{"id":12570,"date":"2021-06-21T10:27:57","date_gmt":"2021-06-21T10:27:57","guid":{"rendered":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=12570"},"modified":"2021-06-21T10:27:57","modified_gmt":"2021-06-21T10:27:57","slug":"como-trabalhar-demais-esta-nos-matando-literalmente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2021\/06\/como-trabalhar-demais-esta-nos-matando-literalmente\/","title":{"rendered":"Como trabalhar demais est\u00e1 nos matando (literalmente)"},"content":{"rendered":"<p>fonte: BBC Brasil<\/p>\n<p>Lisa Choi ignorou os primeiros sintomas. Afinal, esta analista de neg\u00f3cios de 53 anos era muito ativa, tinha bom condicionamento f\u00edsico, costumava andar de bicicleta, era vegetariana e evitava comer porcaria. Estava longe de ser uma t\u00edpica v\u00edtima de ataque card\u00edaco.<\/p>\n<p>No entanto, Choi, de Seattle, nos Estados Unidos, trabalhava 60 horas por semana, inclusive \u00e0 noite e nos fins de semana. Tinha que cumprir prazos r\u00edgidos e gerenciar projetos digitais complexos. Essa carga de trabalho era completamente normal para ela. &#8220;Tenho um trabalho muito estressante&#8230; geralmente boto o p\u00e9 no acelerador&#8221;, diz.<\/p>\n<p>S\u00f3 alguns meses atr\u00e1s, quando come\u00e7ou a sentir de repente uma forte press\u00e3o no peito, que ela passou a levar os sintomas mais a s\u00e9rio. No hospital, descobriram que ele tinha uma ruptura em uma art\u00e9ria. Este \u00e9 um um sinal caracter\u00edstico da dissec\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea da art\u00e9ria coron\u00e1ria, uma doen\u00e7a card\u00edaca relativamente rara que afeta principalmente mulheres e pessoas com menos de 50 anos.<\/p>\n<p>Quando disseram que ela precisaria se submeter a uma angioplastia para abrir a art\u00e9ria, Choi pensou: &#8220;N\u00e3o tenho tempo para isso. Tenho transfer\u00eancias programadas no trabalho e estou fazendo todo tipo de coisa&#8221;.<\/p>\n<p>Assim como Choi, muitas pessoas tamb\u00e9m sofrem uma deteriora\u00e7\u00e3o da sa\u00fade devido ao ritmo intenso de trabalho. Uma nova pesquisa \u2014descrita como o primeiro estudo a quantificar o impacto das longas jornadas de trabalho na sa\u00fade\u2014 mostrou como a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 desoladora.<\/p>\n<p>Em artigo publicado no dia 17 de maio, os autores, de institui\u00e7\u00f5es como a OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade) e a OIT (Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho), afirmam que, a cada ano, 750 mil pessoas morrem de doen\u00e7as card\u00edacas isqu\u00eamicas e derrame, devido \u00e0s longas jornadas de trabalho. (A isquemia card\u00edaca, tamb\u00e9m conhecida como doen\u00e7a arterial coronariana, envolve o estreitamento das art\u00e9rias. O que Choi teve \u00e9 diferente da isquemia card\u00edaca comum, mas o estresse e a hipertens\u00e3o s\u00e3o fatores de risco para ambos).<\/p>\n<p>Em outras palavras, mais gente morre de excesso de trabalho do que de mal\u00e1ria. Esta \u00e9 uma crise global, que requer a aten\u00e7\u00e3o tanto de funcion\u00e1rios, quanto de empresas e governos. E se n\u00e3o resolvermos isso, o problema pode n\u00e3o apenas continuar, mas piorar.<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">COMO O EXCESSO DE TRABALHO AFETA A SA\u00daDE<\/h3>\n<p>No estudo, publicado na revista cient\u00edfica Environment International, os pesquisadores analisaram sistematicamente dados de longas jornadas de trabalho, definidas como 55 horas ou mais por semana; seus impactos na sa\u00fade; e as taxas de mortalidade na maioria dos pa\u00edses, entre 2000 e 2016.<\/p>\n<p>Os autores controlaram fatores como g\u00eanero e n\u00edvel socioecon\u00f4mico, para extrair os efeitos genu\u00ednos do excesso de trabalho na sa\u00fade. O estudo constatou que o excesso de trabalho \u00e9 o maior fator de risco para doen\u00e7as ocupacionais, sendo respons\u00e1vel por cerca de um ter\u00e7o da carga total de doen\u00e7as relacionadas ao trabalho.<\/p>\n<p>&#8220;Eu, pessoalmente, como epidemiologista, fiquei extremamente surpreso quando calculamos esses n\u00fameros&#8221;, diz Frank Pega, especialista t\u00e9cnico da OMS e principal autor do artigo. &#8220;Fiquei extremamente surpreso com o tamanho do fardo.&#8221;<\/p>\n<p>Ele descreve os resultados como moderados, embora clinicamente significativos. H\u00e1 duas maneiras principais pelas quais o excesso de trabalho pode reduzir a sa\u00fade e a longevidade. Uma delas \u00e9 o impacto biol\u00f3gico do estresse cr\u00f4nico, com um aumento nos horm\u00f4nios do estresse, levando \u00e0 press\u00e3o arterial e colesterol elevados.