{"id":4957,"date":"2018-04-16T11:28:38","date_gmt":"2018-04-16T11:28:38","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=4957"},"modified":"2018-04-16T11:28:38","modified_gmt":"2018-04-16T11:28:38","slug":"medicas-falam-de-assedio-e-do-movimento-metoo-em-artigos-cientificos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2018\/04\/medicas-falam-de-assedio-e-do-movimento-metoo-em-artigos-cientificos\/","title":{"rendered":"M\u00e9dicas falam de ass\u00e9dio e do movimento #metoo em artigos cient\u00edficos"},"content":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>&#8220;Do ponto de vista de uma cirurgi\u00e3 e uma das poucas reitoras de escolas de medicina, parece que a sociedade dos EUA est\u00e1 \u00e0 beira de uma mudan\u00e7a na abordagem do ass\u00e9dio sexual&#8221;, escreveu a m\u00e9dica Julie A. Freischlag, da Faculdade de Medicina de Wake Forest, no estado americano de Carolina do Norte.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo do artigo dela, publicado neste m\u00eas na revista Jama (Journal of American Medical Association), indica o timing da discuss\u00e3o: &#8220;Uma consequ\u00eancia do movimento #metoo&#8221; (&#8220;eu tamb\u00e9m&#8221;).<\/p>\n<p>A onda de den\u00fancias de ass\u00e9dios come\u00e7ou no ano passado na \u00e1rea de entretenimento, mas aos poucos deixou de se restringir a ela. Agora, diz a m\u00e9dica, \u00e9 hora de mulheres (e homens) serem corajosos e trazerem a discuss\u00e3o tamb\u00e9m para a medicina.<\/p>\n<p>&#8220;Pol\u00edticas [contra discrimina\u00e7\u00e3o e ass\u00e9dio] nem sempre s\u00e3o colocadas em pr\u00e1tica e incidentes nem sempre s\u00e3o relatados por medo de retalia\u00e7\u00e3o&#8221;, escreve ela.<\/p>\n<p>Outro artigo publicado na revista m\u00e9dica Jama junto com o texto de Freischlag traz uma pesquisa feita com 14.405 formandos em medicina no ano passado nos EUA. Desses, 33% relataram terem ouvido coment\u00e1rios sexistas, racistas ou com outras ofensas ou recebido notas baixas, recusas a treinamento ou a pr\u00eamios por causa de seu sexo, identidade de g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual, ra\u00e7a ou etnia.<\/p>\n<p>&#8220;O que aconteceu nas escolas de medicina desde outubro de 2017 e o movimento #metoo?&#8221;, pergunta Karen Antman, reitora da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston e autora do texto.<\/p>\n<p>Um question\u00e1rio sobre o assunto foi enviado para os reitores de 140 escolas de medicina nos EUA em fevereiro deste ano. Vinte e um responderam, e apenas seis viram um aumento no n\u00famero de reclama\u00e7\u00f5es sobre ass\u00e9dio sexual desde outubro de 2016.<\/p>\n<p>Curiosamente, tr\u00eas desses seis receberam novas alega\u00e7\u00f5es graves de ex-alunas &#8211;uma delas, por exemplo, disse que foi aconselhada pela administra\u00e7\u00e3o da escola a n\u00e3o prestar queixa na \u00e9poca para n\u00e3o prejudicar suas chances de entrar na resid\u00eancia.<\/p>\n<p>Dos bastidores de Hollywood o tema foi para as telas. Novas s\u00e9ries e epis\u00f3dios de tem\u00e1tica m\u00e9dica t\u00eam retratado o problema como \u00e9 o caso de &#8220;The Good Doctor&#8221;. Em epis\u00f3dio que foi ao ar em dezembro, a m\u00e9dica Claire Brown (Antonia Thomas) \u00e9 assediada pelo colega Matt Coyle (Eric Winter).<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">BRASIL<\/h3>\n<p>O tema\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2014\/11\/1547374-apos-relatos-de-abusos-medicina-da-usp-estuda-barrar-bebidas-em-festas.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">abuso na faculdade de medicina<\/a>\u00a0n\u00e3o \u00e9 novo, mas hoje mobiliza mais as m\u00e9dicas &#8211;h\u00e1 desde grupos de WhatsApp para trocas de informa\u00e7\u00f5es e relatos a coletivos dentro das escolas.