamico do 5\u00ba ano do curso de medicina da Faculdade de Ci\u00eancias M\u00e9dicas e da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,2],"tags":[],"class_list":["post-5275","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5275","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5275"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5275\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5276,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5275\/revisions\/5276"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5275"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5275"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5275"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}