{"id":15988,"date":"2022-10-10T10:43:38","date_gmt":"2022-10-10T10:43:38","guid":{"rendered":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=15988"},"modified":"2022-10-04T16:11:29","modified_gmt":"2022-10-04T16:11:29","slug":"idoso-demais-para-atuar-na-medicina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2022\/10\/idoso-demais-para-atuar-na-medicina\/","title":{"rendered":"Idoso demais para atuar na medicina?"},"content":{"rendered":"<p>fonte: <a href=\"https:\/\/portugues.medscape.com\/verartigo\/6508456?\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">MedScape<\/a><\/p>\n<p>Na contram\u00e3o de muitas profiss\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 limite de idade para exercer a medicina. De acordo com as normas internacionais, os pilotos de avi\u00e3o, por exemplo, que s\u00e3o respons\u00e1veis pela seguran\u00e7a de muitas vidas humanas, devem se aposentar aos 60 anos caso trabalhem sozinhos ou aos 65 se tiverem um copiloto. No Brasil, por\u00e9m, esse limite et\u00e1rio n\u00e3o existe \u2013 nem para os aeronautas, nem para os m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>A \u00fanica restri\u00e7\u00e3o ao exerc\u00edcio profissional no contexto m\u00e9dico \u00e9 a aposentadoria compuls\u00f3ria imposta aos professores de medicina que lecionam em universidades p\u00fablicas, tanto estaduais como federais, a partir dos 75 anos de idade. Mas, ainda assim, esses profissionais podem continuar exercendo atividades administrativas e de pesquisa. Depois da \u201cexpuls\u00f3ria\u201d, como essa aposentadoria compuls\u00f3ria costuma ser chamada, os professores e professoras que mais se destacaram ou contribu\u00edram para a institui\u00e7\u00e3o e a ci\u00eancia podem receber o t\u00edtulo de professor em\u00e9rito.<\/p>\n<p>No setor privado, os limites et\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o formais, mas inibem a contrata\u00e7\u00e3o de profissionais de meia-idade.<\/p>\n<p>No Instituto do Cora\u00e7\u00e3o do Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (InCor\/HCFMUSP), um dos maiores centros de ensino e pesquisa em doen\u00e7as cardiovasculares e pulmonares do mundo, v\u00e1rios especialistas octogen\u00e1rios lideram estudos e equipes. Um deles \u00e9 o cirurgi\u00e3o cardiovascular Dr. Noedir Stolf, 82 anos, que opera quase todos os dias e coordena estudos sobre transplante, assist\u00eancia circulat\u00f3ria mec\u00e2nica e cirurgia da aorta. Tamb\u00e9m h\u00e1 o cardiologista cl\u00ednico Dr. Prot\u00e1sio Lemos da Luz, com 82 anos, que orienta pesquisas sobre temas como aterosclerose, endot\u00e9lio, microbiota e diabetes (o efeito protetor do vinho na aterosclerose \u00e9 uma de suas pesquisas mais conhecidas).<\/p>\n<p>Parar de trabalhar n\u00e3o\u00a0igualmente est\u00e1 nos planos da Dra. Angelita Habr-Gama, 89 anos, que se destaca entre os m\u00e9dicos mais longevos em franca atua\u00e7\u00e3o. Com mais de sete d\u00e9cadas de carreira, a m\u00e9dica \u00e9 refer\u00eancia mundial em coloproctologia. Foi a primeira mulher aceita como residente de cirurgia no HCFMUSP, onde mais tarde fundou a disciplina de coloproctologia e o primeiro programa de resid\u00eancia na especialidade do HCFMUSP. Em abril de 2022, a Dra. Angelita entrou para o\u00a0<em>ranking<\/em>\u00a0de 100 cientistas mais influentes do mundo, indicado por pesquisadores da\u00a0<em>Stanford University<\/em>, nos Estados Unidos, e publicado no peri\u00f3dico\u00a0<em>PLOS Biology<\/em>.