{"id":4330,"date":"2017-10-22T09:19:34","date_gmt":"2017-10-22T09:19:34","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=4330"},"modified":"2017-10-22T09:19:34","modified_gmt":"2017-10-22T09:19:34","slug":"violencia-fez-metade-das-unidades-municipais-de-saude-do-rio-suspender-atendimentos-este-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2017\/10\/violencia-fez-metade-das-unidades-municipais-de-saude-do-rio-suspender-atendimentos-este-ano\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia fez metade das unidades municipais de sa\u00fade do Rio suspender atendimentos este ano"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-4331\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/violencia-300x180.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"180\" \/>fonte: O Globo<\/p>\n<p>A m\u00e9dica M. atendia um menino de 10 anos em uma Cl\u00ednica da Fam\u00edlia no Complexo da Mar\u00e9, na Zona Norte, quando rajadas de tiros foram dadas na dire\u00e7\u00e3o da unidade \u2014 um caveir\u00e3o da PM estava parado em frente ao local. Ela se jogou ao ch\u00e3o com o garoto, que n\u00e3o parava de chorar. Enquanto tentava acalm\u00e1-lo, M. se tocou que o pequeno paciente tinha a mesma idade de seu filho e o abra\u00e7ou. E, em meio \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de desespero, uma bala de fuzil caiu a poucos cent\u00edmetros dos dois.<\/p>\n<p>Foi o segundo tiroteio enfrentado pela m\u00e9dica na cl\u00ednica, onde trabalha h\u00e1 apenas oito meses. Acabou testemunhando mais dois. No in\u00edcio do ano, quando acertou sua ida para a unidade, um funcion\u00e1rio da Secretaria municipal de Sa\u00fade lhe disse: \u201cFique tranquila, \u00e9 um lugar seguro\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Tive, com aquele menino, uma experi\u00eancia que nunca vou esquecer. Quando parei o carro no meu pr\u00e9dio, n\u00e3o consegui sair. Fiquei meia hora na garagem, paralisada \u2014 recordou M.<\/p>\n<p>M\u00e9dicos e enfermeiros que falaram com o GLOBO sob condi\u00e7\u00e3o de anonimato disseram que trabalhar em \u00e1reas conflagradas exige mais que compet\u00eancia e dedica\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso ter, acima de tudo, coragem. Buscar ref\u00fagio e proteger pacientes durante confrontos virou uma rotina em v\u00e1rias comunidades. A prefeitura estima que, de janeiro a setembro deste ano, metade das 231 unidades de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, como Cl\u00ednicas da Fam\u00edlia e Centros Municipais de Sa\u00fade, teve que suspender o atendimento por causa da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Essas paralisa\u00e7\u00f5es, que aconteceram em 115 unidades, muitas vezes foram parciais, breves, por\u00e9m houve situa\u00e7\u00f5es graves. Em alguns casos, funcion\u00e1rios tiveram de cumprir a dif\u00edcil tarefa de dispensar doentes e fechar as portas. Foi o que aconteceu na Cl\u00ednica da Fam\u00edlia da Vila do Pinheiro, na Mar\u00e9, perfurada por tiros durante um confronto entre policiais e traficantes no dia 26 de setembro. No domingo passado, uma UPA da mesma regi\u00e3o foi invadida por dezenas de bandidos, que buscavam atendimento a um criminoso baleado.<\/p>\n<p>Alegando motivos de seguran\u00e7a, a Secretaria municipal de Sa\u00fade n\u00e3o divulga os nomes e a localiza\u00e7\u00e3o das unidades atingidas pela viol\u00eancia. O \u00f3rg\u00e3o diz apenas que, contabilizado o tempo de servi\u00e7os suspensos, a unidade mais afetada por tiroteios passou o equivalente a um m\u00eas de portas fechadas. Foram, ao todo, 34 dias de atendimento paralisado.