{"id":4444,"date":"2017-11-14T11:07:55","date_gmt":"2017-11-14T11:07:55","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=4444"},"modified":"2017-11-14T11:07:55","modified_gmt":"2017-11-14T11:07:55","slug":"sintoma-de-atraso-tropical-no-seculo-20-febre-amarela-volta-por-desatencao-com-licoes-da-historia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2017\/11\/sintoma-de-atraso-tropical-no-seculo-20-febre-amarela-volta-por-desatencao-com-licoes-da-historia-2\/","title":{"rendered":"Sintoma de &#8216;atraso tropical&#8217; no s\u00e9culo 20, febre amarela volta por desaten\u00e7\u00e3o com li\u00e7\u00f5es da Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_4445\" aria-describedby=\"caption-attachment-4445\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-4445\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/febre_amarela-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-4445\" class=\"wp-caption-text\">Campanha sanit\u00e1ria no in\u00edcio do s\u00e9culo 20 foi comandada por Oswaldo Cruz, que recebeu pr\u00eamio em Berlim pela sua atua\u00e7\u00e3o | Acervo Casa de Oswaldo Cruz<\/figcaption><\/figure>\n<p>fonte: BBC Brasil<\/p>\n<p class=\"story-body__introduction\">A febre amarela que, que voltou a amea\u00e7ar \u00e1reas urbanas no Brasil neste ano, foi um dos principais desafios de sa\u00fade p\u00fablica do Brasil da virada do s\u00e9culo 19 para o 20. Eliminar a doen\u00e7a das cidades era condi\u00e7\u00e3o essencial para abrir os portos ao com\u00e9rcio mar\u00edtimo e a imigrantes estrangeiros e propagar a imagem de um pa\u00eds &#8220;moderno&#8221;.<\/p>\n<p>As li\u00e7\u00f5es deixadas por d\u00e9cadas de esfor\u00e7os para erradicar a doen\u00e7a e seu vetor, entretanto, foram ignoradas por governos recentes, dizem historiadores ouvidos pela BBC Brasil.<\/p>\n<p>Ao longo do s\u00e9culo 20, o combate \u00e0 febre amarela impulsionou a pesquisa cient\u00edfica e o desenvolvimento de vacinas no Brasil e incluiu cap\u00edtulos vitoriosos como a gradual elimina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a de \u00e1reas urbanas e a erradica\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>.<\/p>\n<p>A \u00faltima epidemia urbana no pa\u00eds foi registrada em 1942, no Acre. Na mesma d\u00e9cada, uma grande campanha regional capitaneada pela Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana de Sa\u00fade come\u00e7ou a mobilizar governos na Am\u00e9rica Latina para se unir na luta contra o vetor &#8211; e declarou, em 1958, ter conseguido livrar onze pa\u00edses do\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>, inclusive o Brasil. Em 1967, o mosquito reapareceu no Par\u00e1 e reconquistou, gradualmente, o territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo, epidemias de febre amarela eram constantes em grandes capitais portu\u00e1rias da Am\u00e9rica Latina &#8211; como Rio, Buenos Aires e Havana.<\/p>\n<p>Os surtos no Brasil, associados a males como var\u00edola, mal\u00e1ria, tuberculose e peste bub\u00f4nica &#8211; deram ao pa\u00eds a alcunha de &#8220;t\u00famulo dos estrangeiros&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A febre amarela atingia sobretudo os rec\u00e9m-chegados. Acreditava-se que os aclimatados ganhavam algum tipo de imunidade&#8221;, conta o historiador Jaime Benchimol, pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz) e especialista na turbulenta hist\u00f3ria da vacina contra a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A m\u00e1 fama era justificada por epis\u00f3dios como o tenebroso destino do navio italiano Lombardia. Em 1895, quase todos os embarcados que chegaram ao Rio morreram de febre amarela &#8211; e uma nova tripula\u00e7\u00e3o teve que ser enviada da It\u00e1lia para resgatar a embarca\u00e7\u00e3o no porto.<\/p>\n<p><strong>No Rio, \u00faltimo surto urbano h\u00e1 88 anos<\/strong><\/p>\n<p>Benchimol conta que a primeira grande epidemia no Rio ocorreu entre 1849 e 1850, e atingiu 90 mil pessoas de uma popula\u00e7\u00e3o ent\u00e3o de 266 mil. Segundo dados da \u00e9poca, 4.160 morreram; segundo estimativas n\u00e3o oficiais, foram 15 mil mortos.