{"id":2413,"date":"2017-03-06T03:01:51","date_gmt":"2017-03-06T03:01:51","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=2413"},"modified":"2019-02-21T10:17:22","modified_gmt":"2019-02-21T10:17:22","slug":"excessos-de-exames-desperdicios-na-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2017\/03\/excessos-de-exames-desperdicios-na-saude\/","title":{"rendered":"Excessos de exames: desperd\u00edcios na Sa\u00fade?"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-188\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/artigos_definitivo-300x166.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"166\" \/>Autores:<br \/>\n<strong>Nairo M. Sumita<\/strong> \u2013 Diretor Cient\u00edfico da Sociedade Brasileira de Patologia Cl\u00ednica\/Medicina Laboratorial \u2013 SBPC\/ML;<br \/>\n<strong>Wilson Shcolnik<\/strong> \u2013 Diretor de Acredita\u00e7\u00e3o e Qualidade da Sociedade Brasileira de Patologia Cl\u00ednica\/ Medicina Laboratorial \u2013 SBPC\/ML.<\/p>\n<p>O excesso de diagn\u00f3sticos e de tratamentos (do ingl\u00eas \u2013 \u201coverdiagnosis and overtreatment\u201d) ocorre em v\u00e1rios pa\u00edses, e pode representar amea\u00e7a ao bem estar de pacientes e preju\u00edzos aos sistemas de sa\u00fade. Muitas defini\u00e7\u00f5es para esses termos coexistem na literatura m\u00e9dica, mas o sentido pr\u00e1tico \u00e9 semelhante: \u00e9 necess\u00e1rio avaliar os benef\u00edcios da realiza\u00e7\u00e3o de uma interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, considerando os riscos, a seguran\u00e7a do paciente e os danos envolvidos, incluindo os impactos financeiros.<\/p>\n<p>Este tema, embora descrito como um fen\u00f4meno recente, j\u00e1 ocorre h\u00e1 s\u00e9culos conforme evid\u00eancias nos registros hist\u00f3ricos. Nos dias atuais, alguns fatos nos ajudam a entender esta situa\u00e7\u00e3o, quais sejam: a disponibilidade de tecnologias modernas; a medicina cada vez mais focada na especializa\u00e7\u00e3o e na sub-especializa\u00e7\u00e3o; os modelos de pagamento aos prestadores de servi\u00e7o de sa\u00fade, nem sempre justos; a estrutura organizacional dos servi\u00e7os de sa\u00fade que define a presta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de sa\u00fade, conforme a complexidade da doen\u00e7a, mas que na pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 efetiva ; o uso do marketing; a rela\u00e7\u00e3o desbalanceada entre a demanda e oferta; a mudan\u00e7a de papeis na rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico paciente onde, n\u00e3o raramente, os pacientes manifestam o desejo de realizar algum procedimento m\u00e9dico ou diagn\u00f3stico, muitas vezes sem indica\u00e7\u00e3o e induzem os m\u00e9dicos as solicitarem mais exames do que o necess\u00e1rio. Todas estas quest\u00f5es, e muitas outras que n\u00e3o puderam ser citadas pela limita\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o neste artigo, potencialmente influenciam no processo de defini\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de sa\u00fade no pa\u00eds e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, na forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<\/p>\n<p>A literatura m\u00e9dica cita que 70% das decis\u00f5es m\u00e9dicas se baseiam em resultados de exames laboratoriais, procedimentos considerados minimamente invasivos, que podem ser considerados como sendo a ferramenta de elevada rela\u00e7\u00e3o custo\/efetividade para se obter informa\u00e7\u00f5es sobre o estado de sa\u00fade do paciente. Os resultados de exames laboratoriais fornecem informa\u00e7\u00f5es que podem ser utilizadas para fins diagn\u00f3stico e progn\u00f3stico, preven\u00e7\u00e3o e estabelecimento de riscos para in\u00fameras doen\u00e7as, defini\u00e7\u00e3o de tratamentos personalizados, assim como evitar a necessidade de procedimentos complementares mais complexos e invasivos, quando bem indicados e os resultados corretamente interpretados.<\/p>\n<p>No Brasil, como em outros pa\u00edses, as despesas com exames laboratoriais representam menos de 5% dos custos com a assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade e 25% dos custos com diagn\u00f3sticos<em>. <\/em>O n\u00famero de exames laboratoriais realizados por paciente em diferentes pa\u00edses, assim como em diferentes regi\u00f5es de um mesmo pa\u00eds, pode variar, como ocorre no Brasil. Muitas s\u00e3o as raz\u00f5es para a crescente demanda por exames laboratoriais: o interesse na preven\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as e a busca por uma melhor qualidade de vida; o surgimento de novos exames laboratoriais com elevado poder para diagn\u00f3stico e estabelecimento de riscos; o envelhecimento