{"id":10634,"date":"2020-08-31T18:24:06","date_gmt":"2020-08-31T18:24:06","guid":{"rendered":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=10634"},"modified":"2020-08-31T18:24:06","modified_gmt":"2020-08-31T18:24:06","slug":"inibidores-da-bomba-protonica-ibps-sao-associados-a-risco-aumentado-de-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2020\/08\/inibidores-da-bomba-protonica-ibps-sao-associados-a-risco-aumentado-de-covid-19\/","title":{"rendered":"Inibidores da bomba prot\u00f4nica (IBPs) s\u00e3o associados a risco aumentado de COVID-19?"},"content":{"rendered":"<p>fonte: FBG<\/p>\n<p>Uma investiga\u00e7\u00e3o foi divulgada\u00a0<em>online<\/em>\u00a0(1) sugerindo associa\u00e7\u00e3o dose-dependente do uso de IBPs e a positividade para COVID-19 \u00a0 A seguir s\u00e3o apresentados aos coment\u00e1rios de Kenneth R DeVault (Professor de Medicina, Corpo Editorial \u2013 American College of Gastroenterology).<\/p>\n<p>Os IBPs se tornaram um importante pilar para o tratamento das condi\u00e7\u00f5es \u00e1cido -relacionadas.\u00a0 Inicialmente foram considerados muito seguros, mas diversos estudos foram publicados nos \u00faltimos anos demonstrando associa\u00e7\u00e3o com riscos aumentados para condi\u00e7\u00f5es infecciosas e n\u00e3o-infecciosas, particularmente quando administrados em doses maiores do que as indicadas.\u00a0 O trabalho de Almario (1) \u00e9 a primeira descri\u00e7\u00e3o de risco aumentado de positividade de teste para COVID-19 em usu\u00e1rios de IBPs.<\/p>\n<p>Em investiga\u00e7\u00e3o populacional\u00a0<em>online<\/em>\u00a0conduzida nos E.U.A. em maio e junho de 2020,\u00a0 53.130 adultos referiram que j\u00e1 haviam apresentado sintomas gastrintestinais.\u00a0 Dentre eles, 3386 (6,4%) haviam recebido teste positivo para COVID-19. \u00a0 Um modelo de regress\u00e3o encontrou raz\u00e3o de probabilidade (odds ratio) de 2,15 para ter teste positivo para COVID-19 naqueles sob IBP uma vez ao dia e 3,67 para os usu\u00e1rios de IBP duas vezes ao dia. Tal rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi encontrada em usu\u00e1rios de antagonistas dos receptores da histamina.\u00a0 Vale referir que foram utilizados m\u00e9todos estat\u00edsticos para controlar eventuais fatores de confus\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Coment\u00e1rios(2)<\/strong><\/p>\n<p>Como ocorre em outros casos, tamb\u00e9m neste a associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o necessariamente prova casualidade, embora existam razo\u00e1veis e bastante dados plaus\u00edveis biol\u00f3gicos demonstrando que o pH baixo\u00a0 prejudica a infectividade dos coronavirus.\u00a0 Como devemos reagir medicamente frente a esses dados? Gostaria de manter a conhecida sugest\u00e3o de que maiores\u00a0 doses do IBP (isto \u00e9, doses maiores do que uma vez ao dia) devem ser utilizadas somente em situa\u00e7\u00f5es pouco frequentes em que \u00e9 requerido o efetivo controle de dano \u00e0 mucosa. \u00a0 Em pacientes com refluxo n\u00e3o-complicado a supress\u00e3o \u00e1cida deve ser administrada na menor dose efetiva para o controle satisfat\u00f3rio dos sintomas.<\/p>\n<p>Finalmente,\u00a0 as mudan\u00e7as comportamentais devem\u00a0 \u00a0 ser enfatizadas para auxiliar os pacientes a reduzir a depend\u00eancia nesse tipo de medica\u00e7\u00e3o. \u00a0 Estudos futuros dever\u00e3o suportar ou n\u00e3o a associa\u00e7\u00e3o relatada entre COVID-19 e IBPs, mas as sugest\u00f5es acima s\u00e3o bastante razo\u00e1veis e independentes dos resultados.<\/p>\n<p>1. Almario CV et al. Increased risk of COVID-19 among users of proton pump inhibitors.