<\/p>\n<p>Em 2020, a m\u00e9dica foi sedada, entubada e internada por 54 dias na unidade de terapia intensiva do Hospital Alem\u00e3o Oswaldo Cruz em fun\u00e7\u00e3o de uma infec\u00e7\u00e3o pelo SARS-CoV-2. Ap\u00f3s a alta, ela n\u00e3o levou mais de 10 dias para voltar ao trabalho \u2013 e ainda acrescentou aulas de xadrez \u00e0 rotina. \u201cLevantar e trabalhar me d\u00e1 muita alegria. O trabalho \u00e9 meu grande\u00a0<em>hobby<\/em>. Nunca, felizmente, ningu\u00e9m me viu lamentar da vida&#8221;, disse a Dra. Angelita ao\u00a0<em>Medscape<\/em>\u00a0em portugu\u00eas, depois de remarcar duas vezes a entrevista por causa de cirurgias de emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cOs m\u00e9dicos podem ter uma longevidade profissional que n\u00e3o se v\u00ea em outras profiss\u00f5es, em que a pessoa se aposenta e se retira da atividade ou vai fazer outra coisa para se entreter. Os m\u00e9dicos podem se aposentar de um v\u00ednculo empregat\u00edcio ou p\u00fablico e continuar desenvolvendo uma atividade m\u00e9dica em consult\u00f3rio, como administrador ou consultor\u201d, disse o Dr. \u00c2ngelo Vattimo, 1\u00ba Secret\u00e1rio do Conselho Regional de Medicina de S\u00e3o Paulo (Cremesp). A entidade costuma organizar uma cerim\u00f4nia para homenagear os profissionais que completaram 50 anos de atividade com a entrega de um certificado e uma medalha gravada. \u201cMuitos est\u00e3o na faixa dos 80 anos, trabalhando e dando aulas. Isso sempre nos enche de alegria. Que profiss\u00e3o tem uma ader\u00eancia t\u00e3o grande e por tanto tempo?\u201d, observou o Dr. \u00c2ngelo.<\/p>\n<p>No meio m\u00e9dico, quanto maior a faixa et\u00e1ria, menor a propor\u00e7\u00e3o de mulheres. De acordo com a pesquisa Demografia M\u00e9dica no Brasil 2020, apenas 2 cada 10 profissionais atuantes ap\u00f3s os 70 anos de idade s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>Nem todo mundo passa dos 80 com a vitalidade da Dra. Angelita, pois o impacto do envelhecimento \u00e9 desigual. &#8220;Se voc\u00ea observar um grupo de pessoas de 80 anos, ver\u00e1 muito mais variedade do que em um grupo de pessoas de 40 anos&#8221;, disse o Dr. Mark Katlic, m\u00e9dico e chefe de cirurgia da\u00a0<em>LifeBridge Health System<\/em>, nos EUA, que dedicou uma d\u00e9cada de sua vida ao estudo do tema. O Dr. Mark falou sobre o assunto em uma entrevista ao\u00a0<em>Medscape<\/em>\u00a0publicada no artigo: \u201c\u00a0<em>How Old Is Too Old to Work as a Doctor?<\/em>\u00a0\u201d, que aprofunda a discuss\u00e3o sobre as avalia\u00e7\u00f5es das habilidades e compet\u00eancias de m\u00e9dicos idosos sendo feitas em empresas estadunidenses. Por l\u00e1, o assunto est\u00e1 em evid\u00eancia e vem provocando intensos debates.<\/p>\n<p>O Dr. Mark defende a exist\u00eancia dos programas de triagem para m\u00e9dicos idosos, algo que j\u00e1 est\u00e1 sendo realizado na empresa para a qual ele trabalha, a\u00a0<em>LifeBridge Health<\/em>, e em v\u00e1rias outras nos EUA. \u201cN\u00f3s fazemos [a triagem em m\u00e9dicos idosos na\u00a0<em>LifeBridge Health<\/em>], assim como algumas dezenas de institui\u00e7\u00f5es [estadunidenses], mas h\u00e1 centenas [de institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade que n\u00e3o realizam essa triagem]&#8221;, ressaltou \u00e0 edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas do\u00a0<em>Medscape<\/em>.<\/p>\n<p>As avalia\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o da idade enfrentam bastante resist\u00eancia nos EUA. Um dos m\u00e9dicos contr\u00e1rios \u00e0 iniciativa \u00e9 o oncologista em atividade Dr. Frank Stockdale, Ph.D., 86 anos, afiliado \u00e0\u00a0<em>Stanford University Health<\/em>. &#8220;\u00c9 discrimina\u00e7\u00e3o et\u00e1ria. (&#8230;) Os m\u00e9dicos [nos EUA] s\u00e3o avaliados ao longo de suas carreiras como parte do processo de acredita\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio mudar isso quando o m\u00e9dico chega a uma certa idade\u201d, afirmou Dr. Frank \u00e0 edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas do\u00a0<em>Medscape<\/em>.