{"id":4808,"date":"2018-03-12T13:39:07","date_gmt":"2018-03-12T13:39:07","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=4808"},"modified":"2018-03-12T13:39:07","modified_gmt":"2018-03-12T13:39:07","slug":"pesquisa-em-saude-publica-nao-e-luxo-e-uma-questao-de-seguranca-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2018\/03\/pesquisa-em-saude-publica-nao-e-luxo-e-uma-questao-de-seguranca-nacional\/","title":{"rendered":"&#8220;Pesquisa em sa\u00fade p\u00fablica n\u00e3o \u00e9 luxo, \u00e9 uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a nacional&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-4809\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/celina_turchi-300x209.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"209\" \/>fonte: El Pa\u00eds Brasil<\/p>\n<p>Uma epidemia mudou a vida da m\u00e9dica e cientista brasileira\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Celina_Turchi\">Celina Turchi<\/a>, pesquisadora da\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cpqam.fiocruz.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Funda\u00e7\u00e3o Osvaldo Cruz<\/a>\u00a0em Pernambuco. Em 2015, a professora aposentada do Instituto de Patologia Tropical e Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade Federal de Goi\u00e1s foi respons\u00e1vel por formar uma rede de pesquisadores de diversas especialidades reunidos no\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cpqam.fiocruz.br\/merg\/\">Grupo de Pesquisa da Epidemia de Microcefalia &#8211; MERG<\/a>\u00a0(M<em>icrocephaly Epidemic Research Group<\/em>), que, em apenas tr\u00eas meses conseguiu identificar como o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/virus_zika\/a\">zika v\u00edrus<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/microcefalia\/a\">microcefalia<\/a>\u00a0estavam relacionados.<\/p>\n<p>A velocidade da resposta \u00e0 crise de sa\u00fade p\u00fablica que tomava o Brasil e amea\u00e7ava outros pa\u00edses fez com que a m\u00e9dica fosse\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/news\/nature-s-10-1.21157\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">reconhecida pela revista cient\u00edfica\u00a0<em>Nature<\/em><\/a>como uma das dez cientistas mais importantes em 2016. A\u00a0<a href=\"http:\/\/time.com\/collection\/2017-time-100\/4742680\/celina-turchi\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">revista norte-americana<\/a>\u00a0<em>Time<\/em>\u00a0tamb\u00e9m listou a pesquisadora em 2017 entre as 100 pessoas mais influentes do mundo.<\/p>\n<p>Dois anos depois, a emerg\u00eancia nacional passou, mas deixou sequelas. Os casos at\u00e9 h\u00e1 pouco classificados como \u201cincomuns ou inesperados\u201d j\u00e1 contam com algum conhecimento cient\u00edfico para serem combatidos. O mais recente\u00a0<a href=\"http:\/\/portalarquivos2.saude.gov.br\/images\/pdf\/2018\/fevereiro\/20\/2018-003-Final.pdf\">Boletim Epidemiol\u00f3gico<\/a>\u00a0do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade mostra que, em 2017, foram confirmados 235 casos de rec\u00e9m nascidos e crian\u00e7as com microcefalia e altera\u00e7\u00f5es no desenvolvimento relacionados \u00e0 infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus zika. N\u00famero muito menor em rela\u00e7\u00e3o aos 1.869 casos de 2016 e aos 967 casos de 2015.<\/p>\n<p>As doen\u00e7as transmitidas por insetos vetores (como zika, dengue, chikungunya e febre amarela) continuam no topo da lista de prioridade da sa\u00fade p\u00fablica. Mas o aparente controle sobre a situa\u00e7\u00e3o mant\u00e9m Celina Turchi em alerta. \u201cNossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que as pessoas se sintam seguras e achem que n\u00e3o vai ocorrer mais\u201d, afirma. Turchi conversou com o EL PA\u00cdS sobre os desafios de fazer pesquisa de epidemias no Brasil. A entrevista com a pesquisadora encerra o especial\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/mujeres_ciencia\/a\/\">Mulheres na Ci\u00eancia<\/a>\u00a0publicada pelo EL PA\u00cdS em homenagem ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/dia_internacional_mujer\/a\">Dia Internacional da Mulher<\/a>.<\/p>\n<p><strong class=\"m-890163730797856187gmail-msolistparagraph\">Pergunta.<\/strong>\u00a0Como avalia as medidas tomadas pelo Governo federal para conter a epidemia de zika?<\/p>\n<p><strong>Resposta.