{"id":2578,"date":"2017-03-27T10:19:10","date_gmt":"2017-03-27T10:19:10","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=2578"},"modified":"2017-03-27T10:19:10","modified_gmt":"2017-03-27T10:19:10","slug":"nem-todos-os-pacientes-terao-acesso-aos-novos-tratamentos-contra-o-cancer-diz-oncologista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2017\/03\/nem-todos-os-pacientes-terao-acesso-aos-novos-tratamentos-contra-o-cancer-diz-oncologista\/","title":{"rendered":"&#8220;Nem todos os pacientes ter\u00e3o acesso aos novos tratamentos contra o c\u00e2ncer&#8221;, diz oncologista"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2579\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/brennan-224x300.jpg\" alt=\"\" width=\"224\" height=\"300\" \/>fonte: \u00c9poca<\/p>\n<p>O aperfei\u00e7oamento de t\u00e9cnicas para analisar e manipular o material gen\u00e9tico abriu uma nova fronteira no tratamento do <a href=\"http:\/\/epoca.globo.com\/palavrachave\/cancer\/\">c\u00e2ncer<\/a>. Agora, os m\u00e9dicos t\u00eam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o drogas capazes de atacar muta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas dos tumores, sem produzir efeitos colaterais, e de estimular o sistema de defesa do paciente para agir contra o tumor. O problema \u00e9 que os avan\u00e7os vieram acompanhados do aumento do pre\u00e7o dessas novas op\u00e7\u00f5es de tratamento \u2013 e das expectativas dos pacientes \u2013, n\u00e3o necessariamente na mesma propor\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios que trazem. Tratamentos de dezenas de milhares de d\u00f3lares podem se traduzir em algumas poucas semanas de sobrevida. Como conciliar o or\u00e7amento do sistema p\u00fablico com a esperan\u00e7a dos pacientes e os benef\u00edcios reais que as novas drogas trazem se tornou um desafio t\u00e3o grande quanto descobrir a cura.<\/p>\n<p>\u201cA verdade \u00e9 que nem todos os pacientes ter\u00e3o acesso a esses novos tratamentos\u201d, afirma o cirurgi\u00e3o oncol\u00f3gico neozeland\u00eas Murray Brennan, vice-presidente para Programas Internacionais do Memorial Sloan Kattering Cancer Center, dos Estados Unidos. \u201cN\u00e3o h\u00e1 nenhum problema se voc\u00ea tem muito dinheiro e est\u00e1 disposto a tomar uma droga muito cara que aumentar\u00e1 sua vida por apenas algumas semanas. Mas essa n\u00e3o \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o do sistema p\u00fablico de sa\u00fade.\u201d Brennan, um dos cirurgi\u00f5es mais respeitados do mundo, est\u00e1 no Brasil nesta semana para participar do semin\u00e1rio Intersections III, no Hospital S\u00edrio-Liban\u00eas, em S\u00e3o Paulo. Para ele, os gestores de sa\u00fade n\u00e3o podem ter muitas d\u00favidas sobre que tipo de tratamento disponibilizar no sistema p\u00fablico de sa\u00fade: aqueles que trar\u00e3o mais benef\u00edcios para a sociedade.<\/p>\n<p>No Brasil, a demanda judicial para que o Estado arque com os custos de tratamentos caros se tornou um dos principais problemas de sa\u00fade do pa\u00eds. Um levantamento da Interfarma, associa\u00e7\u00e3o que congrega a ind\u00fastria farmac\u00eautica, mostra que, das 18 principais drogas usadas para tratar os c\u00e2nceres mais comuns em 2014, apenas seis estavam dispon\u00edveis no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). No embate entre o que o apertado or\u00e7amento p\u00fablico permite e o que os pacientes almejam, gastam-se de maneira mal planejada os escassos recursos p\u00fablicos. Em entrevista a \u00c9POCA, Brennan afirma ter pouca esperan\u00e7a de que os governos conseguir\u00e3o resolver o impasse. O dever de prescrever adequadamente os tratamentos \u2013 e educar os pacientes para que aceitem as limita\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia \u2013 cabe aos m\u00e9dicos, diz Brennan. \u201cTemos de come\u00e7ar a perguntar aos pacientes o que eles valorizam, n\u00e3o apenas dizer eu posso aumentar sua sobreviv\u00eancia\u201d, diz Brennan. \u201cVale ficar internado em uma unidade de terapia intensiva de um hospital por tr\u00eas semanas para viver mais tr\u00eas?