<\/p>\n<p>A iniciativa estadunidense de instituir programas de avalia\u00e7\u00e3o para m\u00e9dicos a partir de uma determinada idade foi parar nos tribunais. Segundo o artigo publicado na edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas do\u00a0<em>Medscape<\/em>, &#8220;em Connecticut, a\u00a0<em>US Equal Employment Opportunity Comission<\/em>\u00a0(EEOC) entrou com uma a\u00e7\u00e3o judicial em 2020 em favor de funcion\u00e1rios do\u00a0<em>Hospital Yale New Haven<\/em>, alegando uma pol\u00edtica de carreira tardia feita de modo discriminat\u00f3rio&#8221;.<\/p>\n<p>Ainda de acordo com o artigo, um caso semelhante em Minnesota, tamb\u00e9m nos EUA, chegou a um acordo em 2021, proporcionando compensa\u00e7\u00e3o financeira aos funcion\u00e1rios que precisaram desembolsar recursos pessoais para as avalia\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de exigir que o hospital em quest\u00e3o relatasse ao EEOC quaisquer reclama\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o et\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u00c9 fato que o aumento da expectativa de vida e, consequentemente, da quantidade de m\u00e9dicos que entram na terceira idade no exerc\u00edcio da profiss\u00e3o est\u00e1 trazendo muitos questionamentos sobre o impacto do envelhecimento na atividade profissional. No Brasil, o tema interessa diretamente a mais de 34.571 m\u00e9dicos e m\u00e9dicas entre 65 e 69 anos de idade e a 34.237 de 70 anos ou mais. Ao todo, essa popula\u00e7\u00e3o representa aproximadamente 14,3% da for\u00e7a de trabalho ativa no pa\u00eds, de acordo com a pesquisa Demografia M\u00e9dica no Brasil 2020.<\/p>\n<p>A grande participa\u00e7\u00e3o de profissionais da sa\u00fade com mais de 50 anos em uma\u00a0enquete realizada pelo\u00a0<i>Medscape<\/i>\u00a0para saber o que os m\u00e9dicos pensam sobre o limite de idade para exercer a profiss\u00e3o atesta que o tema \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o presente. De um total de 1641 participantes, 57% t\u00eam 60 anos ou mais, 17% entre 50 e 59 anos, enquanto 12% t\u00eam entre 40 e 49 anos. Dentre todos os participantes, 51% s\u00e3o contr\u00e1rios a essas limita\u00e7\u00f5es, 17% aprovam a ideia para todas as especialidades e 32% acham que a restri\u00e7\u00e3o seria interessante apenas para algumas \u00e1reas. Quanto \u00e0 possibilidade de m\u00e9dicos em idade avan\u00e7ada passarem por avalia\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas, as opini\u00f5es est\u00e3o divididas: 31% acham que devem passar sim, em todas as especialidades. E mais: 31% acham que habilidades cognitivas devem ser testadas periodicamente em todas as especialidades, 31% consideram a possibilidade para algumas especialidades e 38% s\u00e3o contr\u00e1rios a essa abordagem.<\/p>\n<p>Os profissionais querem saber, por exemplo, como (e se) a idade avan\u00e7ada pode interferir no seu desempenho, quais as compet\u00eancias necess\u00e1rias para exercer suas atividades e se os crit\u00e9rios variam de acordo com a especialidade. \u201cUm psiquiatra n\u00e3o precisa ter a acuidade visual perfeita, necess\u00e1ria a um dermatologista, mas \u00e9 imprescind\u00edvel que tenha boa audi\u00e7\u00e3o, por exemplo\u201d, argumentou o Dr. Cl\u00f3vis Constantino, ex-presidente do Conselho Regional de Medicina de S\u00e3o Paulo e ex-vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM). \u201cJ\u00e1 um cirurgi\u00e3o deve ficar em p\u00e9 horas a fio em posi\u00e7\u00f5es que podem ser desconfort\u00e1veis. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil\u201d, disse ele ao\u00a0<em>Medscape<\/em>.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o do Dr. Henrique Klajner, 82 anos, o mais longevo entre os pediatras em atividade no Hospital Israelita Albert Einstein, em S\u00e3o Paulo, o m\u00e9dico n\u00e3o deve ser submetido a avalia\u00e7\u00f5es como as que tem sido feitas nos EUA. \u201cOs m\u00e9dicos precisam se autoavaliar constantemente para saberem se possuem as compet\u00eancias e habilidades necess\u00e1rias para atuar na profiss\u00e3o. (&#8230;) E mais: esta n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de idade, tem a ver com \u00e9tica\u201d, afirmou o pediatra.