<\/strong>\u00a0O\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/ms_ministerio_saude_brasil\/a\/\">Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/a>, respaldado pela Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica e pelos pesquisadores, foi o primeiro a instituir um estado de emerg\u00eancia, em novembro de 2015, entendendo a gravidade e o desconhecimento sobre o surto de microcefalia. Foi esse alerta que motivou o olhar de outros pa\u00edses e a declara\u00e7\u00e3o posterior de emerg\u00eancia de sa\u00fade p\u00fablica pela\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/oms_organizacion_mundial_salud\/a\">Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade<\/a>. Houve coragem do Brasil de dizer que havia um evento extraordin\u00e1rio e com potencial de ser importante, e houve uma mobiliza\u00e7\u00e3o da comunidade cient\u00edfica<em>.<\/em><\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0O tempo de resposta foi adequado?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Obviamente gostar\u00edamos que acontecesse muito mais r\u00e1pido, mas o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade naquele momento, que tamb\u00e9m era um momento de crise pol\u00edtica, \u00e9poca do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/proceso_destitucion_dilma_rousseff\/a\">impeachment da Dilma<\/a>, tomou as medidas necess\u00e1rias nesse estado de emerg\u00eancia para facilitar o tr\u00e2mite dos projetos, alocar recursos, mobilizar as comunidades. Mas h\u00e1 muito o que ser feito e obviamente medidas setoriais, feitas s\u00f3 pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, s\u00e3o insuficientes para interromper a transmiss\u00e3o de doen\u00e7as que dependem de boa habita\u00e7\u00e3o, limpeza urbana&#8230;onde os efeitos das condi\u00e7\u00f5es de vida inadequada se refletem na possibilidade maior de transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Passada a emerg\u00eancia, j\u00e1 podemos falar que est\u00e1 tudo sob controle?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0O n\u00famero de casos reduziu, o que j\u00e1 era esperado. Tivemos uma primeira onda epid\u00eamica que aparentemente foi muito intensa, e as pessoas infectadas previamente agora est\u00e3o imunes. Mas temos casos mais espor\u00e1dicos de crian\u00e7as com\u00a0<a href=\"http:\/\/www.paho.org\/bra\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=5181:opas-oms-atualiza-caracterizacao-da-sindrome-congenita-do-zika&amp;Itemid=820\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">s\u00edndrome cong\u00eanita do zika<\/a>\u00a0e de adultos com altera\u00e7\u00f5es neurol\u00f3gicas [<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/sindrome_guillain_barre\/a\">S\u00edndrome de Guillain-Barr\u00e9<\/a>]. Isso indica que o v\u00edrus continua circulando no Brasil. Por isso, corremos o risco de ter novos surtos. O monitoramento deve ser mantido. Nossa preocupa\u00e7\u00e3o agora \u00e9 que as pessoas se sintam seguras e acreditem que n\u00e3o ocorrem mais riscos. Temos que ficar em um alerta constante, porque essas doen\u00e7as s\u00e3o sazonais. Um exemplo disso \u00e9 a dengue, que circula a mais de trinta anos com epidemias peri\u00f3dicas.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Quais os maiores desafios hoje?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0O grande desafio do ponto de vista de assist\u00eancia \u00e9 um atendimento adequado n\u00e3o s\u00f3 para a infec\u00e7\u00e3o nas\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/embarazo\/a\">gestantes<\/a>, e o acompanhamento das crian\u00e7as que, se tem s\u00edndrome cong\u00eanita de zika precisam de cuidados multiprofissionais \u2013 neurol\u00f3gicos, ortop\u00e9dicos, g\u00e1stricos, acompanhamento nutricional \u2013, assist\u00eancia e monitoramento. Mas existem a\u00e7\u00f5es que est\u00e3o fora do controle da sa\u00fade, e que dependem muito mais de medidas de redu\u00e7\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/desigualdad_social\/a\">desigualdade social<\/a>\u00a0como melhor moradia, urbaniza\u00e7\u00e3o, acesso pronto \u00e0 \u00e1gua adequada. S\u00e3o quest\u00f5es do ponto de vista populacional, da sa\u00fade das cidades de uma forma geral, onde o desafio \u00e9 possibilitar que a transmiss\u00e3o seja interrompida de forma permanente, seja atrav\u00e9s do melhor controle vetorial [uso de parasitas, pat\u00f3genos ou predadores naturais para o controle de popula\u00e7\u00f5es transmissoras, como o mosquito\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Aedes_aegypti\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>aedes aegypti<\/em><\/a>], seja no desenvolvimento de alguma vacina que possa em curto prazo dar uma imunidade duradoura para a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Em que p\u00e9 estamos para a produ\u00e7\u00e3o de uma vacina contra o zika?