<\/p>\n<p>&#8220;Naqueles tempos, todo mundo conhecia algu\u00e9m que tinha morrido de febre amarela, n\u00e3o importava a classe social&#8221;, conta o historiador.<\/p>\n<p>A \u00faltima epidemia de febre amarela no Rio foi entre 1928 e 1929, quando um surto inesperado na cidade e em 43 localidades do Estado deixou 436 mortes.<\/p>\n<p>Foi um choque para a popula\u00e7\u00e3o e a comunidade cient\u00edfica. Acreditava-se que a cidade tinha se livrado da doen\u00e7a em 1907, ap\u00f3s as campanhas bem-sucedidas de Oswaldo Cruz.<\/p>\n<p><strong>&#8216;S\u00edmbolo de atraso&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, vencer a doen\u00e7a e outros males &#8220;tropicais&#8221; eram condi\u00e7\u00e3o para catapultar \u00e0 modernidade um Brasil que havia rec\u00e9m abolido a escravid\u00e3o e ainda era uma jovem rep\u00fablica.<\/p>\n<p>&#8220;As doen\u00e7as tropicais eram um s\u00edmbolo de atraso, a prova de que o Brasil n\u00e3o conseguia controlar suas epidemias&#8221;, afirma a historiadora da ci\u00eancia Ilana L\u00f6wy, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisa M\u00e9dica e de Sa\u00fade, na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Eliminar a febre amarela era necess\u00e1rio para que o pa\u00eds pudesse se abrir para fora, se abrir para o com\u00e9rcio, imigrantes e turistas&#8221;, diz L\u00f6wy, que \u00e9 polonesa e est\u00e1 no Rio como pesquisadora visitante da Fiocruz. Ela \u00e9 autora do livro\u00a0<i>V\u00edrus, mosquitos e modernidade. A febre amarela no Brasil entre ci\u00eancia e pol\u00edtica<\/i>(Fiocruz, 2006).<\/p>\n<p>Em muitos momentos, diz L\u00f6wy, o esfor\u00e7o foi uma quest\u00e3o pol\u00edtica. Impulsionou o com\u00e9rcio externo, a pol\u00edtica interna (na esteira do avan\u00e7o das campanhas de saneamento pelo territ\u00f3rio nacional) e foi uma porta de entrada para a influ\u00eancia norte-americana, atrav\u00e9s do papel central no combate \u00e0 doen\u00e7a exercido pela Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller.<\/p>\n<p>No projeto modernizador do presidente Rodrigues Alves (1902-1906), o arquiteto e urbanista Pereira Passos foi nomeado prefeito do Rio com a miss\u00e3o de &#8220;consertar os defeitos da capital que afetam e perturbam todo o desenvolvimento nacional&#8221;, nas palavras do ent\u00e3o presidente; e o m\u00e9dico e sanitarista Oswaldo Cruz recebeu a miss\u00e3o de sanear o Rio &#8211; o que implicava combater as tr\u00eas maiores amea\u00e7as na \u00e9poca, a febre amarela, a var\u00edola e a peste bub\u00f4nica.<\/p>\n<p><strong>Ca\u00e7a a ratos e mosquitos<\/strong><\/p>\n<p>Cruz virou um her\u00f3i nacional ao conseguir cumprir sua miss\u00e3o em poucos anos, implementando a campanha de vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria contra var\u00edola &#8211; que causou, em 1904, a Revolta da Vacina &#8211; e combatendo os vetores da peste bub\u00f4nica e da febre amarela &#8211; respectivamente, ratos e mosquitos.<\/p>\n<p>Em 1907, recebia a medalha de ouro na premia\u00e7\u00e3o do Congresso de Higiene e Demografia de Berlim, na Alemanha, pelos feitos no combate a doen\u00e7as no Rio.<\/p>\n<p>&#8220;A conquista de Oswaldo Cruz foi importante porque mudou a percep\u00e7\u00e3o do Rio no exterior&#8221;, diz o historiador Marcos Cueto, da Casa de Oswaldo Cruz.<\/p>\n<p>&#8220;A cidade come\u00e7ou a ser percebida como um lugar seguro para o com\u00e9rcio mar\u00edtimo, que era o motor da economia mundial. Come\u00e7ou a se criar a percep\u00e7\u00e3o de que um pa\u00eds tropical podia ter boa sa\u00fade p\u00fablica, o que at\u00e9 ent\u00e3o parecia imposs\u00edvel&#8221;, ressalta Cueto, editor cient\u00edfico da revista\u00a0<i>Hist\u00f3ria, Ci\u00eancias, Sa\u00fade &#8211; Manguinhos<\/i>.