{"id":4283,"date":"2017-10-17T10:18:49","date_gmt":"2017-10-17T10:18:49","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=4283"},"modified":"2017-10-17T10:18:49","modified_gmt":"2017-10-17T10:18:49","slug":"quadro-da-tuberculose-piora-no-rio-favelas-populosas-tem-piores-indices","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2017\/10\/quadro-da-tuberculose-piora-no-rio-favelas-populosas-tem-piores-indices\/","title":{"rendered":"Quadro da tuberculose piora no Rio: favelas populosas t\u00eam piores \u00edndices"},"content":{"rendered":"<p>fonte: O Globo<\/p>\n<p>Quando os agentes de sa\u00fade chegam, D. sai transtornada do casebre em que vive, uma maloca escura, com menos de um metro de altura, feita com restos de tudo. Ela grita e chora, porque a amiga, que mora no mesmo barraco, rasgou o bra\u00e7o com um peda\u00e7o de vidro numa tentativa de suic\u00eddio. Uma m\u00e9dica e dois residentes de enfermagem precisam socorrer a mulher, ensanguentada no ch\u00e3o. Mas, antes de lev\u00e1-la para a Cl\u00ednica da Fam\u00edlia de Manguinhos, entregam uma cartela de comprimidos a D., que abra\u00e7a a amiga, vira para o lado e come\u00e7a a tossir e a expelir muco. Eram os sintomas do que, na verdade, tinha levado a equipe at\u00e9 ali, \u00e0 beira da Avenida Brasil: resqu\u00edcios da tuberculose da qual D. tenta se curar. \u00c9 uma das mais antigas e mortais doen\u00e7as infecciosas da hist\u00f3ria da Humanidade, que resiste e se alimenta de problemas sociais do Rio, como moradias prec\u00e1rias, falta de saneamento e de assist\u00eancia m\u00e9dica de qualidade.<\/p>\n<p>A tuberculose \u2014 que teve seu auge na Europa, nos s\u00e9culos XVIII e XIX \u2014 \u00e9 um drama que ainda atinge, todos os anos, mais de 10 mil pessoas no Estado do Rio. Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, a taxa de incid\u00eancia da doen\u00e7a, no ano passado, chegou a 63,82 casos por 100 mil habitantes no estado. \u00c9 a segunda maior do pa\u00eds, atr\u00e1s apenas do Amazonas (68,2).<\/p>\n<p>Na capital, ao contr\u00e1rio do que poderia se imaginar, o desenvolvimento n\u00e3o reduziu os n\u00fameros. Dados obtidos junto \u00e0 Secretaria municipal de Sa\u00fade (SMS) pela Frente Parlamentar em Apoio ao Combate da Tuberculose da C\u00e2mara dos Vereadores indicam que foram 99 casos por 100 mil moradores da cidade em 2016. E a situa\u00e7\u00e3o piorou. Em 2014, por exemplo, foram 90 registros por 100 mil moradores. A m\u00e9dia nacional \u00e9 de 33,7 por 100 mil.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma doen\u00e7a social. O Rio \u00e9 uma \u00e1rea end\u00eamica da tuberculose, que se agrava nas comunidades devido \u00e0s p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de moradia e de alimenta\u00e7\u00e3o das pessoas \u2014 afirma Marcelo Soares Costa, enfermeiro do Consult\u00f3rio na Rua da Cl\u00ednica da Fam\u00edlia Victor Valla, em Manguinhos.<\/p>\n<p>\u00c9 a equipe dele a respons\u00e1vel pelo atendimento aos moradores de rua da regi\u00e3o de Manguinhos e de toda a \u00c1rea de Planejamento 3.1 \u2014 uma das dez da cidade \u2014, que inclui a Mar\u00e9 e suas cracol\u00e2ndias, e que tem o menor percentual de cura e o maior \u00edndice de abandono do tratamento da doen\u00e7a no Rio. Tamb\u00e9m \u00e9 esse grupo de agentes de sa\u00fade que, na \u00faltima quarta-feira, saiu para fazer a entrega dos medicamentos a D. Um esfor\u00e7o para minimizar as consequ\u00eancias do abandono do tratamento, gratuito pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) e que deve durar, no m\u00ednimo, seis meses.