populacional com consequente aumento da preval\u00eancia de doen\u00e7as cr\u00f4nicas; a press\u00e3o\/economia de tempo, que muitas vezes inviabiliza a conversa com o paciente e torna o exame cl\u00ednico insuficiente; a padroniza\u00e7\u00e3o de protocolos cl\u00ednicos visando definir a melhor forma de conduzir o diagn\u00f3stico e o tratamento das doen\u00e7as; a inseguran\u00e7a ou a inexperi\u00eancia dos profissionais que enxergam nos exames laboratoriais solicitados de modo n\u00e3o racional a possibilidade de se estabelecer maior n\u00famero de diagn\u00f3sticos; o desconhecimento do custo dos exames laboratoriais pelos solicitantes, o crescimento do n\u00famero de benefici\u00e1rios da sa\u00fade suplementar, com maior acesso quando comparados aos usu\u00e1rios do sistema p\u00fablico e a influ\u00eancia da m\u00eddia na discuss\u00e3o dos temas relacionadas a sa\u00fade e qualidade de vida.<\/p>\n<p>Atualmente os exames laboratoriais baseados em m\u00e9todos moleculares se transformaram na grande vedete, pois permitem, em muitas situa\u00e7\u00f5es, a possibilidade de estabelecer diagn\u00f3sticos precoces e precisos, antes mesmo que sinais ou sintomas resultantes das les\u00f5es org\u00e2nicas se tornem evidentes e realizam a detec\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as raras e de dif\u00edcil diagn\u00f3stico, al\u00e9m de sua ampla utiliza\u00e7\u00e3o no aconselhamento gen\u00e9tico e planejamento familiar. Exemplo pr\u00e1tico \u00e9 o uso cada vez mais frequente desses m\u00e9todos em busca de muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas para o diagn\u00f3stico presuntivo de doen\u00e7as graves que sequer se manifestaram, como o c\u00e2ncer de mama. Por outro lado, observa-se uma forte tend\u00eancia a se criar a epidemia de doen\u00e7as sem sintomas, definida apenas por altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas muitas vezes inespec\u00edficas, na qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel definir se a doen\u00e7a ir\u00e1 de fato se manifestar. Alguns protocolos de rastreamento levam ao extremo a necessidade do diagn\u00f3stico de \u201cdoen\u00e7as\u201d que n\u00e3o impactariam significativamente na sa\u00fade, e resultam em procedimentos investigat\u00f3rios e tratamentos muitas vezes desnecess\u00e1rios, podendo trazer impactos para a seguran\u00e7a dos pacientes.<\/p>\n<p>Os exames gen\u00e9ticos preditivos ainda representam desafios, pois al\u00e9m das incertezas quanto \u00e0s a\u00e7\u00f5es apropriadas em casos de identifica\u00e7\u00e3o de riscos para a manifesta\u00e7\u00e3o de determinadas doen\u00e7as, h\u00e1 quest\u00f5es \u00e9ticas e de equidade, que envolvem a defini\u00e7\u00e3o da terapia. Cabe lembrar que o Brasil ainda n\u00e3o disp\u00f5e de uma lei de confidencialidade gen\u00e9tica, a exemplo dos Estados Unidos da Am\u00e9rica do Norte, fato que justifica a necessidade de uma grande discuss\u00e3o com a sociedade.<\/p>\n<p>H\u00e1 frequentes cita\u00e7\u00f5es sobre o n\u00famero de resultados de exames n\u00e3o acessados ou retirados por pacientes nos laborat\u00f3rios cl\u00ednicos brasileiros. Algumas delas afirmam que este n\u00famero pode chegar a 30% sem, no entanto, citarem fontes. Os percentuais apurados por entidades setoriais revelam que este n\u00famero n\u00e3o chega a 5% dos exames. Uma das explica\u00e7\u00f5es para tal diferen\u00e7a reside na desconsidera\u00e7\u00e3o dos acessos a resultados de exames realizados diretamente por pacientes e m\u00e9dicos via internet, e ao uso de facilidades tecnol\u00f3gicas que permitem envio de resultados de exames por e-mail, mensagens por SMS, entre outras.<\/p>\n<p>De qualquer forma, e diante do exposto, \u00e9 necess\u00e1rio abordar a quest\u00e3o do desperd\u00edcio e uso racional dos exames, evitando-se excesso de gastos e danos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, e aos sistemas de assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade. H\u00e1 pesquisadores empenhados na produ\u00e7\u00e3o de estudos cient\u00edficos que comprovem o real valor de cada exame laboratorial para uma assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade racional a um custo realista.