<\/p>\n<p>Em seguida, v\u00eam as mudan\u00e7as de comportamento. Essas longas jornadas podem significar dormir pouco, n\u00e3o se exercitar muito, consumir alimentos que n\u00e3o s\u00e3o saud\u00e1veis \u200b\u200be fumar e beber para lidar com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E h\u00e1 motivos espec\u00edficos para nos preocuparmos com o excesso de trabalho, tanto durante a pandemia de Covid-19 quanto na vida que teremos depois. A pandemia intensificou algumas tens\u00f5es laborais, criando novas formas de esgotamento no ambiente de trabalho.<\/p>\n<p>A \u00cdndia se tornou o epicentro da pandemia global, com mais de 25 milh\u00f5es de casos de Covid-19. Mas a pandemia tamb\u00e9m est\u00e1 afetando a sa\u00fade de outras formas.<\/p>\n<p>Sevith Rao, m\u00e9dico e fundador da Associa\u00e7\u00e3o Indiana do Cora\u00e7\u00e3o, explica que as pessoas no sul da \u00c1sia j\u00e1 apresentam alto risco de doen\u00e7a coronariana. Agora, &#8220;com a pandemia de Covid-19, vimos um aumento do home office, o que obscureceu o equil\u00edbrio entre trabalho e vida pessoal para muitos indiv\u00edduos, levando a altera\u00e7\u00f5es nos padr\u00f5es de sono e exerc\u00edcios; isso, por sua vez, aumenta o risco de doen\u00e7as cardiovasculares e derrame&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a pandemia resultou na pior crise econ\u00f4mica desde a Grande Depress\u00e3o. E as recess\u00f5es anteriores foram, na verdade, seguidas por jornadas de trabalho mais longas. &#8220;Parece quase um efeito perverso&#8221;, reconhece Pega, dado o desemprego generalizado durante uma recess\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas &#8220;a realidade parece ser que as pessoas que continuam empregadas precisam trabalhar mais para compensar as perdas de postos de trabalho&#8221;.<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">FOCOS DE EXCESSO DE TRABALHO<\/h3>\n<p>De acordo com os dados do artigo, 9% da popula\u00e7\u00e3o mundial \u2014n\u00famero que inclui crian\u00e7as\u2014 t\u00eam longas jornadas de trabalho. E, desde 2000, o n\u00famero de pessoas que trabalham em excesso vem aumentando. O excesso de trabalho afeta diferentes grupos de trabalhadores de maneiras distintas.<\/p>\n<p>Os homens trabalham mais horas do que as mulheres em todas as faixas et\u00e1rias. O excesso de trabalho atinge seu pico no in\u00edcio da meia-idade, embora os efeitos sobre a sa\u00fade possam se manifestar mais tarde. (Os autores do estudo usaram um per\u00edodo de dez anos de intervalo em rela\u00e7\u00e3o ao aparecimento das doen\u00e7as para rastrear os efeitos do excesso de trabalho; afinal, a &#8220;morte por excesso de trabalho&#8221; n\u00e3o acontece da noite para o dia.)<\/p>\n<p>Os dados tamb\u00e9m mostram que as pessoas no sudeste asi\u00e1tico parecem ter as jornadas mais longas; e na Europa, as mais curtas. Pega explica que pode haver raz\u00f5es culturais para que uma propor\u00e7\u00e3o maior de pessoas na \u00c1sia trabalhe mais horas. Al\u00e9m disso, muita gente trabalha no setor informal em pa\u00edses asi\u00e1ticos de baixa e m\u00e9dia renda.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas na economia informal podem ter que trabalhar mais horas para sobreviver, podem ter v\u00e1rios empregos, podem n\u00e3o estar amparadas pelas leis de prote\u00e7\u00e3o social&#8221;, diz Pega.<\/p>\n<p>Por outro lado, muitos europeus desfrutam de uma cultura de trabalho que preza por longas f\u00e9rias e per\u00edodos significativos de descanso. Essa atitude mais relaxada est\u00e1 consagrada na lei; por exemplo, a diretiva trabalhista da Uni\u00e3o Europeia pro\u00edbe os funcion\u00e1rios de trabalhar mais de 48 horas em m\u00e9dia por semana.<\/p>\n<p>Mas mesmo em alguns pa\u00edses europeus, especialmente fora da Fran\u00e7a e dos pa\u00edses escandinavos, tem havido uma propor\u00e7\u00e3o crescente de trabalhadores altamente qualificados trabalhando longas jornadas desde 1990 (ap\u00f3s o auge do sindicalismo e das prote\u00e7\u00f5es relacionadas aos empregados).<\/p>\n<p>De forma sintom\u00e1tica, o ministro da sa\u00fade da \u00c1ustria renunciou ao cargo em abril, dizendo que havia desenvolvido press\u00e3o alta e altos n\u00edveis de a\u00e7\u00facar no sangue devido ao excesso de trabalho durante a pandemia. Seu an\u00fancio p\u00fablico foi incomum, n\u00e3o apenas por causa de sua posi\u00e7\u00e3o de destaque, mas tamb\u00e9m porque ele foi realmente capaz de deixar seu extenuante trabalho.