\u201d\u00a0Leia a \u00edntegra da entrevista a seguir:<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 Os novos tratamentos contra o c\u00e2ncer est\u00e3o cada vez mais caros. Como incorporar esses avan\u00e7os ao sistema p\u00fablico de sa\u00fade?<\/strong><br \/>\n<strong>Murray Brennan \u2013<\/strong> A verdade \u00e9 que nem todos os pacientes ter\u00e3o acesso a esses novos tratamentos. O sistema p\u00fablico de sa\u00fade, por sua natureza, tem a obriga\u00e7\u00e3o de gastar o dinheiro da sociedade de maneira inteligente. Por isso, precisa estabelecer um crit\u00e9rio. \u00c9 preciso oferecer tratamentos que funcionem em um determinado n\u00edvel, que prolonguem a vida por, no m\u00ednimo, um certo tempo. N\u00e3o h\u00e1 nenhum problema se voc\u00ea tem muito dinheiro e est\u00e1 disposto a tomar uma droga muito cara que aumentar\u00e1 sua vida por apenas algumas semanas. Mas essa n\u00e3o \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o do sistema p\u00fablico de sa\u00fade. N\u00f3s aprovamos o registro de drogas que talvez deem cinco semanas de sobreviv\u00eancia. A boa not\u00edcia \u00e9 que estamos ficando melhores em avaliar as vantagens e desvantagens dos tratamentos para cada paciente.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 Esse \u00e9 o papel da chamada medicina personalizada ou de precis\u00e3o, em que os dados gen\u00e9ticos do tumor guiam a escolha do tratamento?<\/strong><br \/>\n<strong>Brennan \u2013 <\/strong>\u00c9 preciso identificar os pacientes que se beneficiar\u00e3o de cada tratamento. Apenas dessa maneira far\u00e1 sentido gastar o dinheiro. Podemos prever pela constitui\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica do tumor se ele responder\u00e1 ao tratamento. Se o tumor tem uma muta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, da qual ele depende para crescer, pode n\u00e3o ser poss\u00edvel cur\u00e1-lo, mas parar seu crescimento. \u00c9 como se voc\u00ea estivesse dirigindo um carro e tirasse o p\u00e9 do acelerador. O carro continuaria funcionando, mas n\u00e3o iria a lugar algum. Se pudermos identificar o que chamamos de muta\u00e7\u00e3o promotora e bloque\u00e1-la, o carro n\u00e3o vai para a frente. Outra maneira de fazer isso seria encontrar uma muta\u00e7\u00e3o que desacelere o tumor, como os freios no carro.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 Ainda que j\u00e1 seja poss\u00edvel usar a medicina de precis\u00e3o em alguns casos, nem todos os pacientes poder\u00e3o us\u00e1-la no sistema p\u00fablico de sa\u00fade porque n\u00e3o h\u00e1 indica\u00e7\u00e3o para seus casos. \u00c9 compreensivelmente dif\u00edcil aceitar que n\u00e3o se poder\u00e1 tentar todas as possibilidades quando h\u00e1 uma doen\u00e7a fatal em jogo.<\/strong><br \/>\n<strong>Brennan \u2013 <\/strong>O problema \u00e9 que os pacientes t\u00eam expectativas irreais. Estudos sugerem que os pacientes sempre pensam que o benef\u00edcio de um tratamento \u00e9 maior do que realmente \u00e9. Sabemos que os m\u00e9dicos tamb\u00e9m tendem a dizer que o benef\u00edcio \u00e9 maior do que \u00e9. Os m\u00e9dicos naturalmente querem ajudar as pessoas. Por isso temos de ser muito cuidadosos para n\u00e3o correr o risco de causar danos. Temos de pensar n\u00e3o apenas nos benef\u00edcios, mas tamb\u00e9m nos efeitos negativos. \u00c9 preciso colocar na balan\u00e7a mais que um custo financeiro, mas tamb\u00e9m um custo pessoal. Vale ficar internado em uma unidade de terapia intensiva de um hospital por tr\u00eas semanas para viver mais tr\u00eas?<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 De onde v\u00eam essas expectativas irreais?<\/strong><br \/>\n<strong>Brennan \u2013<\/strong>\u00a0N\u00f3s, os m\u00e9dicos, e a ind\u00fastria farmac\u00eautica n\u00e3o educamos a popula\u00e7\u00e3o bem. N\u00e3o descrevemos a magnitude dos benef\u00edcios dos novos tratamentos, apenas dizemos que h\u00e1 uma melhora. Por exemplo: s\u00e3o feitas grandes pesquisas, com milhares de pacientes, para mostrar se uma nova droga \u00e9 eficaz ou n\u00e3o. N\u00e3o raramente, h\u00e1 apenas pequenos benef\u00edcios percentuais: talvez eleve a taxa de sobreviv\u00eancia de 90% para 92% dos pacientes. Esses resultados s\u00e3o anunciados da seguinte maneira: antes, 10% das pessoas morriam, agora morrem 8%, o que significa que aumentamos a