{"id":4612,"date":"2018-01-22T13:15:25","date_gmt":"2018-01-22T13:15:25","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=4612"},"modified":"2019-02-21T10:16:45","modified_gmt":"2019-02-21T10:16:45","slug":"um-tiro-no-pe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2018\/01\/um-tiro-no-pe\/","title":{"rendered":"Um tiro no p\u00e9"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-4613\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/escola_medica-300x145.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"145\" \/>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p><b>por RAUL CUTAIT<\/b>, professor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP, \u00e9 cirurgi\u00e3o do Hospital S\u00edrio-Liban\u00eas e membro da Academia Nacional de Medicina<\/p>\n<p>O que vem acontecendo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 abertura indiscriminada de escolas m\u00e9dicas pelo pa\u00eds afora \u00e9 um verdadeiro tiro no p\u00e9 no futuro das aten\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas. Estamos com 304 faculdades de medicina em funcionamento ou autorizadas, sendo que 102 delas foram liberadas a partir de 2013.<\/p>\n<p>O argumento de que faltam m\u00e9dicos no Brasil \u00e9 falacioso, uma vez que em alguns poucos anos estar\u00e3o se formando ao redor de 30 mil m\u00e9dicos por ano, o que dar\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de 14 m\u00e9dicos por 100 mil habitantes, quase o dobro da dos Estados Unidos e mais do que o dobro da taxa do Jap\u00e3o!<\/p>\n<p>Para completar o cen\u00e1rio, ocorre uma m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos pelo Brasil afora, fruto de um mercado de trabalho assim\u00e9trico, uma vez que, ap\u00f3s muitos anos de estudo, poucos optam por trabalhar em locais carentes de recursos, com sal\u00e1rios n\u00e3o estimulantes, sem maiores perspectivas de crescimento profissional e onde ter\u00e3o dificuldades para educar seus filhos.<\/p>\n<p>Estender as aten\u00e7\u00f5es de sa\u00fade a toda a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente correto, mas n\u00e3o \u00e9 aumentando a esmo o n\u00famero de m\u00e9dicos que se resolver\u00e1 esse problema. Na verdade, est\u00e1 se criando um problema muito maior, que \u00e9 o de se colocar no mercado profissionais mal preparados.<\/p>\n<p>Explico: medicina n\u00e3o \u00e9 um curso que pode se ensinar apenas com livros e aulas, pelo contr\u00e1rio. \u00c9 preciso estar \u00e0 beira do leito do paciente, n\u00e3o s\u00f3 para o aprendizado t\u00e9cnico, mas para entender o que \u00e9 cuidar de pessoas, algo que n\u00e3o \u00e9 intuitivo, mas que depende de orienta\u00e7\u00e3o e muito de exemplos.<\/p>\n<p>Em outras palavras, um futuro m\u00e9dico precisa aprender na gradua\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas conhecimentos, mas comportamento, a fim de poder desenvolver rela\u00e7\u00f5es m\u00e9dico-paciente de forma apropriada, em benef\u00edcio de seus futuros pacientes.<\/p>\n<p>Dentro dessa vis\u00e3o, est\u00e3o colocadas as duas principais causas de uma cat\u00e1strofe anunciada: n\u00e3o s\u00f3 faltam hospitais-escola para todas essas faculdades rec\u00e9m-criadas, como tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 disponibilidade de professores capacitados; na sequ\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 suficientes programas de resid\u00eancia m\u00e9dica, fundamentais para qualquer \u00e1rea cl\u00ednica ou cir\u00fargica.<\/p>\n<p>Achar que os profissionais locais, mesmo quando competentes, conseguir\u00e3o ser bons professores de gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 quase como acreditar em Papai Noel. Essa situa\u00e7\u00e3o estimula, portanto, a figura do professor itinerante, algo cab\u00edvel em cadeiras b\u00e1sicas, mas absolutamente indesej\u00e1vel na \u00e1rea cl\u00ednica, onde os professores precisam no dia a dia viver os casos ao lado de seus alunos, serem seus mentores.<\/p>\n<p>A entrada de m\u00e9dicos mal preparados no mercado de trabalho levar\u00e1 a um rebaixamento da qualidade do atendimento, hoje j\u00e1 question\u00e1vel em in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es, fora o custo do atendimento de complica\u00e7\u00f5es evit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Os erros por imper\u00edcia que esses m\u00e9dicos mal formados cometer\u00e3o dever\u00e3o ser imputados exclusivamente a eles ou o governo deve arcar com sua parcela de culpa por permitir que estes se formem em faculdades pouco categorizadas?<\/p>\n<p>E como ficam os que pagam alguns milhares de reais de mensalidade, muitas vezes \u00e0 custa de enormes sacrif\u00edcios de suas fam\u00edlias (cerca de 60% das faculdades abertas nos \u00faltimos anos s\u00e3o privadas)?<\/p>\n<p>O exame para o exerc\u00edcio da medicina, \u00e0 semelhan\u00e7a do que pratica a OAB, \u00e9 uma alternativa, mas ser\u00e1 justo deixar jovens na fase de seu maior idealismo serem enganados por escolas m\u00e9dicas sem compet\u00eancia para form\u00e1-los?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/monicabergamo\/2017\/11\/1936021-temer-proibira-abertura-de-novos-cursos-de-medicina.shtml\">A proposta de morat\u00f3ria do atual governo<\/a>, num esfor\u00e7o do ministro Mendon\u00e7a Filho (DEM) com o apoio das principais entidades m\u00e9dicas, \u00e9 alentadora.<\/p>\n<p>Dar\u00e1 tempo para que se defina o que fazer do ensino m\u00e9dico no Brasil, criando-se oportunidade \u00fanica para a cria\u00e7\u00e3o e implanta\u00e7\u00e3o de crit\u00e9rios eficazes n\u00e3o para coibir novas escolas, mas para que se mantenham s\u00f3 aquelas com compet\u00eancia educacional, \u00e0 semelhan\u00e7a do que aconteceu h\u00e1 um s\u00e9culo nos EUA, a partir do relat\u00f3rio Flexner.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o merece correr riscos desnecess\u00e1rios, e os jovens futuros m\u00e9dicos n\u00e3o merecem ser iludidos. Nossa sociedade s\u00f3 pode agradecer!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP por RAUL CUTAIT, professor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP, \u00e9 cirurgi\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,2],"tags":[],"class_list":["post-4612","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4612","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4612"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4612\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4614,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4612\/revisions\/4614"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}