\u00a0 Am J Gastroenterol 2020. https:\/\/journals.lww.com\/ajg\/Documents\/AJG-20-1811 R1(PUBLISH%20AS%20WEBPART).pdf<\/p>\n<p>2. DeVault KR. NEJM Journal watch.jwatch.org.\u00a0 Acesso 20\/8\/2020.<\/p>\n<p><strong>COVID-19 e sistema digestivo. An\u00e1lise atual<\/strong><\/p>\n<p>Investigadores chineses e da Universidade do Texas, EUA, em trabalho de revis\u00e3o analisam a rela\u00e7\u00e3o entre COVID-19 e o aparelho digestivo com foco nos achados cl\u00ednicos e os mecanismos patog\u00eanicos que acham-se potencialmente envolvidos.<\/p>\n<p>Evid\u00eancias cl\u00ednicas e patol\u00f3gicas<\/p>\n<p>Manifestac\u00f5es digestivas foram descritas entre os pacientes do in\u00edcio da enfermidade em Wuhan, China, como n\u00e1useas ou v\u00f4mitos (41,6%) e diarr\u00e9ia (17,2%). Os pacientes com a forma grave da doen\u00e7a apresentaram incid\u00eancia maior de diarr\u00e9ia, n\u00e1useas e\/ou v\u00f4mitos do que aqueles com a forma mais branda.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o outras situa\u00e7\u00f5es envolvendo o trato digestivo tem sido descritas. Colite hemorr\u00e1gica aguda, por exemplo, pode eventualmente ocorrer em pacientes COVID-19 com desconforto digestivo como sintoma prim\u00e1rio.\u00a0 Aten\u00e7\u00e3o, portanto, aos pacientes que se apresentam ao hospital com sintomas digestivos, especialmente aqueles com hist\u00f3ria de exposi\u00e7\u00e3o epidemiol\u00f3gica.\u00a0 A detec\u00e7\u00e3o positiva de SARS-CoV-2 nas fezes foi um um verdadeiro achado, pois sugeriu que o virus est\u00e1 presente no trato digestivo e a\u00ed pode se replicar.<\/p>\n<p>\u00c9 importante destacar que tamb\u00e9m tem sido descrito que a infec\u00e7\u00e3o por SARS-CoV-2 pode levar \u00e0 inj\u00faria hep\u00e1tica e enzimas e\u00a0 fun\u00e7\u00e3o hep\u00e1tica alterada est\u00e3o positivamente associadas com a gravidade de COVID-19.\u00a0 Quando comparados com pacientes de baixa gravidade, os casos mais graves apresentam n\u00edveis mais elevados de AST,\u00a0 ALT e bilirrubinas totais.\u00a0 Conclui-se que deve ser implementada cuidadosa monitora\u00e7\u00e3o em pacientes COVID-19 com manifesta\u00e7\u00f5es digestivas.\u00a0 Por outro lado, em cerca de 2% dos pacientes infectados foi tambem diagnosticada co-infec\u00e7\u00e3o por hepatite B.<\/p>\n<p>Ao que tudo indica, baseando-se em evid\u00eancias cl\u00ednicas e patol\u00f3gicas, o aparelho digestivo pode servir como rota para a infec\u00e7\u00e3o COVID-19.\u00a0 Assim, mais aten\u00e7\u00e3o deve ser dispensada \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es digestivas dos pacientes infectados, e monitora\u00e7\u00e3o de enzimas hep\u00e1ticas e considerar o rastreamento do SARS-CoV-2 em amostas fecais com o prop\u00f3sito de estabelecer diagn\u00f3stico e monitorar a depura\u00e7\u00e3o viral.<\/p>\n<p>Mecanismos de dano intestinal durante a infec\u00e7\u00e3o COVID-19<\/p>\n<p>O intestino delgado e colon s\u00e3o altamente sens\u00edveis \u00e0 infec\u00e7\u00e3o pelo SARS-CoV-2 em fun\u00e7\u00e3o da elevada express\u00e3o de ACE2 no trato intestinal. \u00a0 O aumento da express\u00e3o dessa mol\u00e9cula prot\u00e9ica, ACE2,\u00a0 na superf\u00edcie da c\u00e9lulas dos pacientes pode elevar a probabilidade de infec\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo influenciar a gravidade da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Outra proposta molecular para explica\u00e7\u00e3o da patog\u00eanese intestinal de COVID-19 \u00e9 que SRS-CoV-2 pode interferir com a absor\u00e7\u00e3o de triptofano,\u00a0 uma vez que esse processo exige ACE2 intestinal para regular a express\u00e3o dos transportadores de amino-\u00e1cidos neutros.