<\/p>\n<p>A capacidade de se adaptar \u00e0s mudan\u00e7as e acatar inova\u00e7\u00f5es conta pontos para a longevidade profissional, defendeu o especialista. \u201cHoje em dia, quando interno pacientes, eu n\u00e3o fa\u00e7o mais as visitas hospitalares, o que exige uma mobilidade que corresponderia a um abuso f\u00edsico para mim. Ent\u00e3o trabalho com m\u00e9dicos que tomam conta dos meus pacientes internados\u201d, disse o especialista.<\/p>\n<p>O Dr. Henrique tamb\u00e9m sente que h\u00e1 uma dist\u00e2ncia entre as novidades aprendidas em estudos e o que pode ser oferecido com seguran\u00e7a aos pacientes. \u201cSe eu precisar atender um doente internado com pneumonia grave, por exemplo, como n\u00e3o estou atualizado nessa \u00e1rea, vou chamar um pneumologista da minha confian\u00e7a e abdicar dos honor\u00e1rios dessa interna\u00e7\u00e3o. Mas continuarei na equipe acompanhando a evolu\u00e7\u00e3o do paciente\u201d, afirmou o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Durante a pandemia de covid-19, o Dr. Henrique, deixou de atender presencialmente por recomenda\u00e7\u00e3o de seu filho, o m\u00e9dico Dr. Sidney Klajner. Nesse per\u00edodo, o pediatra come\u00e7ou a explorar a telemedicina, o que descortinou um mundo de novas possibilidades. \u201cTenho feito muitas consultas\u00a0<em>on-line<\/em>\u00a0para dar orienta\u00e7\u00f5es educacionais \u00e0s m\u00e3es que voltam para casa depois do parto, por exemplo\u201d, contou ao\u00a0<em>Medscape\u00a0<\/em>em portugu\u00eas. A hora de parar \u00e9 algo que n\u00e3o preocupa o especialista. \u201cEu s\u00f3 vou parar quando realmente tiver um motivo muito importante. Por exemplo, se ficar impedido de escrever e de estudar, lendo e relendo um artigo sem conseguir entender o que est\u00e1 sendo dito. Neste momento, nada disso est\u00e1 acontecendo.\u201d<\/p>\n<p>Tanto nos EUA como no Brasil, os m\u00e9dicos raramente repassam informa\u00e7\u00f5es aos departamentos de recursos humanos sobre colegas com sinais de decl\u00ednio cognitivo ou motor que afetem o desempenho profissional. &#8220;Espera-se que os profissionais da sa\u00fade reportem seus colegas com comprometimentos cognitivos, mas muitas vezes isso n\u00e3o acontece\u201d, disse o Dr. Mark ao\u00a0<em>Medscape<\/em>\u00a0em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 comum que os profissionais informem as pr\u00f3prias fragilidades \u00e0s institui\u00e7\u00f5es. Em grande parte, isso se deve \u00e0 falta de pol\u00edticas bem definidas para lidar com essa quest\u00e3o. O\u00a0<em>Medscape<\/em>\u00a0em portugu\u00eas procurou v\u00e1rios hospitais p\u00fablicos e privados no Brasil para saber se t\u00eam alguma orienta\u00e7\u00e3o relacionada ao tema da longevidade profissional: a maioria respondeu que n\u00e3o. Apenas o\u00a0<em>A. C. Camargo Cancer Center<\/em>\u00a0informou, via assessoria de imprensa, que o tema est\u00e1 sendo discutido em uma comiss\u00e3o, mas que ainda \u00e9 algo incipiente.<\/p>\n<p>As sociedades de especialistas brasileiras n\u00e3o oferecem diretrizes ou orienta\u00e7\u00f5es sobre os v\u00e1rios aspectos da longevidade profissional. O Dr. Cl\u00f3vis tentou colocar o tema em pauta nos anos em que participou da gest\u00e3o do CFM. \u201cQuisemos abrir a discuss\u00e3o sobre o m\u00e9dico realmente idoso, mas n\u00e3o houve nenhum tipo de receptividade. Acredito que, justamente pela tradi\u00e7\u00e3o de os m\u00e9dicos trabalharem at\u00e9 quando der, isso seja mais dif\u00edcil no Brasil. (&#8230;) Ningu\u00e9m sabe exatamente o que fazer a esse respeito\u201d, afirmou ele, que \u00e9 contra o uso da idade como crit\u00e9rio para parar de trabalhar.