<\/p>\n<p>&#8220;Pouco depois, o presidente (norte-americano) Theodore Roosevelt visitou o Rio e a Fiocruz. Era uma demonstra\u00e7\u00e3o de que aqui era um lugar seguro para o com\u00e9rcio.&#8221;<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, navios que sa\u00edssem da capital tinham que cumprir quarentena antes de voltar para seus destinos para evitar que doen\u00e7as como a febre amarela se alastrassem.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a contribuiu para atrair mais imigrantes ao pa\u00eds. Naquele tempo, quem vinha para a &#8220;Am\u00e9rica&#8221; ainda ficava dividido entre Brasil, Argentina e Estados Unidos, lembra Cueto, j\u00e1 que as situa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas ainda estavam bem distantes das que se consolidaram ao longo do s\u00e9culo.<\/p>\n<p><strong>Senha de entrada para os EUA<\/strong><\/p>\n<p>Mas o poderio dos EUA crescia, e a maior fortuna petroleira do mundo, da fam\u00edlia Rockefeller, criou, no come\u00e7o do s\u00e9culo 20, seu bra\u00e7o filantr\u00f3pico, a Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller. Em 1918, o grupo lan\u00e7ou uma campanha internacional de erradica\u00e7\u00e3o da febre amarela, que teve atua\u00e7\u00e3o decisiva no Brasil &#8211; e, a partir da era Vargas, desfrutou de autonomia para gerenciar as atividades de combate \u00e0 febre amarela no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A ambiciosa meta da funda\u00e7\u00e3o era eliminar a doen\u00e7a nas Am\u00e9ricas e, depois, na \u00c1frica, conta o historiador Rodrigo Cesar da Silva Magalh\u00e3es, que estudou a atua\u00e7\u00e3o da Rockefeller no Brasil em sua tese de doutorado, transformada no livro\u00a0<i>A erradica\u00e7\u00e3o do Aedes aegypti &#8211; Febre amarela, Fred Soper e sa\u00fade p\u00fablica nas Am\u00e9ricas (1918-1968)<\/i>\u00a0(Fiocruz, 2016).<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, ainda se acreditava que a doen\u00e7a se originara no continente americano e depois chegara \u00e0 \u00c1frica. S\u00f3 depois se chegou ao consenso de que o trajeto fora o contr\u00e1rio, e que o tr\u00e1fico de escravos havia levado o\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>\u00a0e a febre amarela para o continente americano.<\/p>\n<p>Magalh\u00e3es conta que, em 1923, quando um primeiro acordo de coopera\u00e7\u00e3o foi assinado entre a Rockefeller e o governo brasileiro, os m\u00e9dicos brasileiros viram a chegada dos t\u00e9cnicos americanos com desconfian\u00e7a. &#8220;H\u00e1 uma resist\u00eancia. Eles reagem se perguntando, &#8216;quem s\u00e3o esses caras que querem chegar para nos ensinar, se a gente teve Oswaldo Cruz?&#8217; Mas quando veem a chance de implementar um programa nacional, come\u00e7am a cooperar&#8221;, relata Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>A partir dos anos 1930, a Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller cresceu em poder e import\u00e2ncia no Brasil, desfrutando de rela\u00e7\u00f5es mutuamente ben\u00e9ficas com o governo de Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>&#8220;Vargas usa a funda\u00e7\u00e3o para consolidar seu poder em territ\u00f3rio nacional, e a funda\u00e7\u00e3o v\u00ea nas suas boas rela\u00e7\u00f5es com o governo a chance de consolidar uma campanha sanit\u00e1ria a n\u00edvel nacional&#8221;, explica Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p>O governo Vargas aproveitou as frentes abertas pela campanha sanitarista &#8211; com times de inspetores atuando nas cidades para combater o\u00a0<i>Aedes<\/i>\u00a0e buscando alian\u00e7as com lideran\u00e7as locais &#8211; para fortalecer a presen\u00e7a do Estado pa\u00eds afora.<\/p>\n<p>&#8220;A sa\u00fade pavimentou o caminho para o Estado varguista exercer sua autoridade nos mais long\u00ednquos rinc\u00f5es do Brasil&#8221;, ressalta Magalh\u00e3es.