sobreviv\u00eancia em 20%. O que n\u00e3o \u00e9 dito \u00e9 que, sem o tratamento, 90% das pessoas sobreviveriam de qualquer maneira. Isso significa que, para uma pessoa se beneficiar, voc\u00ea tem de tratar 50 pessoas. Se tiv\u00e9ssemos dito para o paciente: \u201cTemos um tratamento que pode aumentar a sua sobreviv\u00eancia, mas h\u00e1 nove chances em dez de que voc\u00ea n\u00e3o precise\u201d, \u00e9 uma maneira diferente de explicar, em vez de dizer apenas que podemos aumentar sua sobreviv\u00eancia em 20%. E, a prop\u00f3sito, estamos falando em aumentar a sobrevida em semanas ou alguns meses. Ningu\u00e9m est\u00e1 falando mentiras. S\u00e3o s\u00f3 maneiras diferentes de dizer a verdade.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 A ind\u00fastria farmac\u00eautica faz os resultados parecem melhores que s\u00e3o?<\/strong><br \/>\n<strong>Brennan \u2013<\/strong> Todo mundo \u00e9 vil\u00e3o nessa hist\u00f3ria e ningu\u00e9m est\u00e1 disposto a reconhecer isso. Os pacientes s\u00e3o um problema, os m\u00e9dicos s\u00e3o um problema, a ind\u00fastria farmac\u00eautica e as seguradoras s\u00e3o outro. Prometemos o que n\u00e3o podemos entregar. \u00c9 muito triste os pre\u00e7os serem t\u00e3o altos por causa disso. As empresas farmac\u00eauticas dizem que as drogas s\u00e3o caras porque elas t\u00eam obriga\u00e7\u00f5es com os acionistas de ganhar dinheiro porque perderam dinheiro nas \u00faltimas dez drogas. Ent\u00e3o se torna uma discuss\u00e3o mais complicada.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 Alguns especialistas sugerem que devemos tornar mais r\u00edgidos os crit\u00e9rios de aprova\u00e7\u00e3o das drogas para n\u00e3o permitir benef\u00edcios marginais. Sem o registro dessas drogas, n\u00e3o h\u00e1 press\u00e3o para disponibiliz\u00e1-las no sistema p\u00fablico. O senhor concorda?<\/strong><br \/>\n<strong>Brennan \u2013\u00a0<\/strong>Quando falamos de um sistema de sa\u00fade p\u00fablica, antes mesmo de pensar em aprovar uma droga, devemos mostrar que ela \u00e9 melhor que a anterior, n\u00e3o a mesma coisa. N\u00e3o dever\u00edamos aprovar uma droga que traz o mesmo benef\u00edcio da anterior e que custa mais caro.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 Cabe aos governos corrigir esse problema?<\/strong><br \/>\n<strong>Brennan \u2013 <\/strong>N\u00e3o acho que o governo, pelo menos o dos Estados Unidos, conseguir\u00e1 consertar isso. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 os m\u00e9dicos educarem os pacientes para eles se tornarem mais realistas. Os m\u00e9dicos tamb\u00e9m precisam aceitar que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tratar uma pessoa quando eles acham que n\u00e3o haver\u00e1 benef\u00edcios.<\/p>\n<p><strong>\u00c9POCA \u2013 \u00c9 preciso diminuir as expectativas constru\u00eddas nos \u00faltimos anos com os avan\u00e7os e dar \u00eanfase a outros valores, como qualidade de vida, e n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 cura?<\/strong><br \/>\n<strong>Brennan \u2013<\/strong> Concordo com isso. O problema \u00e9 que a defini\u00e7\u00e3o de valor \u00e9 muito subjetiva e varia de pessoa para pessoa. Qualidade de vida \u00e9 algo diferente para todo mundo. \u00c9 preciso perguntar ao paciente o que ele quer. Alguns dir\u00e3o: \u201cEu quero ser curado amanh\u00e3\u201d. Bom, isso n\u00f3s n\u00e3o podemos fazer. Alguns podem querer viver at\u00e9 a formatura do neto no jardim de inf\u00e2ncia e outros s\u00f3 querem estar vivos at\u00e9 o casamento da filha. N\u00f3s temos de come\u00e7ar a perguntar aos pacientes o que eles valorizam, n\u00e3o apenas dizer &#8220;eu posso aumentar sua sobreviv\u00eancia&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: \u00c9poca O aperfei\u00e7oamento de t\u00e9cnicas para analisar e manipular o material gen\u00e9tico abriu uma nova fronteira no tratamento do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-2578","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2578"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2578\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2580,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2578\/revisions\/2580"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}