{"id":2047,"date":"2016-12-12T09:52:42","date_gmt":"2016-12-12T09:52:42","guid":{"rendered":"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=2047"},"modified":"2019-02-21T10:17:23","modified_gmt":"2019-02-21T10:17:23","slug":"o-poeta-ferreira-gullar-e-a-escolha-de-morrer-em-paz-longe-da-uti","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2016\/12\/o-poeta-ferreira-gullar-e-a-escolha-de-morrer-em-paz-longe-da-uti\/","title":{"rendered":"O poeta Ferreira Gullar e a escolha de morrer em paz, longe da UTI"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-188\" src=\"http:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/artigos_definitivo-300x166.jpg\" alt=\"artigos_definitivo\" width=\"300\" height=\"166\" \/>fonte: Folha de SP<\/p>\n<p>por Claudia Collucci<\/p>\n<p>&#8220;Se voc\u00ea me ama, n\u00e3o deixe fazerem nada comigo. Me deixe ir em paz. Eu quero ir em paz&#8221;. O pedido que o <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2016\/12\/1838326-poeta-ferreira-gullar-morre-aos-86-anos-no-rio.shtml\">poeta e acad\u00eamico Ferreira Gullar<\/a> fez \u00e0 mulher dois dias antes de morrer traduz um desejo que tem se tornado muito comum: o de morrer longe das UTIs e dos tubos de respira\u00e7\u00e3o artificial.<\/p>\n<p>Gullar estava havia 23 dias internado tratando de uma insufici\u00eancia respirat\u00f3ria quando, diante da piora do quadro cl\u00ednico, os m\u00e9dicos propuseram entub\u00e1-lo. Ele recusou essa op\u00e7\u00e3o e pediu \u00e0 mulher, a poeta Claudia Ahimsa, para n\u00e3o sofrer interven\u00e7\u00f5es que prolongassem sua agonia, conforme ela disse em entrevista ao &#8220;Estado de S. Paulo&#8221;.<\/p>\n<p>Por coincid\u00eancia, nesta segunda (5), a m\u00e9dica de fam\u00edlia Carolina Reigada publicou no blog &#8220;Causos cl\u00ednicos &#8211; Hist\u00f3ria da Medicina de Fam\u00edlia e Comumidade&#8221; um relato parecido envolvendo a morte do pai. Ele tinha insufici\u00eancia card\u00edaca e, ap\u00f3s sofrer uma arritmia seguida de desmaio, recebeu indica\u00e7\u00e3o de um marcapasso.<\/p>\n<p>A despeito dos apelos familiares, ele optou por n\u00e3o ser internado e n\u00e3o se submeter a nenhum procedimento. &#8220;Meu pai n\u00e3o estava deprimido. Ele estava consciente da escolha dele. [Tinha] dificuldade de ir \u00e0 esquina encontrar os amigos, depois de descer para cuidar do jardim, depois de enxergar na tela do computador, depois de sair da cama. Meu pai n\u00e3o gostava mais dessa vida limitada que estava tendo&#8221;, diz um trecho do relato de Carolina.<\/p>\n<p>Mais dif\u00edcil do que aceitar uma decis\u00e3o desse n\u00edvel das pessoas que mais amamos \u00e9 se deparar com a falta de sensibilidade de terceiros. No dia da morte, Carolina teve que ouvir do m\u00e9dico que acompanhava o pai: &#8220;Voc\u00eas tinham que ter me procurado antes, ele n\u00e3o precisava ter morrido, \u00e9 uma causa trat\u00e1vel, que desperd\u00edcio!&#8221;.<\/p>\n<p>Desperd\u00edcio. Segundo a defini\u00e7\u00e3o do Houaiss, ato ou efeito de desperdi\u00e7ar; desperdi\u00e7amento; todas as coisas que n\u00e3o se aproveitam. Definitivamente, esse conceito n\u00e3o se aplica \u00e0s escolhas no fim da vida.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s dever\u00edamos ter respeitado o direito de morrer em paz, como quis Gullar e o pai da Carolina. Os m\u00e9dicos deveriam ser os primeiros a fazer valer esse desejo, de se colocar do lugar do paciente, de ter empatia por ele.