<\/p>\n<p><strong>Cobaias humanas e erros de percurso<\/strong><\/p>\n<p>A primeira metade do s\u00e9culo 20 v\u00ea uma s\u00e9rie de avan\u00e7os no conhecimento sobre a febre amarela. Em 1900, finalmente se comprovou o que o epidemiologista cubano Carlos Finlay j\u00e1 defendia havia 20 anos: a febre amarela \u00e9 transmitida por mosquitos. Em Havana, iniciou-se a primeira campanha de combate \u00e0 doen\u00e7a pelo ataque ao vetor, que seria reproduzida no Rio por Oswaldo Cruz.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 1930, descobriu-se que homens e mosquitos n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos que carregam o v\u00edrus; estes tamb\u00e9m vivem, na forma silvestre da doen\u00e7a, em diversas esp\u00e9cies de macacos, seu hospedeiro natural nas florestas. Assim, mesmo quando eliminada das cidades, a doen\u00e7a tem &#8220;reservat\u00f3rios naturais&#8221; de v\u00edrus na selva, e nunca poderia ser erradicada totalmente.<\/p>\n<p>Em 1937, depois de anos de pesquisas e incont\u00e1veis testes com diferentes cepas do v\u00edrus da febre amarela, finalmente \u00e9 descoberta uma vacina.<\/p>\n<p>Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz e da Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller chegaram a uma vers\u00e3o considerada adequada \u00e0 imuniza\u00e7\u00e3o de grandes contingentes populacionais, e a vacina come\u00e7ou a ser produzida em larga escala no campus do Instituto Oswaldo Cruz.<\/p>\n<p>Logo se procedeu \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o em massa em \u00e1reas rurais de Minas Gerais e na cidade do Rio de Janeiro &#8211; embora a vacina ainda estivesse &#8220;em fase de observa\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia&#8221;, como afirmou \u00e0 \u00e9poca o influente chefe do escrit\u00f3rio da Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller para a Am\u00e9rica do Sul, Fred Soper.<\/p>\n<p>No livro\u00a0<i>Febre amarela, a doen\u00e7a e a vacina &#8211; uma hist\u00f3ria inacabada<\/i>, o historiador Jaime Benchimol lembra que a pressa gerou protestos.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, o renomado entomologista \u00c2ngelo Moreira da Costa Lima, do Instituto Oswaldo Cruz, acusou a Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller de estar usando o povo brasileiro como &#8220;cobaia de grave comprova\u00e7\u00e3o experimental&#8221;, enquanto nos EUA a decis\u00e3o fora de protelar o in\u00edcio da vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Tais acusa\u00e7\u00f5es tiveram pouco eco, mas pelos padr\u00f5es de hoje a vacina\u00e7\u00e3o jamais teria acontecido (com essa velocidade). Eles chegaram \u00e0 vacina em 1937 e come\u00e7aram a aplicar em contingentes consider\u00e1veis de gente. Foram afoitos&#8221;, considera o historiador.<\/p>\n<p><strong>Hepatite B em massa<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos seguintes, come\u00e7aram a aparecer complica\u00e7\u00f5es. Parte da popula\u00e7\u00e3o vacinada apresentou um surto de icter\u00edcia, que na verdade sinalizava infec\u00e7\u00e3o por hepatite B. Em 1940, foram identificados mil casos entre Rio e Esp\u00edrito Santo, e 22 mortes. No ano seguinte, tamb\u00e9m foram registrados casos de encefalite como efeito colateral da vacina.<\/p>\n<p>Pesquisadores chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que a icter\u00edcia era ocasionada pelo uso de soro humano para fabricar as vacinas, o que foi interrompido. O soro estaria transmitindo um agente patog\u00eanico ainda desconhecido &#8211; e que mais tarde seria identificado como hepatite B.<\/p>\n<p>O problema foi superado na fabrica\u00e7\u00e3o brasileira, mas foi nos EUA que teve consequ\u00eancias mais graves. O laborat\u00f3rio central da Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller em Nova York seguiu com o uso de soro humano, para n\u00e3o retardar, em plena Segunda Guerra Mundial, a produ\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de vacinas.<\/p>\n<p>Em 1942, rec\u00e9m-entrados na guerra e temendo um ataque biol\u00f3gico do Jap\u00e3o, os EUA decidiram vacinar todos os seus soldados. Meses depois, 28 mil casos de icter\u00edcia foram identificados entre eles, resultando em 62 mortes.