<\/p>\n<p>Principalmente nas adensadas favelas cariocas, assim como nos pres\u00eddios e entre a popula\u00e7\u00e3o de rua, a doen\u00e7a se alastra. Em duas das comunidades mais conflagradas e abandonadas pelo poder p\u00fablico, as taxas s\u00e3o mais do que o triplo das de outras regi\u00f5es da cidade. Em Manguinhos, por exemplo, chega a 337,4 por 100 mil habitantes. E na vizinha Jacarezinho, que tem popula\u00e7\u00e3o de 39.041 moradores e registrou 130 casos em 2016, a propor\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 assustadora: 332,9 casos por 100 mil. Um quadro que faz a regi\u00e3o ser uma das que mais preocupam a Secretaria municipal de Sa\u00fade, j\u00e1 que os n\u00fameros de incid\u00eancia de tuberculose superam os de pa\u00edses pa\u00edses africanos, como Congo (324) e Serra Leoa (307).<\/p>\n<p>As duas favelas deixaram para tr\u00e1s a Rocinha, antes conhecida como o maior foco de tuberculose do pa\u00eds, com 455 casos por 100 mil moradores em 2001 e taxas que se mantiveram acima dos 300 casos por 100 mil at\u00e9 recentemente. A favela de S\u00e3o Conrado, que atravessa uma turbul\u00eancia em seguran\u00e7a, assiste \u00e0 doen\u00e7a recuar. Um resultado que pode ser atribu\u00eddo n\u00e3o s\u00f3 ao trabalho das equipes de sa\u00fade, mas tamb\u00e9m a obras como as do Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC), que abriram ruas e ergueram pr\u00e9dios onde antes havia o \u201cbeco da tuberculose\u201d, uma alus\u00e3o ao fato de que a doen\u00e7a cresce em ambientes l\u00fagubres e confinados. Hoje, indicam os n\u00fameros da Frente Parlamentar, s\u00e3o 179 doentes por 100 mil habitantes.<\/p>\n<p>Apesar disso, a Rocinha ainda faz parte de um cen\u00e1rio que est\u00e1 longe de ser o ideal. Assim como Manguinhos, Jacarezinho, Rio das Pedras, Cidade de Deus e as favelas dos complexos da Mar\u00e9 e do Alem\u00e3o, centenas de casas prec\u00e1rias, amontoadas e sem ventila\u00e7\u00e3o, que mal recebem a luz do sol, continuam a oferecer risco, principalmente se considerado que, nesses lugares, o saneamento \u00e9 quase inexistente. O caso \u00e9 t\u00e3o grave que, na Rocinha, a prefeitura prometeu abrir janelas ou basculantes em pelo 700 casas.<\/p>\n<p>Dentro de uma mesma \u00e1rea, os n\u00fameros dan\u00e7am de acordo com a intensidade do drama social. Enquanto as equipes dos atendimentos em domic\u00edlio na regi\u00e3o de Manguinhos t\u00eam, em m\u00e9dia, cinco pacientes em tratamento de tuberculose, a de Marcelo Costa, que atende moradores de rua, cuida de 29. O enfermeiro lembra que a popula\u00e7\u00e3o sem-teto tem at\u00e9 67 vezes mais chances de contrair a enfermidade. S\u00e3o doentes dif\u00edceis de serem acompanhados, e alguns somem. No mesmo dia em que os agentes encontraram D. completamente alterada, eles perderam de vista uma senhora rec\u00e9m-diagnosticada, que costumava se abrigar pr\u00f3ximo \u00e0 Fiocruz, mas que desapareceu e est\u00e1 sem rem\u00e9dios. A viol\u00eancia tamb\u00e9m dificulta que os agentes visitem pacientes em dias de opera\u00e7\u00f5es policiais ou quando h\u00e1 confrontos.<\/p>\n<p><strong>ONDE MAIS SE MORRE<\/strong><\/p>\n<p>Com tanta dificuldade, a letalidade \u00e9 alta. O Rio \u00e9 o estado do pa\u00eds que tem o maior coeficiente de mortes pela doen\u00e7a: foram cinco por grupo de 100 mil habitantes em 2016. E o munic\u00edpio do Rio, segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, \u00e9 a segunda capital do Brasil com maior taxa de \u00f3bitos: 6,2 por 100 mil habitantes ano passado, atr\u00e1s apenas de Recife, em Pernambuco (7,7\/100 mil).