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0H\u00e1 interesse internacional nessa vacina. Sou otimista de que teremos a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/vacunas\/a\">vacina<\/a>em m\u00e9dio prazo, mesmo sabendo que ela tem que ser testada em laborat\u00f3rios e na popula\u00e7\u00e3o. Por isso fa\u00e7o um apelo aos gestores p\u00fablicos para que os recursos nessa \u00e1rea sejam mantidos ou aumentados.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Enquanto a vacina n\u00e3o vem, o que \u00e9 poss\u00edvel fazer na pr\u00e1tica?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Duas \u00e1rea que me parecem fundamentais. Primeiramente, pensar em um sistema de vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica para arboviroses [doen\u00e7as transmitidas por insetos vetores] de forma mais \u00e1gil e usando ferramentas mais modernas para captar o n\u00famero de casos, como as\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/redes_sociales\/a\">m\u00eddias sociais<\/a>. Outra medida \u00e9 investir na manuten\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de recursos humanos em pesquisa. Sem a forma\u00e7\u00e3o de novos pesquisadores, as respostas aos problemas e \u00e0s perguntas na \u00e1rea da sa\u00fade ficam inviabilizadas. Esse \u00e9 um investimento para garantir que a na\u00e7\u00e3o seja aut\u00f4noma em rela\u00e7\u00e3o a investiga\u00e7\u00f5es de epidemias.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Como est\u00e3o os recursos para manter pesquisas e o monitoramento da zika em meio a crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Houve um esfor\u00e7o inicial de se colocar recursos em zika ou pelo menos nessas prioridades de sa\u00fade publica. Mas h\u00e1 uma sinaliza\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o de recursos. Por isso \u00e9 important\u00edssimo ressaltar que os recursos em pesquisa na \u00e1rea de emerg\u00eancia em sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 mais do que recursos para o conhecimento, \u00e9 uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a nacional, de seguran\u00e7a das popula\u00e7\u00f5es. Esse \u00e9 um tipo de investimento que n\u00e3o pode ser cortado ou minimizado. Ele tem que ser mantido e ampliado. Pesquisa n\u00e3o \u00e9 luxo, \u00e9 necessidade e nessa \u00e1rea \u00e9 uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a nacional. Hoje compreendemos a epidemia de zika como grande trag\u00e9dia social, mas tamb\u00e9m como uma oportunidade para os grupos de pesquisa colaborassem entre si e fizessem grandes cons\u00f3rcios para poder entender e possibilitar que medidas de preven\u00e7\u00e3o e controle fossem adotadas de forma \u00e1gil. O pa\u00eds tem que estar preparado para eventos emergenciais e s\u00f3 atrav\u00e9s da pesquisa que se mant\u00e9m grupos competentes que podem dar resposta em curto prazo.<\/p>\n<p><strong>P.<\/strong>\u00a0Recentemente, v\u00e1rias cidades foram pegas de surpresa com a expans\u00e3o da febre amarela, especialmente com o ressurgimento da transmiss\u00e3o urbana. Onde erramos?<\/p>\n<p><strong>R.<\/strong>\u00a0Os cientistas n\u00e3o foram pegos de surpresa, havia muita preocupa\u00e7\u00e3o com a expans\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/fiebre_amarilla\/a\">febre amarela<\/a>\u00a0e da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/tag\/malaria\/a\">mal\u00e1ria<\/a>. O homem vai invadindo a floresta de forma desordenada, e essas doen\u00e7as ficam mais propensas para transmiss\u00e3o urbana. A grande vantagem \u00e9 que tem h\u00e1 vacina contra febre amarela e o Brasil n\u00e3o s\u00f3 fabrica essa vacina como tem grande experi\u00eancia em vacina\u00e7\u00e3o em massa. Nas \u00e1reas de risco, Centro Oeste e Amaz\u00f4nia legal, j\u00e1 temos vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria. Mas temos que lembrar da complexidade em que vivemos. Estamos numa situa\u00e7\u00e3o com mobilidade populacional intensiva em \u00e1reas de interface entre urbano, rural e parques, o que facilita a expans\u00e3o de vetores. O desafio\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/26\/politica\/1516966136_238551.html\">\u00e9 ter cidades ou megacidades que n\u00e3o tenham tanta desigualdade<\/a>\u00a0e com um sistema de seguran\u00e7a para monitorar os v\u00edrus conhecidos e outros que ainda n\u00e3o conhecemos e que podem, eventualmente, montar um pano de fundo para outras epidemias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: El Pa\u00eds Brasil Uma epidemia mudou a vida da m\u00e9dica e cientista brasileira\u00a0Celina Turchi, pesquisadora da\u00a0Funda\u00e7\u00e3o Osvaldo Cruz\u00a0em Pernambuco. 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