{"id":2475,"date":"2017-03-15T11:22:11","date_gmt":"2017-03-15T11:22:11","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=2475"},"modified":"2017-03-15T11:22:11","modified_gmt":"2017-03-15T11:22:11","slug":"pacientes-levam-ate-um-ano-para-iniciar-tratamento-contra-cancer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2017\/03\/pacientes-levam-ate-um-ano-para-iniciar-tratamento-contra-cancer\/","title":{"rendered":"Pacientes levam at\u00e9 um ano para iniciar tratamento contra c\u00e2ncer"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2476\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/cancer-300x130.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"130\" \/>fonte: O Globo<\/p>\n<p>Foram quase quatro meses de desespero e muito medo. Exatos 117 dias aguardando o telefone tocar. O chamado para a consulta que nunca vinha. Entre a realiza\u00e7\u00e3o da bi\u00f3psia, no Rio Imagem, e a primeira consulta com o oncologista no Hospital Federal de Bonsucesso, K\u00e1tia Regina Alves Moura, de 53 anos, chegou a acreditar que sequer teria a chance de lutar contra o c\u00e2ncer de mama. Era 22 de fevereiro de 2016, quando a dona de casa da Penha conseguiu chegar a uma unidade de atendimento oncol\u00f3gico. Esse caminho, que come\u00e7a ainda antes, no pedido para realiza\u00e7\u00e3o da mamografia, leva em m\u00e9dia de dez a 12 meses para a maioria dos pacientes fluminenses, segundo pesquisa realizada pelo Conselho Regional de Medicina (Cremerj), entre outubro e novembro do ano passado, ap\u00f3s vistoriar as 19 unidades p\u00fablicas e conveniadas ao SUS com servi\u00e7o de oncologia no Estado do Rio. Pelo levantamento: 57% dos pacientes j\u00e1 t\u00eam diagn\u00f3stico no momento da interna\u00e7\u00e3o. Desses, 42% tinham exames realizados h\u00e1 mais de seis meses e esperavam em casa, sem tratamento.<\/p>\n<p>&#8211; Al\u00e9m de lutar contra a doen\u00e7a, voc\u00ea luta contra o tempo. Se o resultado da bi\u00f3psia fosse mais r\u00e1pido, se as l\u00e2minas voltassem mais r\u00e1pido do laborat\u00f3rio, minhas chances seriam maiores. \u00c9 angustiante &#8211; diz K\u00e1tia, que segue aguardando, agora, ser chamada para a radioterapia.<\/p>\n<p>A espera por exames, como mamografia, endoscopias, tomografias, resson\u00e2ncias e bi\u00f3psias, gera outro dado preocupante: 59% dos pacientes s\u00e3o internados com c\u00e2ncer em est\u00e1gio avan\u00e7ado. Ainda assim, 21% dos pacientes n\u00e3o iniciam a quimioterapia logo ap\u00f3s o diagn\u00f3stico confirmado.<\/p>\n<p><strong>LEI DOS 60 DIAS N\u00c3O \u00c9 CUMPRIDA<\/strong><\/p>\n<p>Para o coordenador da pesquisa, o diretor do Cremerj Gil Sim\u00f5es, o levantamento deixou claro que a lei federal 12.732, de 2012, dificilmente \u00e9 cumprida. A chamada Lei dos 60 Dias determina que os pacientes com c\u00e2ncer, atendidos pelo SUS, devem come\u00e7ar a ser tratados em at\u00e9 dois meses ap\u00f3s o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Essa demora vai reduzir ainda mais as chances desse paciente que tem uma doen\u00e7a potencialmente fatal. Os pacientes chegam muito graves aos hospitais, pois est\u00e3o sendo encaminhados tardiamente. Isso indica que a sa\u00fade b\u00e1sica n\u00e3o est\u00e1 funcionando &#8211; alerta Sim\u00f5es.<\/p>\n<p>Entrevistados para a pesquisa, os 19 chefes de servi\u00e7o destacaram como principais problemas a reduzida estrutura para exames, o que gera grave demora na marca\u00e7\u00e3o e \u00e9 imprescind\u00edvel para o diagn\u00f3stico, al\u00e9m da longa espera pelos resultados, tendo como consequ\u00eancia o adiamento do in\u00edcio do tratamento.