<\/p>\n<p>&#8220;Nos \u00faltimos quatro anos, cresceram muitos os\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2015\/11\/1701071-meninas-formam-coletivos-feministas-em-escolas-de-ensino-medio-de-sp.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">coletivos feministas<\/a>\u00a0e tamb\u00e9m em defesa de LGBT, negros e ind\u00edgenas&#8221;, diz Prislaine Krodi, psic\u00f3loga do USP Mulheres.<\/p>\n<p>Outros s\u00e3o o Coletivo de Mulheres Medicina Unicamp (MUDA), Coletivo Feminista Geni da Faculdade de\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2014\/11\/1547981-estudantes-de-medicina-se-silenciam-sobre-relatos-de-abuso-sexual-na-usp.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Medicina da USP,<\/a>\u00a0Coletivo Feminista Estrelas do Sul, da Faculdade de Medicina de Catanduva (SP) e o Coletivo de Mulheres Medicina Est\u00e1cio de S\u00e1 (Rio).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4958\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/metoo_medicina.jpg\" alt=\"\" width=\"562\" height=\"597\" srcset=\"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/metoo_medicina.jpg 562w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/metoo_medicina-282x300.jpg 282w\" sizes=\"auto, (max-width: 562px) 100vw, 562px\" \/><\/p>\n<p>O USP Mulheres foi criado quase concomitantemente \u00e0 Rede N\u00e3o Cala USP, na qual cerca de 200 professoras e pesquisadoras come\u00e7aram a debater o fim da viol\u00eancia sexual e de g\u00eanero na universidade ap\u00f3s\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2014\/11\/1551280-relatorio-aponta-abusos-constantes-na-faculdade-de-medicina-da-usp.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">abusos<\/a>\u00a0relatados por alunas da Faculdade de Medicina da USP em 2014.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo apurou as\u00a0<a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2014\/12\/1556693-alunos-de-centro-academico-da-usp-dizem-desconhecer-abuso-na-medicina.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">den\u00fancias de viol\u00eancia<\/a>\u00a0ocorridas dentro da faculdade de medicina e a Assembleia Legislativa do Estado de S\u00e3o Paulo (Alesp) instaurou uma Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) para investigar as queixas de estupros e outras viola\u00e7\u00f5es em unidades de ensino paulistas.<\/p>\n<p>Uma das recomenda\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico feita \u00e0 USP era de manter em funcionamento grupos de trabalho e comiss\u00f5es de direitos humanos. J\u00e1 a CPI solicitou que fossem publicadas estat\u00edsticas de v\u00edtimas de trotes e outras viol\u00eancias praticadas nas faculdades e universidades do Estado de S\u00e3o Paulo. No caso dos estupros, um aluno foi r\u00e9u e absolvido em 2017.<\/p>\n<p>Segundo pesquisa com 317 estudantes da gradua\u00e7\u00e3o de medicina da USP, coordenada em 2013 pela professora Maria Fernanda Tourinho Peres, 92,3% afirmam terem sofrido algum tipo de ass\u00e9dio ou discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Maria Cristina Pereira Lima, vice-diretora da Faculdade de Medicina da Unesp e autora de estudos sobre trotes violentos, afirma que a universidade \u00e9 um retrato da sociedade que estimula mais a competi\u00e7\u00e3o do que a colabora\u00e7\u00e3o. &#8220;De qualquer maneira, as pessoas hoje est\u00e3o mais prontas para denunciar a viol\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">DEPOIMENTO<\/h3>\n<p>Leia depoimento da\u00a0cirurgi\u00e3 de S\u00e3o Paulo, Samara, 34 (nome fict\u00edcio), em que\u00a0ela\u00a0relata\u00a0os ass\u00e9dios\u00a0sofridos\u00a0durante a resid\u00eancia.