<\/p>\n<p>De acordo com Benchimol, estudos realizados anos mais tarde com veteranos estimaram que a vacina\u00e7\u00e3o contra febre amarela tenha levado a 330 mil casos de hepatite B no Ex\u00e9rcito americano.<\/p>\n<p>&#8220;Assim se produziu a maior epidemia de hepatite B na hist\u00f3ria&#8221;, diz o historiador.<\/p>\n<p><strong>&#8216;Testemunho do fracasso&#8217;<\/strong><\/p>\n<p>Jaime Benchimol lembra a experi\u00eancia bem sucedida no combate ao\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>\u00a0no passado e critica a falta de uma pol\u00edtica s\u00e9ria de combate ao vetor. Para ele, o foco na vacina n\u00e3o basta como estrat\u00e9gia de controle.<\/p>\n<p>&#8220;Essa tentativa atabalhoada de vacinar todo mundo \u00e9 o que se pode fazer agora, mas \u00e9 o testemunho do fracasso, da incompet\u00eancia deste governo e dos anteriores de lidar com essa quest\u00e3o&#8221;, considera.<\/p>\n<p>O historiador Rodrigo Cesar de Silva Magalh\u00e3es diz que a estrat\u00e9gia de associar a vacina\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas rurais ao combate &#8220;sem tr\u00e9gua&#8221; ao\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>\u00a0nas cidades havia sido respons\u00e1vel pelos maiores sucessos nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>&#8220;Esse bin\u00f4mio foi irresponsavelmente abandonado pelos \u00faltimos governos, e \u00e9 por isso que estamos vivendo esse cen\u00e1rio epid\u00eamico&#8221;, critica.<\/p>\n<p>Para o historiador Marcos Cueto, houve uma &#8220;complac\u00eancia&#8221; das autoridades pol\u00edticas e sanit\u00e1rias no controle ao\u00a0<i>Aedes aegypti<\/i>.<\/p>\n<p>&#8220;Na segunda metade do s\u00e9culo 20, as cidades da Am\u00e9rica Latina tiveram crescimento muito mais r\u00e1pido que sua infraestrutura sanit\u00e1ria&#8221;, diz Cueto. &#8220;O resultados s\u00e3o cidades sem \u00e1gua encanada e esgoto, com as condi\u00e7\u00f5es ideais para criar o mosquito.&#8221;<\/p>\n<p>Os jornais, afirma, gostam de estampar em suas p\u00e1ginas fotos do mosquito ampliado como um &#8220;Godzilla&#8221;, como se fosse o \u00fanico algoz.<\/p>\n<p>&#8220;Isso reduz o problema e n\u00e3o leva em conta aspectos sociais e humanit\u00e1rios. O grande problema \u00e9 ignorar a necessidade de investir nas defici\u00eancias de esgoto e \u00e1gua nas \u00e1reas urbanas&#8221;, ressalta.<\/p>\n<p>O problema pode ser visto em toda parte, a olho nu &#8211; mesmo \u00e0s portas da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, o principal centro de pesquisas epidemiol\u00f3gicas do Brasil. A pesquisadora visitante Ilana L\u00f6wy chama aten\u00e7\u00e3o para os canais de \u00e1gua parada, sem saneamento, logo ao lado da entrada, na favela de Manguinhos.<\/p>\n<p>&#8220;Enquanto n\u00e3o se resolver a quest\u00e3o do saneamento, os mosquitos n\u00e3o v\u00e3o para lugar nenhum&#8221;, lembra L\u00f6wy.<\/p>\n<p>&#8220;Vi que o governo espalhou muitos slogans por a\u00ed dizendo que um mosquito n\u00e3o \u00e9 mais forte que um pa\u00eds. Ficou bonito&#8221;, considera a historiadora. &#8220;Mas n\u00e3o acho que os mosquitos v\u00e3o se impressionar muito.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: BBC Brasil A febre amarela que, que voltou a amea\u00e7ar \u00e1reas urbanas no Brasil neste ano, foi um dos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-4444","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4444","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4444"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4444\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4446,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4444\/revisions\/4446"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4444"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4444"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4444"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}