<\/p>\n<p>&#8211; O atraso que o paciente enfrenta at\u00e9 conseguir realizar todos os exames necess\u00e1rios ocorre por v\u00e1rios motivos, como a falta de estrutura e de equipamentos nas unidades, a pouca oferta de leitos, entre outros. O problema \u00e9 anterior ao atendimento pelo especialista &#8211; salienta Gil Sim\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas a demora continua mesmo depois da chegada aos servi\u00e7os de oncologia. A pesquisa do Cremerj verificou que 27% dos hospitais que tratam c\u00e2ncer, chamados de unidades de alta complexidade, n\u00e3o t\u00eam tom\u00f3grafo. Desses, 80% afirmaram que a unidade de refer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 eficaz para absorver seus pacientes. Quase 80% desses hospitais n\u00e3o contam com resson\u00e2ncia magn\u00e9tica, sendo que 66% deles (10 das 19 unidades) n\u00e3o t\u00eam uma unidade de refer\u00eancia eficaz para encaminhar os pacientes.<\/p>\n<p>O tempo de espera para marca\u00e7\u00e3o de tomografia gira em torno de 12 semanas. Depois, s\u00e3o necess\u00e1rias mais duas para receber o resultado. J\u00e1 para marcar uma resson\u00e2ncia, espera-se em m\u00e9dia dez semanas. Em seguida, outras tr\u00eas para o laudo.<\/p>\n<p>A falta de estrutura tem ainda outro efeito: pedidos de exonera\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o p\u00fablico. Neste \u00faltimo m\u00eas, dos sete oncologistas do Hospital Federal de Bonsucesso, restaram tr\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; O chefe do servi\u00e7o est\u00e1 afastado por problemas de sa\u00fade. Os m\u00e9dicos est\u00e3o adoecendo porque n\u00e3o conseguem tratar os pacientes. \u00c9 catastr\u00f3fico o que est\u00e1 acontecendo no atendimento oncol\u00f3gico no Estado do Rio. Estamos perdendo a chance de curar. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 grave e esperamos que, a partir desse levantamento, os gestores da Sa\u00fade encontrem solu\u00e7\u00f5es para melhorar a assist\u00eancia oferecida &#8211; afirma o presidente do Cremerj, Nelson Nahon.<\/p>\n<p><strong>CRISES DE CHORO<\/strong><\/p>\n<p>Com o diagn\u00f3stico de c\u00e2ncer de mama nas m\u00e3os, Suely Martins Paes, de 57 anos, tinha crises de choro enquanto esperava ser chamada para iniciar o tratamento. Em julho de 2015, fez uma mamografia que apontou n\u00f3dulos na mama. Em agosto, fez a bi\u00f3psia. Um m\u00eas depois, recebeu uma folha de papel com o diagn\u00f3stico positivo e uma orienta\u00e7\u00e3o: &#8220;espere&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Fiquei desesperada e minha fam\u00edlia tamb\u00e9m. Tinha crises de choro. At\u00e9 que marcaram a cirurgia para o dia 22 de fevereiro do ano passado. Neste dia, os funcion\u00e1rios do Hospital Mario Kr\u00f6eff entraram em greve por falta de pagamento. S\u00f3 fui operar no dia 3 de mar\u00e7o, oito meses ap\u00f3s a mamografia e seis meses depois do diagn\u00f3stico &#8211; lembra Suely.<\/p>\n<p>Ao receber o resultado da bi\u00f3psia do tumor retirado na opera\u00e7\u00e3o, a dona de casa recebeu a not\u00edcia de que faria outra cirurgia. Em maio do ano passado, voltou a ser operada, para a retirada de todos os g\u00e2nglios linf\u00e1ticos da axila.<\/p>\n<p>&#8211; A espera fez com que a cirurgia fosse mais extensa. A quimioterapia s\u00f3 come\u00e7ou tr\u00eas meses depois, em agosto. Essa etapa venci em 16 de dezembro do ano passado. Ap\u00f3s mais dois meses de espera, em 13 de fevereiro, iniciei a radioterapia. J\u00e1 fiz 17 das 25 sess\u00f5es di\u00e1rias. O que mata \u00e9 a demora. Hoje, se descobrir logo e tratar rapidamente, \u00e9 poss\u00edvel cortar o mal pela raiz. \u00c9 muito triste ver pacientes chegando ao hospital j\u00e1 sem ter o que fazer &#8211; conta Suely.<\/p>\n<p><strong>REUNI\u00c3O PARA IMPLANTAR MELHORIAS<\/strong><\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 9, o Cremerj se reuniu com a Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o, gestores dos 19 hospitais vistoriados, representantes do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e os secret\u00e1rios estadual e municipal de Sa\u00fade do Rio para estabelecer melhorias a serem implantadas. Uma nova reuni\u00e3o est\u00e1 marcada para o in\u00edcio de maio.