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;No hospital onde eu queria fazer resid\u00eancia, o chefe do pronto-socorro me disse que eles n\u00e3o gostavam de mulher e que eu teria que provar que era capaz de estar ali todos os dias.\u00a0Eu era rec\u00e9m-formada, tinha 24 anos e acabado de fazer a prova para uma das 12 vagas de resid\u00eancia m\u00e9dica em cirurgia geral no hospital mais concorrido da cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Reagi sorrindo ao coment\u00e1rio.\u00a0Achei que\u00a0ele estivesse brincando, mas, ap\u00f3s passar na prova, percebi que as exce\u00e7\u00f5es eram os professores que nos tratavam bem. Vivenciei dois anos de ass\u00e9dios\u00a0morais\u00a0contra as alunas.<\/p>\n<p>Na medicina, h\u00e1 muito ass\u00e9dio\u00a0moral\u00a0e coment\u00e1rios\u00a0sexistas,\u00a0principalmente em \u00e1reas de predom\u00ednio masculino como a cirurgia, a ortopedia e a anestesia. Quando cursei resid\u00eancia m\u00e9dica, a turma estava repleta de alunas e todas \u00e9ramos dedicadas. Mesmo assim, os professores falavam que n\u00e3o gostavam de n\u00f3s porque \u2018mulheres fazem muita fofoca\u2019.<\/p>\n<p>Toda vez que entrava em cirurgia,\u00a0ouvia a mesma piada. Os professores perguntavam se eu queria o pijama cir\u00fargico rosa (a cor da indument\u00e1ria \u00e9 verde).\u00a0E, quando havia uma cirurgia mais complexa, davam prefer\u00eancia aos homens. Se n\u00e3o tivesse um n\u00famero suficiente para todos, n\u00f3s fic\u00e1vamos sem participar. Ao mesmo tempo, por ser brava, falavam que eu era mais \u2018macho\u2019 que muito cirurgi\u00e3o. Valorizavam.<\/p>\n<p>Era pior para as alunas, mas todos os residentes eram assediados diariamente. No primeiro ano, n\u00e3o pod\u00edamos almo\u00e7ar. Se algu\u00e9m nos visse almo\u00e7ando, \u00e9ramos impedidos de operar no dia em quest\u00e3o. A solidariedade vinha dos enfermeiros que nos ofereciam escondido caf\u00e9 e p\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o pod\u00edamos frequentar a lanchonete nem utilizar o elevador, s\u00f3 as escadas. Apesar de haver camas para o descanso, os residentes eram impedidos de us\u00e1-las. Dorm\u00edamos durante os plant\u00f5es de at\u00e9 36 horas em uma sala de materiais. Deit\u00e1vamos sobre um arm\u00e1rio, uma esp\u00e9cie de balc\u00e3o, forrado com um len\u00e7ol. Al\u00e9m disso, \u00e9ramos esculachados na frente dos pacientes ao retificar algum detalhe dito pelos chefes ou residentes mais velhos. Alguns residentes choravam e os pacientes \u00e9 que nos consolavam.<\/p>\n<p>Hoje penso como me submeti a tudo aquilo. Mas era uma cultura enraizada,\u00a0ach\u00e1vamos que\u00a0ser residente era assim e que n\u00e3o havia op\u00e7\u00e3o sen\u00e3o aceitar, mesmo sabendo que estava errado.<\/p>\n<p>Mas as coisas est\u00e3o mudando. H\u00e1 mais informa\u00e7\u00e3o, os alunos n\u00e3o aceitam mais certas situa\u00e7\u00f5es e os m\u00e9dicos t\u00eam tomado consci\u00eancia de que tudo isso est\u00e1 errado.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP &#8220;Do ponto de vista de uma cirurgi\u00e3 e uma das poucas reitoras de escolas de medicina, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4958,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-4957","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4957","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4957"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4957\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4959,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4957\/revisions\/4959"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4958"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4957"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4957"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4957"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}