<\/p>\n<p>\u201cClaro que esse \u00e9 um referencial a ser considerado, mas eu sempre defendi a necessidade de o m\u00e9dico ser periodicamente avaliado, independentemente da faixa et\u00e1ria. E, ainda que as avalia\u00e7\u00f5es sejam sempre bem-vindas, em qualquer profiss\u00e3o, acredito que isso tamb\u00e9m n\u00e3o teria grande receptividade no Brasil.\u201d Ele endossa a avalia\u00e7\u00e3o do conhecimento, e n\u00e3o das habilidades f\u00edsicas, em geral investigadas pela per\u00edcia quando necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de diretrizes aumenta a responsabilidade individual, e tamb\u00e9m a vulnerabilidade. \u201cEm s\u00e3 consci\u00eancia, o m\u00e9dico n\u00e3o vai expor o paciente ao risco se n\u00e3o estiver habilitado a atend\u00ea-lo ou a fazer um procedimento cir\u00fargico\u201d, disse ao\u00a0<em>Medscape<\/em>\u00a0o Dr. Clystenes Odyr Soares Silva, professor adjunto de pneumologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp). \u201cSeus pr\u00f3prios pares dir\u00e3o que ele n\u00e3o tem mais condi\u00e7\u00f5es\u201d, disse o m\u00e9dico. O problema \u00e9 que dificilmente os m\u00e9dicos admitem ou conversam sobre as suas fragilidades com os colegas, principalmente se estiverem na berlinda em decorr\u00eancia da idade mais avan\u00e7ada. Nessa situa\u00e7\u00e3o, a observa\u00e7\u00e3o e a opini\u00e3o dos familiares sobre a compet\u00eancia e as habilidades do profissional da sa\u00fade tamb\u00e9m ganham mais peso.<\/p>\n<p>Em caso de comprometimento f\u00edsico relacionado \u00e0 idade, como a perda parcial dos movimentos da m\u00e3o, por exemplo, \u201c\u00e9 de se esperar que isso ative um freio \u00e9tico na pessoa\u201d, disse o Dr. Cl\u00f3vis. Quando esse freio n\u00e3o ocorre naturalmente, pacientes ou colegas podem denunciar o profissional, e isso pode motivar a abertura de um processo administrativo. Se a den\u00fancia for comprovada, esse instrumento \u00e9 usado para afastar os m\u00e9dicos sem condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e\/ou mentais de continuar exercendo a medicina.<\/p>\n<p>\u201cSe for algo muito s\u00e9rio, o m\u00e9dico pode ter o seu registro temporariamente suspenso, enquanto for tratado por um psiquiatra, com acompanhamento do conselho profissional. Quando receber alta, o m\u00e9dico recuperar\u00e1 seu registro [profissional] e poder\u00e1 voltar a trabalhar\u201d, explicou o Dr. Cl\u00f3vis. Caso seja necess\u00e1ria a avalia\u00e7\u00e3o de um perito, o m\u00e9dico ser\u00e1 ent\u00e3o avaliado por um psiquiatra forense. Um dos psiquiatras forenses mais requisitados do Brasil \u00e9 o Dr. Guido Arturo Palomba, 73 anos. \u201cAvaliei alguns m\u00e9dicos por atos que foram alvo de den\u00fancia para ver se eram pessoas normais ou n\u00e3o, mas nunca por circunst\u00e2ncias relacionadas \u00e0 idade\u201d, disse o perito ao\u00a0<em>Medscape.<\/em><\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, as entidades m\u00e9dicas brasileiras n\u00e3o t\u00eam pol\u00edticas ou programas para orientar os m\u00e9dicos que desejam envelhecer trabalhando na profiss\u00e3o ou aqueles que come\u00e7am a sentir que est\u00e3o performando de um modo diferente. \u201cNunca vivemos tanto e a qualidade de vida no envelhecimento, assim como o conceito de envelhecimento, s\u00e3o algumas das quest\u00f5es mais relevantes da atualidade. S\u00e3o temas que precisam ser mais discutidos para que se amplie a compreens\u00e3o e a conscientiza\u00e7\u00e3o a esse respeito\u201d, observou o Dr. \u00c2ngelo, do Cremesp.