<\/p>\n<p>De volta a Seattle, Choi tamb\u00e9m teve sorte, j\u00e1 que seus colegas apoiaram sua necessidade de diminuir o ritmo no trabalho. Mas, como nem todo mundo pode se dar ao luxo de trabalhar em hor\u00e1rios mais equilibrados e nem todo mundo vai receber um alerta antes de ter um derrame ou ataque card\u00edaco fatal, h\u00e1 uma necessidade urgente de enfrentar esta crise de sa\u00fade.<\/p>\n<h3 class=\"c-news__subtitle\">COMBATENDO O EXCESSO DE TRABALHO<\/h3>\n<p>Se a tend\u00eancia continuar na mesma dire\u00e7\u00e3o, o excesso de trabalho \u2014e os danos \u00e0 sa\u00fade associados\u2014 s\u00f3 v\u00e3o aumentar. Isso \u00e9 especialmente preocupante, visto como as sociedades glorificam o excesso de trabalho ao ponto do esgotamento.<\/p>\n<p>E, \u00e0 medida que nossa jornada de trabalho aumenta, com poucos sinais de desacelera\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m vai aumentar o n\u00famero de pessoas que sofrem por dedicar horas demais \u00e0 jornada laboral. A responsabilidade de interromper esse ciclo recai sobre os empregadores e funcion\u00e1rios de alguma forma, e todos ter\u00e3o que trabalhar juntos para conter o excesso de trabalho e os problemas subsequentes atrelados a ele.<\/p>\n<p>Em geral, Pega recomenda que os locais de trabalho adotem jornadas flex\u00edveis, divis\u00e3o de trabalho e outras maneiras de equilibrar melhor os hor\u00e1rios. Tamb\u00e9m devem levar a s\u00e9rio os servi\u00e7os de sa\u00fade ocupacional. &#8220;N\u00f3s, da Associa\u00e7\u00e3o Indiana do Cora\u00e7\u00e3o, acreditamos que mais educa\u00e7\u00e3o e mais exames de rotina s\u00e3o essenciais para prevenir doen\u00e7as cardiovasculares e derrame&#8221;, diz Rao.<\/p>\n<p>Obviamente, tamb\u00e9m h\u00e1 um papel que os trabalhadores individuais podem desempenhar na reformula\u00e7\u00e3o de suas atitudes em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho: todos n\u00f3s podemos tentar resistir ao impulso do excesso de trabalho que nos mant\u00e9m grudados em nossos telefones at\u00e9 tarde da noite.<\/p>\n<p>E quanto mais r\u00e1pido os trabalhadores fizerem isso, melhor. Como o excesso de trabalho \u00e9 um risco que se acumula ao longo dos anos, evitar que se torne cr\u00f4nico poderia reduzir a gravidade dos piores riscos para a sa\u00fade (embora n\u00e3o haja evid\u00eancias suficientes de quando o risco deixa de ser de curto prazo e passa a ser cr\u00f4nico).<\/p>\n<p>Mas as mudan\u00e7as mais radicais devem ocorrer a n\u00edvel governamental. &#8220;J\u00e1 temos as solu\u00e7\u00f5es. Temos que instituir limites ao n\u00famero m\u00e1ximo de horas que dever\u00edamos trabalhar&#8221;, diz Pega, como no caso da diretiva trabalhista europeia ou de outras leis sobre o direito de se desconectar.<\/p>\n<p>Em pa\u00edses com leis fortes de limita\u00e7\u00e3o do trabalho, o segredo \u00e9 fazer cumprir e monitorar essas leis. E em pa\u00edses com redes mais fracas de prote\u00e7\u00e3o social, medidas de combate \u00e0 pobreza e programas de bem-estar social podem reduzir o n\u00famero de pessoas que est\u00e3o se matando de trabalhar por pura necessidade.<\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, o problema do excesso de trabalho \u2014e todos os males que ele gera\u2014 vai continuar se n\u00e3o fizermos mudan\u00e7as em nossas vidas profissionais. E mudar n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. &#8220;Podemos fazer alguma coisa&#8221;, insiste Pega. &#8220;Isso vale para todos.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: BBC Brasil Lisa Choi ignorou os primeiros sintomas. Afinal, esta analista de neg\u00f3cios de 53 anos era muito ativa, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-12570","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12570","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12570"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12570\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12572,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12570\/revisions\/12572"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12570"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12570"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12570"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}