<\/p>\n<p>O conceito de \u201ctempestade de citocina\u201d tem sido enfatizado desde o inicio do surto de COVID-19, o qual est\u00e1 associado a uma rea\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria sist\u00eamica e a m\u00faltiplas disfun\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas, incluindo dano ao aparelho digestivo.\u00a0 A desregula\u00e7\u00e3o de citocinas e respostas imunol\u00f3gicas anormais acarreta doen\u00e7a mais grave e \u00f3bito. Express\u00e3o elevada de citocinas relacionadas a T-<em>helper<\/em>-1 foi observada no soro de pacientes COVID-19, incluindo interferon-\u03b3 e outros.<\/p>\n<p><strong>Mecanismos de inj\u00faria hep\u00e1tica durante a infec\u00e7\u00e3o COVID-19<\/strong><\/p>\n<p>Presumivelmente ACE2 desempenha papel vital na patog\u00eanese do dano hep\u00e1tico nos casos de COVID-19.\u00a0 ACE2 \u00e9 um hom\u00f3logo de ACE que possui a capacidade de se contrapor ao efeito vasoconstritor da angiotensina II atrav\u00e9s da degrada\u00e7\u00e3o da Ang II para Ang 1-7, e assim diminuir o efeito hep\u00e1tico danoso provocado pelo sistema renina-angiotensina.<\/p>\n<p>A toxicidade de drogas tem se mostrado como um mecanismo para o dano hep\u00e1tico associado a COVID-19, o que tambem indica que o dano hep\u00e1tico \u00e9 secund\u00e1rio.\u00a0 Na verdade, pouco \u00e9 conhecido sobre a incid\u00eancia de hepatoxicidade dos diversos f\u00e1rmacos utilizados em COVID-19.\u00a0 Esfor\u00e7os devem ser feitos nos pr\u00f3ximos estudos nesse sentido,\u00a0 os quais ser\u00e3o certamente importantes para o desenvolvimento de interven\u00e7\u00f5es menos agressivas e desse modo reduzir os perigos dos efeitos danosos de drogas que induzem hepato-toxicidade para os pacientes.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es digestivas devem ser tratadas com cautela nas fases iniciais de COVID-19, sendo imperativo na pr\u00e1tica cl\u00ednica a monitora\u00e7\u00e3o din\u00e2mica da fun\u00e7\u00e3o hep\u00e1tica e citocinas com o objetivo de reduzir complica\u00e7\u00f5es e mortalidade de COVID-19. \u00a0 Alem disso \u00e9 essencial a detec\u00e7\u00e3o de SARS-CoV-2 em amostras fecais , particularmente em pacientes com sintomas at\u00edpicos, devendo ser realizados quando os pacientes deixam o hospital.\u00a0 A rela\u00e7\u00e3o entre o sistema digestivo e COVID-19 necessita ser melhor analisada em estudos futuros.<\/p>\n<p>Ma C et al. COVID-19 and the Digestive system.\u00a0 Am J Gastroenterol 2020;00:1-4. https:\/\/doi.org\/10.14309\/ajg.0000000000000691<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Joaquim Prado P Moraes-Filho<br \/>\nDiretor Comunica\u00e7\u00e3o \u2013 FBG<br \/>\nProfessor Livre Docente de Gastroenterologia \u2013 Fac Med USP<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: FBG Uma investiga\u00e7\u00e3o foi divulgada\u00a0online\u00a0(1) sugerindo associa\u00e7\u00e3o dose-dependente do uso de IBPs e a positividade para COVID-19 \u00a0 A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10636,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[310,2],"tags":[],"class_list":["post-10634","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-da-agrj","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10634","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10634"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10634\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10637,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10634\/revisions\/10637"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10636"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10634"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10634"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10634"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}