<\/p>\n<p>\u2014 Investimos muito e avan\u00e7amos na aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria de sa\u00fade, onde s\u00e3o diagnosticados 76% dos casos de tuberculose. Mas n\u00e3o basta. A fuga do tratamento ainda \u00e9 grande, muitas vezes por falta de informa\u00e7\u00e3o. A escalada da doen\u00e7a na cidade do Rio, nos \u00faltimos anos, n\u00e3o \u00e9 culpa do sistema de sa\u00fade, mas das condi\u00e7\u00f5es de vida das pessoas. Envolve urbanismo, saneamento, pol\u00edticas de habita\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia social \u2014 avalia o vereador Paulo Pinheiro (PSOL), presidente da Frente Parlamentar que trata do assunto na C\u00e2mara e que convocar\u00e1, no fim de outubro, uma audi\u00eancia p\u00fablica sobre o assunto.<\/p>\n<p>Coordenador do Observat\u00f3rio Tuberculose Brasil, vinculado \u00e0 Ensp\/Fiocruz, Carlos Basilia observa que, para combater a doen\u00e7a, \u00e9 preciso melhorar a aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, e tamb\u00e9m intensificar interven\u00e7\u00f5es urban\u00edsticas e em moradias, ampliando ruas e reformando casas. Ele destaca tamb\u00e9m que \u00e9 imprescind\u00edvel melhorar o n\u00edvel de informa\u00e7\u00e3o sobre a doen\u00e7a. O estigma que recai sobre os pacientes, diz ele, ainda \u00e9 enorme. Apesar disso, a tuberculoso tem cura e, com 15 dias de tratamento, o doente j\u00e1 deixa de transmiti-la.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma doen\u00e7a que tem um custo catastr\u00f3fico e um impacto negativo na economia familiar dos que adoecem, por causa do preconceito. H\u00e1 quem ache que \u00e9 preciso incinerar roupas e m\u00f3veis dos pacientes. H\u00e1 relatos de pessoas expulsas de comunidades pelo tr\u00e1fico e de trabalhadores demitidos ap\u00f3s o per\u00edodo de licen\u00e7a. As viola\u00e7\u00f5es dos direitos s\u00e3o muitas \u2014 afirma Basilia.<\/p>\n<p>Moradora da Rocinha, a agente comunit\u00e1ria Rita Schmit viveu tudo isso na pele e hoje ajuda outras pessoas. Ela, que perdeu a m\u00e3e de tuberculose, teve a doen\u00e7a duas vezes. Se dedica aos doentes com defici\u00eancia, que s\u00e3o mais vulner\u00e1veis por passarem muito tempo dentro de casa e concentram o maior \u00edndice de reincid\u00eancia \u2014 na Rocinha, alguns tiveram tuberculose seis vezes. Ela diz que os im\u00f3veis do PAC salvaram vidas:<\/p>\n<p>\u2014 Quem foi para esses pr\u00e9dios nunca mais teve tuberculose. Batalho h\u00e1 muito tempo por um projeto de moradia saud\u00e1vel. N\u00e3o sou m\u00e9dica, mas a vida foi me especializando. Percebi claramente, no meu corpo, que melhores condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia salvam.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4284\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/tuberculose_grafico.jpg\" alt=\"\" width=\"694\" height=\"522\" srcset=\"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/tuberculose_grafico.jpg 694w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/tuberculose_grafico-600x451.jpg 600w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/tuberculose_grafico-300x226.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 694px) 100vw, 694px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: O Globo Quando os agentes de sa\u00fade chegam, D. sai transtornada do casebre em que vive, uma maloca escura, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4284,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-4283","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4283","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4283"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4283\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4285,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4283\/revisions\/4285"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4284"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4283"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4283"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}