<\/p>\n<p>Em nota, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade respondeu que os seis hospitais federais no Rio (Bonsucesso, Andara\u00ed, Cardoso Fontes, Ipanema, Lagoa e dos Servidores do Estado) ampliaram de 10% a 25% o atendimento a pacientes oncol\u00f3gicos (consultas e sess\u00f5es de quimioterapia) de 2015 para 2016. Afirmou ainda que, nesta semana, as unidades est\u00e3o completando um trabalho de redefini\u00e7\u00e3o do perfil assistencial e cir\u00fargico para ampliar ainda mais os servi\u00e7os de tratamento do c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Confira a nota do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade na \u00edntegra:<\/p>\n<p>Os seis hospitais do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade no Rio de Janeiro ampliaram de 10% at\u00e9 25% o atendimento a pacientes oncol\u00f3gicos (consultas e sess\u00f5es de quimioterapia) de 2015 para 2016 e est\u00e3o completando nesta semana o trabalho de redefini\u00e7\u00e3o do perfil assistencial e cir\u00fargico para ampliar ainda mais os servi\u00e7os de tratamento do c\u00e2ncer, uma demanda crescente entre a popula\u00e7\u00e3o do estado.<\/p>\n<p>Os hospitais federais de Bonsucesso, Andara\u00ed, Cardoso Fontes, Ipanema, Lagoa e dos Servidores do Estado realizaram 90.355 atendimentos oncol\u00f3gicos em 2016, 10,8 mil a mais do que no ano anterior, al\u00e9m dos atendimentos a pacientes com c\u00e2ncer nas emerg\u00eancias. O caso mais complexo \u00e9 o do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), no qual, em m\u00e9dia, 40% dos pacientes que d\u00e3o entrada na emerg\u00eancia s\u00e3o pessoas com diagn\u00f3stico ou suspeita de c\u00e2ncer e j\u00e1 chegam ali em est\u00e1gio avan\u00e7ado da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Pela localiza\u00e7\u00e3o, com acesso f\u00e1cil pela Avenida Brasil, a popula\u00e7\u00e3o da Zona Norte do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense tem recorrido de forma mais intensa ao HFB quando n\u00e3o encontra atendimento em outras unidades. Em m\u00e9dia, 60% dos pacientes na emerg\u00eancia s\u00e3o provenientes de outras cidades. Devido ao aumento da procura de pacientes, o Instituto Nacional de C\u00e2ncer (Inca), unidade do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade integrada \u00e0 rede de hospitais, passou a receber nas \u00faltimas semanas pessoas em tratamento quimioter\u00e1pico no HFB. A medida emergencial visa desafogar o servi\u00e7o aos pacientes oncol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de oferecer servi\u00e7os do SUS em seus seis hospitais e tr\u00eas institutos federais no Rio de Janeiro, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade repassou em 2016 para o atendimento de m\u00e9dia e alta complexidade (que engloba hospitaliza\u00e7\u00f5es e tratamentos de c\u00e2ncer, por exemplo) os valores de R$ 3,99 bilh\u00f5es ao estado, o respons\u00e1vel por esse tipo de servi\u00e7o, e mais R$ 3,09 bilh\u00f5es ao munic\u00edpio, o gestor pleno da sa\u00fade no Rio.<\/p>\n<p>Por meio de nota, o Hospital Universit\u00e1rio Clementino Fraga Filho (HUCFF) informou que possui mais de 180 postos de trabalho de aposentados que n\u00e3o foram repostos, pois a unidade n\u00e3o tem autonomia para realizar novas contrata\u00e7\u00f5es. A falta de profissionais causa atrasos na realiza\u00e7\u00e3o de exames e nos atendimentos aos pacientes do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). A unidade informou ainda que a falta de pessoal atinge outros setores do hospital, que tem 22 leitos do Centro de Tratamento Intensivo (CTI) e 40 de enfermaria parados por falta de m\u00e9dicos e enfermeiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: O Globo Foram quase quatro meses de desespero e muito medo. Exatos 117 dias aguardando o telefone tocar. 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