<\/p>\n<p>As Cl\u00ednicas da Fam\u00edlia s\u00f3 funcionam em hor\u00e1rio integral de segunda a sexta-feira. Aos s\u00e1bados, seus funcion\u00e1rios trabalham em meio expediente. A unidade que ficou em segundo lugar no ranking da viol\u00eancia fechou 30 vezes ao longo de nove meses. Quando isso acontece, significa que o n\u00edvel de inseguran\u00e7a chegou ao ponto mais cr\u00edtico. A classifica\u00e7\u00e3o \u201cvermelha\u201d \u00e9 a mais extrema de tr\u00eas padr\u00f5es de risco. A \u201camarela\u201d indica que h\u00e1 tiros ou opera\u00e7\u00e3o nos arredores, j\u00e1 a \u201cverde\u201dsinaliza que \u00e9 poss\u00edvel funcionar normalmente, inclusive com atividades externas.<\/p>\n<p>Levando em conta as classifica\u00e7\u00f5es \u201cvermelha\u201d e \u201camarela\u201d, houve uma unidade que chegou a fazer notifica\u00e7\u00f5es desses dois padr\u00f5es de risco 179 vezes este ano. A segunda colocada nesse ranking foi afetada em 105 ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>De olho em aplicativo<\/strong><\/p>\n<p>Na cl\u00ednica em que M. trabalha, a sala de acolhimento agora funciona num audit\u00f3rio. M\u00e9dicos e enfermeiros chegaram \u00e0 conclus\u00e3o que o espa\u00e7o original era muito vulner\u00e1vel \u2014 uma bala atingiu a poltrona de uma funcion\u00e1ria alguns segundos depois de ela ter sa\u00eddo dali.<\/p>\n<p>\u2014 Uma bala de rev\u00f3lver \u00e9 capaz de cruzar a cl\u00ednica de ponta a ponta. A estrutura n\u00e3o suporta tiros. Mesmo que a gente se deite no ch\u00e3o, corre risco \u2014 afirmou M., acrescentando que n\u00e3o h\u00e1 paredes de concreto no local.<\/p>\n<p>Durante a entrevista ao GLOBO, M. pegou seu celular pelo menos tr\u00eas vezes para olhar o WhatsApp. Checar toda hora o aplicativo n\u00e3o \u00e9 um v\u00edcio, mas uma quest\u00e3o de seguran\u00e7a: colegas de trabalho e l\u00edderes comunit\u00e1rios se comunicam e alertam sobre eventuais riscos, como a chegada de um caveir\u00e3o da PM. No dia anterior, ela e os colegas ficaram em meio a um tiroteio. Muitas vezes, bastam alguns segundos para que o recebimento de uma mensagem seja seguido por uma troca de tiros. M. se acostumou a consultar o grupo antes de sair para trabalhar, por volta das 5h. Preocupada, a fam\u00edlia da m\u00e9dica a pressiona para que deixe o cargo.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 pensei em desistir, mas a gente vai tentando levar com o restinho de esperan\u00e7a que tem. Eu fa\u00e7o o que amo. Se sair daqui, vou ter que seguir outra carreira \u2014 desabafou M.<\/p>\n<p>Em algumas favelas, contatos com o tr\u00e1fico de drogas s\u00e3o uma necessidade para funcion\u00e1rios de unidades de sa\u00fade. M. contou que, depois que um criminoso com um fuzil entrou em sua cl\u00ednica para um atendimento de emerg\u00eancia, bandidos da regi\u00e3o se comprometeram a tomar cuidado para n\u00e3o coloc\u00e1-los en risco.<\/p>\n<p>Em outra unidade, situada numa favela com UPP, h\u00e1 uma sala de consultas reservada para integrantes do tr\u00e1fico, de acordo com a jovem m\u00e9dica X. Eles n\u00e3o precisam esperar como os demais pacientes: basta um bandido entrar para ser imediatamente atendido.<\/p>\n<p>H\u00e1 menos de um ano trabalhando no local, X. teve que se abrigar quatro vezes durante tiroteios. Na primeira, estava atendendo uma idosa quando rajadas soaram com for\u00e7a ao lado do consult\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Na sala onde todos se abrigaram, uma enfermeira chorava sem parar ao meu lado, e um dentista sofria uma crise de hipertens\u00e3o \u2014 lembrou a m\u00e9dica.<\/p>\n<p>X. contou que, pouco antes de come\u00e7ar a dar expediente na unidade, seus colegas ficaram quase quatro horas trancados, sem poder ir para casa, por causa de um tiroteio. Para ela, manter a calma ao passar por criminosos com armas na cintura ainda \u00e9 um desafio:<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 fiz visita domiciliar com a cl\u00ednica funcionando em alerta amarelo, com bandidos entocados em v\u00e1rios lugares da comunidade \u2014 disse X.