<\/p>\n<p>Entre os indicadores de qualidade laboratorial, j\u00e1 est\u00e3o propostos alguns relacionados \u00e0s escolhas apropriadas dos exames, para a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica apresentada, assim como \u00e0 correta interpreta\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o dos resultados de exames no tempo oportuno. Em outras palavras, busca-se avaliar \u201co exame certo, realizado na hora certa, para a pessoa certa\u201d e, para se obter tais informa\u00e7\u00f5es, \u00e9 fundamental um relacionamento muito pr\u00f3ximo entre os profissionais de laborat\u00f3rio e os m\u00e9dicos assistentes para a melhoria da assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. Outra proposta para conter o desperd\u00edcio na \u00e1rea laboratorial \u00e9 o gerenciamento da utiliza\u00e7\u00e3o de exames, com o objetivo de desencorajar o uso de exames sup\u00e9rfluos. J\u00e1 h\u00e1 protocolos publicados em alguns pa\u00edses, definindo intervalos m\u00ednimos e condi\u00e7\u00f5es em que os exames laboratoriais devem ser solicitados, baseados na cl\u00ednica do paciente, no cen\u00e1rio da assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade e, principalmente, na probabilidade diagn\u00f3stica pr\u00e9-teste do exame laboratorial solicitado.<\/p>\n<p>Algumas solu\u00e7\u00f5es para evitar a realiza\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria de exames j\u00e1 est\u00e3o descritas, como, por exemplo:<\/p>\n<ul>\n<li>Evitar o uso de requisi\u00e7\u00f5es que estimulam a utiliza\u00e7\u00e3o de exames sem crit\u00e9rio atrav\u00e9s da Implanta\u00e7\u00e3o da solicita\u00e7\u00e3o computadorizada de exames;<\/li>\n<li>A elimina\u00e7\u00e3o de exames obsoletos;<\/li>\n<li>A institui\u00e7\u00e3o de algoritmos que orientem a sequ\u00eancia l\u00f3gica de exames a serem utilizados, e os preparos pr\u00e9-anal\u00edticos necess\u00e1rios;<\/li>\n<li>A aproxima\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos solicitantes com os m\u00e9dicos patologistas cl\u00ednicos, sendo estes Consultores e especialistas na correla\u00e7\u00e3o cl\u00ednico laboratorial dos resultados;<\/li>\n<li>Os sistemas de decis\u00e3o cl\u00ednica;<\/li>\n<li>A introdu\u00e7\u00e3o da disciplina de patologia cl\u00ednica\/medicina laboratorial no curr\u00edculo do curso de gradua\u00e7\u00e3o m\u00e9dica , entre outras.<\/li>\n<\/ul>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o dos registros eletr\u00f4nicos em sa\u00fade (prontu\u00e1rios eletr\u00f4nicos) representa a grande esperan\u00e7a para se evitar redund\u00e2ncias, dada a possibilidade de f\u00e1cil acesso aos resultados de exames previamente realizados. J\u00e1 h\u00e1 algumas evid\u00eancias de que as iniciativas citadas, se implementadas em conjunto, s\u00e3o mais seguras e efetivas, atendendo \u00e0s necessidades econ\u00f4micas e dos sistemas de sa\u00fade.<\/p>\n<p>O risco do mau gerenciamento na utiliza\u00e7\u00e3o de exames pode levar a outros problemas de qualidade, como a persist\u00eancia de sub-diagn\u00f3sticos (falha na oferta de um exame quando este poderia produzir um resultado favor\u00e1vel para o paciente) e de sub-tratamentos. Para corrigir as distor\u00e7\u00f5es, ao inv\u00e9s da busca de culpados, \u00e9 preciso o engajamento dos m\u00e9dicos para a busca de solu\u00e7\u00f5es que beneficiem os sistemas de sa\u00fade e, ao mesmo tempo, protejam os pacientes. A participa\u00e7\u00e3o de entidades m\u00e9dicas na discuss\u00e3o desse assunto junto ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e ag\u00eancias governamentais, como a Ag\u00eancia Nacional de Sa\u00fade Suplementar (ANS), a exemplo do que j\u00e1 ocorre com a Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Brasileira (AMB), por meio de abordagem baseada em evid\u00eancias cient\u00edficas que representem o estado da arte, \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia para definir o que realmente traz valor e ter\u00e1 impacto positivo \u00e0 assist\u00eancia. A Sociedade Brasileira de Patologia Cl\u00ednica \/ Medicina Laboratorial (SBPC\/ML), como afiliada da AMB e atuante na \u00e1rea da patologia cl\u00ednica e medicina laboratorial, tem consci\u00eancia da import\u00e2ncia da sua participa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se omitir\u00e1 na discuss\u00e3o deste tema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autores: Nairo M. Sumita \u2013 Diretor Cient\u00edfico da Sociedade Brasileira de Patologia Cl\u00ednica\/Medicina Laboratorial \u2013 SBPC\/ML; Wilson Shcolnik \u2013 Diretor [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,2],"tags":[],"class_list":["post-2413","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2413","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2413"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2413\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2414,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2413\/revisions\/2414"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2413"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2413"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2413"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}