{"id":4838,"date":"2018-03-14T14:13:02","date_gmt":"2018-03-14T14:13:02","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=4838"},"modified":"2018-03-14T14:13:02","modified_gmt":"2018-03-14T14:13:02","slug":"nem-tudo-o-que-faz-bem-e-bom-sobre-a-oferta-de-praticas-integrativas-no-sus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2018\/03\/nem-tudo-o-que-faz-bem-e-bom-sobre-a-oferta-de-praticas-integrativas-no-sus\/","title":{"rendered":"Nem tudo o que faz bem \u00e9 bom \u2013 sobre a oferta de pr\u00e1ticas integrativas no SUS"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-4839\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/floral-medicine-1738214_1920-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>por Daniel Martins de Barros<\/p>\n<p>Vamos falar sobre as controversas pr\u00e1ticas integrativas oferecidas pelo SUS. Com as novas modalidades inclu\u00eddas essa semana, dentre as quais a aplica\u00e7\u00e3o de \u201cargila misturada com \u00e1gua sobre ferimentos\u201d (geoterapia) e a imposi\u00e7\u00e3o de m\u00e3os para promover \u201ctroca de energia com os pacientes (\u2026) e assim curar mazelas\u201d.<\/p>\n<p>Quando estava pensando como abordar o tema lembrei-me de um epis\u00f3dio de Star Trek, a Nova Gera\u00e7\u00e3o, que assisti em minha adolesc\u00eancia. Ele se chamava Simbiose e contava a hist\u00f3ria de dois planetas que viviam uma estranha rela\u00e7\u00e3o, digamos, simbi\u00f3tica. Um era assolado por uma praga mas seu rem\u00e9dio s\u00f3 era produzido no outro planeta. Como todos os habitantes precisavam do medicamento, o planeta produtor vivia exclusivamente de sua produ\u00e7\u00e3o, recebendo em troca tudo o que precisava \u2013 sua \u00fanica ind\u00fastria era a do medicamento. No entanto a m\u00e9dica da Enterprise descobre que na verdade a praga fora erradicada h\u00e1 muito tempo, e que o rem\u00e9dio causava depend\u00eancia qu\u00edmica. Os sintomas que os habitantes apresentavam na aus\u00eancia da medica\u00e7\u00e3o eram, na verdade, s\u00edndrome de abstin\u00eancia. Infelizmente o capit\u00e3o Jean-Luc Picard n\u00e3o pode interferir naquela situa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a a Primeira Diretriz da Frota Estelar diz que \u201c\u00c9 proibido a todas as naves e membros da Frota Estelar interferir com o desenvolvimento normal de uma cultura ou sociedade\u201d. Mais tarde, por\u00e9m, Picard encontra nessa mesma regra a solu\u00e7\u00e3o. As naves cargueiro que fazem o escambo entre os planetas precisavam de reparos que nenhum dos habitantes sabia realizar; o capit\u00e3o invoca ent\u00e3o a Primeira Diretriz para n\u00e3o consert\u00e1-las, condenando essa simbiose \u00e0 extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que essa hist\u00f3ria toda? Porque nem sempre o que faz as pessoas se sentirem melhor \u00e9 bom para elas. Que a medicina alternativa funciona, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. S\u00f3 depende de como definimos \u201cfunciona\u201d. Se as pessoas n\u00e3o lhes atribu\u00edssem algum valor elas j\u00e1 teriam sido varridas do mapa dada a ululante aus\u00eancia de efic\u00e1cia cl\u00ednica corroborada por evid\u00eancias cient\u00edficas. Quem recorre \u00e0 apiterapia (tratamento com produtos das abelhas) ou \u00e0 homeopatia n\u00e3o quer saber se os cientistas validaram aquelas pr\u00e1ticas. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 mais frequente do que n\u00e3o as pessoas reconhecerem a aus\u00eancia de base cient\u00edfica para tais m\u00e9todos. Elas normalmente est\u00e3o em busca de algo que, sem substituir a medicina cient\u00edfica, lhes d\u00ea algum significado e conforto no momento da doen\u00e7a. Tanto que numa grande pesquisa americana, os fatores que mais levavam algu\u00e9m a buscar terapias complementares era a presen\u00e7a de ansiedade, dores cr\u00f4nicas, em pessoas bem educadas mas com sa\u00fade ruim.<\/p>\n<p>Existem dois grandes problemas aqui. O primeiro tem a ver com os limitados recursos que qualquer governo, em qualquer lugar do mundo, tem para investir em sa\u00fade. Numa realidade em que \u00e9 preciso fazer escolhas sobre o que oferecer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que nunca haver\u00e1 dinheiro para disponibilizar tudo para todos (ao contr\u00e1rio do que sonha o SUS), no momento em que se paga pela fabrica\u00e7\u00e3o de ess\u00eancias para que os pacientes as cheirem e sintam-se melhor (aromaterapia), est\u00e1-se necessariamente deixando de pagar pela fabrica\u00e7\u00e3o de AAS ou insulina para infartados e diab\u00e9ticos adoecerem e morrerem menos. \u00c9 uma quest\u00e3o \u00e9tica.<\/p>\n<p>O segundo \u00e9 que as pessoas se sentirem melhor n\u00e3o \u00e9 um bom par\u00e2metro para de efic\u00e1cia. Um estudo que demonstrou cabalmente isso foi feito com asm\u00e1ticos, comparando a bombinha tradicional com um placebo e falsa acupuntura. Os volunt\u00e1rios relataram melhora na sensa\u00e7\u00e3o de falta de ar perto de 50% com qualquer um dos tratamentos. Mas apenas a bombinha melhorava de fato o fluxo de ar para os pulm\u00f5es, reduzindo o risco de morte. Eu ia dizer que se tratava de um problema t\u00e9cnico, mas no fundo \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o \u00e9tica, como fica evidente. Tratamentos sem efic\u00e1cia comprovada podem levar as pessoas a se sentirem melhor sem trat\u00e1-las de fato. Isso n\u00e3o pode ser considerado \u00e9tico.<\/p>\n<p>Por tudo isso n\u00e3o vou dizer que as pr\u00e1ticas complementares n\u00e3o s\u00e3o \u00fateis, eficazes ou custo-efetivas. Nem preciso chegar a fazer essas an\u00e1lises se sua oferta n\u00e3o passa sequer no crivo mais b\u00e1sico da \u00e9tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP por Daniel Martins de Barros Vamos falar sobre as controversas pr\u00e1ticas integrativas oferecidas pelo SUS. 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