<\/p>\n<p>Foi justamente de uma visita domiciliar que a m\u00e9dica rec\u00e9m-formada P. guarda a pior lembran\u00e7a dos meses em que trabalhou como estagi\u00e1ria numa Cl\u00ednica da Fam\u00edlia numa comunidade com UPP na Zona Norte. No momento em que chegava \u00e0 casa de uma paciente, a tranquilidade que reinava na favela deu lugar a uma troca de tiros. Uma moradora, que estava perto da equipe de sa\u00fade, foi atingida por uma bala.<\/p>\n<p>\u2014Est\u00e1vamos no meio de uma rua quando come\u00e7ou um confronto. Havia idosos conversando na cal\u00e7ada, gente lavando carro, com\u00e9rcio funcionando \u2014 recordou P. \u2014 Aquela mulher levou um tiro a poucos metros de mim.<\/p>\n<p>Hoje, a m\u00e9dica trabalha numa outra Cl\u00ednica da Fam\u00edlia, localizada em um acesso a uma comunidade sem UPP, onde passou a encontrar mais bandidos armados.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea anda dez metros e v\u00ea um cara de fuzil. Eles n\u00e3o mexem com o pessoal da cl\u00ednica, mas me sinto muito desconfort\u00e1vel \u2014 contou P.<\/p>\n<p>A ONG Viva Rio, que administra Cl\u00ednicas da Fam\u00edlia dentro de comunidades, substituiu a seguran\u00e7a armada, terceirizada, por porteiros. Muitos s\u00e3o moradores das favelas nas quais as unidades funcionam.<\/p>\n<p>\u2014 Usamos a mesma estrat\u00e9gia dos agentes comunit\u00e1rios de sa\u00fade, que conhecem os territ\u00f3rios e as pessoas. Eles ajudam na composi\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rio de risco. Sabem quando a situa\u00e7\u00e3o ficar\u00e1 inst\u00e1vel \u2014 afirmou Ubiratan \u00c2ngelo, ex-comandante da PM e diretor de seguran\u00e7a da ONG. \u2014 Ter pessoas armadas nesses locais s\u00f3 a aumenta a inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Em algumas favelas com cl\u00ednicas e centros de sa\u00fade, a viol\u00eancia afugenta a m\u00e3o de obra. Uma m\u00e9dica rec\u00e9m-formada disse que conseguiu ser contratada numa unidade depois que uma profissional com quem disputava a vaga teve o carro alvejado durante a entrevista de emprego.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia n\u00e3o provoca apenas a suspens\u00e3o dos atendimentos: levou ao fechamento da Cl\u00ednica da Fam\u00edlia das Palmeiras, que funcionava junto a uma esta\u00e7\u00e3o do telef\u00e9rico do Complexo do Alem\u00e3o. No dia 5 de dezembro do ano passado, a enfermeira P. subiu o morro sem saber que seria seu \u00faltimo dia de trabalho. Policiais de uma UPP invadiram a cl\u00ednica e se posicionaram nas janelas para abrir fogo contra criminosos.<\/p>\n<p>\u2014 Usaram nosso local de trabalho para atirar. Dentro da cl\u00ednica, o barulho dos disparos era ensurdecedor. E fomos tratados como bandidos, os policiais nos proibiram de pegar celulares \u2014 disse P.<\/p>\n<p>No dia seguinte, nenhum funcion\u00e1rio conseguiu subir o morro para trabalhar. Desde ent\u00e3o, a cl\u00ednica, que atendia 9.600 pessoas por m\u00eas, nunca mais abriu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: O Globo A m\u00e9dica M. atendia um menino de 10 anos em uma Cl\u00ednica da Fam\u00edlia no Complexo da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-4330","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4330","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4330"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4330\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4332,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4330\/revisions\/4332"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}