<\/p>\n<p>O Brasil tem avan\u00e7ado bastante em mat\u00e9ria de cuidados paliativos e de testamento vital, ferramenta por meio da qual podemos manifestar sobre quais tratamentos m\u00e9dicos n\u00e3o queremos ser submetidos no final da vida caso estivermos inaptos a tomar decis\u00f5es diante de uma doen\u00e7a incur\u00e1vel. Mas \u00e9 preciso avan\u00e7ar muito mais.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 gritante o despreparo das equipes m\u00e9dicas sobre como lidar com a morte ou com decis\u00f5es como as mencionadas acima. H\u00e1 cinco meses, vivi essa situa\u00e7\u00e3o na pele. Com um c\u00e2ncer avan\u00e7ado no f\u00edgado, minha m\u00e3e foi internada para manejo da dor e para receber hidrata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Horas depois, o m\u00e9dico plantonista me chamou e disse que a situa\u00e7\u00e3o era muito grave, que provavelmente ela estava em choque s\u00e9ptico e perguntou o desejo da fam\u00edlia: lev\u00e1-la para UTI e entub\u00e1-la ou iniciar os cuidados paliativos, ou seja, iriam hidrat\u00e1-la, cuidar da dor e da infec\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o iniciariam nenhum procedimento para prolongar sua vida.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive d\u00favida alguma em decidir pela segunda alternativa. O maior medo da minha m\u00e3e sempre foi &#8220;ficar doente por muito tempo&#8221;. Um dia antes, t\u00ednhamos conversado sobre isso. Outras vezes, em situa\u00e7\u00f5es que envolveram parentes e conhecidos, ela sempre deixou claro o desejo de morrer longe de uma UTI.<\/p>\n<p>Mas, infelizmente, os cuidados paliativos propostos \u00e0 minha m\u00e3e s\u00f3 ficaram na teoria. Enquanto aguardava a libera\u00e7\u00e3o do quarto, as dores aumentaram. Ela j\u00e1 tinha a prescri\u00e7\u00e3o de morfina, mas o tempo ia passando e nada de chegar a medica\u00e7\u00e3o, apesar dos meus insistentes apelos. Quando chegou, ela j\u00e1 n\u00e3o demonstrava mais dor. Estava caminhando para o fim, embora meus olhos de filha desesperada n\u00e3o tivessem enxergado isso.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos eu, minha irm\u00e3 e meu pai ao lado da cama, fazendo carinhos nela, quando fomos convidados a sair do quarto porque a enfermagem iria trocar a medica\u00e7\u00e3o. Insisti para ficar, o que foi negado. Cinco minutos depois, entrei no quarto e pedi para ficar novamente. A enfermeira pediu para eu sair. Fiquei aos prantos na porta do quarto. Dez minutos depois, algu\u00e9m da equipe passou por mim, colocou as m\u00e3os no meu ombro e disse &#8220;sinto muito&#8221;. A minha amada tinha acabado de morrer.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m sinto muito de ter sido impedida de passar os \u00faltimos minutos ao lado da minha m\u00e3e, de continuar com os carinhos e com as palavras de amor at\u00e9 o \u00faltimo suspiro dela. At\u00e9 hoje me pergunto qual o sentido daquela decis\u00e3o est\u00fapida da equipe de retirar a fam\u00edlia do quarto num momento t\u00e3o crucial. Inabilidade? Inexperi\u00eancia? Insensibilidade?<\/p>\n<p>Fiz queixa \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do hospital, foi prometida a revis\u00e3o dos procedimentos. Espero que isso aconte\u00e7a de fato, que outras fam\u00edlias n\u00e3o precisem passar pelo que passei e que os cuidados paliativos saiam das cartilhas e sejam de fato adotados por toda a equipe m\u00e9dica. Em cada gesto, em cada atitude, \u00e0 beira de cada leito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: Folha de SP por Claudia Collucci &#8220;Se voc\u00ea me ama, n\u00e3o deixe fazerem nada comigo. 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