<\/p>\n<p>Totalmente contr\u00e1rios \u00e0s avalia\u00e7\u00f5es por idade, os Drs. Cl\u00f3vis e Clystenes acreditam que a revalida\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de especialista a cada cinco anos seja o melhor caminho para verificar se o m\u00e9dico continua apto a exercer a profiss\u00e3o. \u201cJ\u00e1 se falou bastante sobre uma prova de conhecimentos a cada cinco anos para revalidar o t\u00edtulo de especialista. Eu acho uma excelente ideia. A pessoa reuniria tudo o que fez em termos de cursos, congressos e outras atividades, apresentaria e obteria uma pontua\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou o Dr. Clystenes. Na pr\u00e1tica, a recertifica\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de especialista \u00e9 uma discuss\u00e3o que vem sendo feita h\u00e1 anos, e \u00e9 uma bandeira defendida pela Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Brasileira (AMB), que estuda o melhor caminho para a sua implanta\u00e7\u00e3o em conjunto com o CFM. \u201c\u00c9 importante salientar que tal medida, a princ\u00edpio, n\u00e3o teria car\u00e1ter retroativo, sendo solicitada v\u00e1lida apenas para profissionais formados ap\u00f3s a entrada em vigor da recertifica\u00e7\u00e3o\u201d, destacou a AMB em nota enviada ao\u00a0<em>Medscape<\/em>\u00a0em portugu\u00eas. Mesmo assim, a medida enfrenta resist\u00eancia de parte da categoria, e n\u00e3o parece estar pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>O debate sobre a longevidade profissional \u00e9 necess\u00e1rio e est\u00e1 ocorrendo em v\u00e1rios pa\u00edses. Nos EUA, o\u00a0<em>Council of Medical Education\u00a0<\/em>da<em>\u00a0American Medical Association<\/em>\u00a0(AMA) lan\u00e7ou, em 2021, um relat\u00f3rio com\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ama-assn.org\/system\/files\/n21-cme-01.pdf\">um conjunto de diretrizes<\/a>\u00a0para orientar a triagem e avalia\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos. O documento \u00e9 fruto do trabalho de uma comiss\u00e3o criada em 2015 para estudar o assunto. A AMA recomenda que as avalia\u00e7\u00f5es de m\u00e9dicos idosos sejam baseadas em evid\u00eancias e princ\u00edpios \u00e9ticos, relevantes, justas, equ\u00e2nimes, transparentes, verific\u00e1veis, n\u00e3o sejam exaustivas e contemplem apoio e prote\u00e7\u00e3o contra processos jur\u00eddicos. Em abril deste ano, um novo documento da AMA destacou esses princ\u00edpios.<\/p>\n<p>Ainda nos EUA, uma das iniciativas mais antigas para dar suporte aos m\u00e9dicos em processo de reciclagem, o\u00a0<em>UCSD Physician Assessment and Clinical Education Program<\/em>\u00a0(PACE), da\u00a0<em>University of California, San Diego<\/em>, tem um bra\u00e7o cujo foco \u00e9 a pr\u00e1tica da medicina por mais tempo (<em>Practing Medicine Longer<\/em>). Para quem deseja saber mais acerca das discuss\u00f5es sobre esse tema, \u00e9 poss\u00edvel acessar\u00a0apresenta\u00e7\u00f5es\u00a0<em>on<\/em>\u00a0<em>&#8211;<\/em>\u00a0<em>line<\/em>\u00a0sobre as experi\u00eancias de Quebec e Ontario, no Canad\u00e1, de avalia\u00e7\u00e3o do envelhecimento m\u00e9dico, as perspectivas neuropsicol\u00f3gicas da popula\u00e7\u00e3o m\u00e9dica envelhecida e o que esperar do envelhecimento saud\u00e1vel, entre outros temas.<\/p>\n<p>Criado em 1996, o PACE atende, majoritariamente, m\u00e9dicos que precisam responder a um requisito do conselho m\u00e9dico estadual. Pouqu\u00edssimos ingressam por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>A primeira parte do programa consiste em um conjunto de testes e avalia\u00e7\u00f5es de conhecimento e de compet\u00eancia principal por cerca de dois dias. Na segunda fase, o m\u00e9dico participa de atividades de um programa de resid\u00eancia correspondente. Dependendo dos resultados, o profissional pode enfrentar etapas de remedia\u00e7\u00e3o que variam de atividades para tratar defici\u00eancias de desempenho a experi\u00eancias cl\u00ednicas em n\u00edvel de resid\u00eancia.<\/p>\n<p><em>*Reportagem brasileira com informa\u00e7\u00f5es da mat\u00e9ria do Medscape em ingl\u00eas &#8220;How Old Is Too Old to Work as a Doctor?&#8221;.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: MedScape Na contram\u00e3o de muitas profiss\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 limite de idade para exercer a medicina. 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