{"id":10395,"date":"2020-07-20T11:01:45","date_gmt":"2020-07-20T11:01:45","guid":{"rendered":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=10395"},"modified":"2020-07-20T11:01:45","modified_gmt":"2020-07-20T11:01:45","slug":"como-a-falta-de-um-sistema-universal-de-saude-prejudicou-a-resposta-americana-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2020\/07\/como-a-falta-de-um-sistema-universal-de-saude-prejudicou-a-resposta-americana-a-pandemia\/","title":{"rendered":"Como a falta de um sistema universal de sa\u00fade prejudicou a resposta americana \u00e0 pandemia"},"content":{"rendered":"<p>fonte: O Globo<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, n\u00e3o h\u00e1 um sistema \u00fanico de sa\u00fade \u2014 isto \u00e9,\u00a0uma rede articulada com um prop\u00f3sito comum\u00a0\u2014, mas sim uma s\u00e9rie de programas estaduais independentes pouco conectados entre si.\u00a0 Cada uma das 50 unidades federativas tem o pr\u00f3prio sistema; dentro deles, o principal operador \u00e9 o mercado, que atua com pouca regula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao longo da pandemia, desvantagens desse modelo ficaram n\u00edtidas. A falta de um \u00f3rg\u00e3o central fez com que a resposta de departamentos estaduais e locais de sa\u00fade variasse. Alguns tinham recursos e se coordenaram com vizinhos, enquanto outros foram titubeantes.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o e abril, governadores e prefeitos concorriam entre si por equipamentos.\u00a0 Em plena emerg\u00eancia, a crise econ\u00f4mica deixava muitos americanos sem plano de sa\u00fade. A\u00a0economia seria retomada em v\u00e1rios lugares\u00a0em maio. No m\u00eas seguinte,\u00a0recordes de casos di\u00e1rios\u00a0foram v\u00e1rias vezes batidos, o que continua a ocorrer.<\/p>\n<p>A falta de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica foi crucial para o cen\u00e1rio desolador atual. O presidente do pa\u00eds, Donald Trump, e alguns governadores\u00a0n\u00e3o agiram com antecipa\u00e7\u00e3o nem lideran\u00e7a.\u00a0A despeito dessas falhas, particularidades do sistema americano de sa\u00fade tornaram o pa\u00eds especialmente vulner\u00e1vel \u00e0 cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>\u2014 Sem d\u00favidas, o principal motivo para haver mais de 140 mil americanos mortos foi a ina\u00e7\u00e3o do presidente e de muitos governadores. O principal problema n\u00e3o \u00e9 nosso sistema de sa\u00fade, mas nossa falta de lideran\u00e7a pol\u00edtica.\u00a0 \u2014 afirmou Jonathan Oberlander, professor de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade da Carolina do Norte em Chapell Hill. \u2014 Mas algumas caracter\u00edsticas dos EUA, como o federalismo, contribu\u00edram para o problema, assim como o fato de que muitos americanos n\u00e3o t\u00eam uma boa cobertura. Tentamos tapar os buracos do sistema, e os resultados foram variados. Nos sa\u00edmos melhor quanto \u00e0 testagem do que quanto a tratamentos.<\/p>\n<p><strong>Problemas da fragmenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Na estrutura federalista da sa\u00fade nos EUA, a maior parte da coordena\u00e7\u00e3o e do financiamento contra a pandemia cabe aos estados. Foram eles que pagaram pela maioria da resposta, incluindo a compra de equipamentos de prote\u00e7\u00e3o e respiradores, o estabelecimento de espa\u00e7os onde indiv\u00edduos infectados fariam quarentena com seguran\u00e7a, os pagamentos a hospitais e o rastreamento de casos.<\/p>\n<p>O governo federal tinha autoridade restrita para centralizar uma resposta, podendo ajudar com recursos e coordena\u00e7\u00e3o. A resposta de Trump, no entanto, foi desigual,\u00a0variando de acordo com suas alian\u00e7as pol\u00edticas.\u00a0Deste modo, a falta de unidade na resposta deixou os estados em apuros para pagar por uma emerg\u00eancia que superava seus or\u00e7amentos.<\/p>\n<p>\u2014 Temos 50 diferentes sistemas de sa\u00fade estaduais, e h\u00e1 diferen\u00e7as tamb\u00e9m entre nossos sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade e nosso sistema de cuidados m\u00e9dicos, que s\u00e3o em geral separados um do outro. Este \u00e9 um pa\u00eds grande que, na melhor das hip\u00f3teses, contar\u00e1 com orienta\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o fortes do governo federal\u00a0 \u2014 afirmou Erin Schneider, vice-presidente de Pol\u00edticas e Pesquisa do Commonwealth Fund. \u2014 Mas isto n\u00e3o est\u00e1 acontece agora. O governo federal tomou uma decis\u00e3o expl\u00edcita de deixar os estados lidarem com o problema.<\/p>\n<p>A fragmenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m prejudica a vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria, aponta Rifat Atun, professor de Sistemas de Sa\u00fade da Universidade Harvard. Os Centros de Controle de Doen\u00e7as (CDC) t\u00eam autoridade limitada, e falta uma ag\u00eancia central para coletar e monitorar dados de nacionais e externos, capaz detectar surtos emergentes e coordenar a preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 um centro de controle centralizado, o que torna muito dif\u00edcil pensar em uma resposta integrada. No Brasil, por exemplo, h\u00e1 um sistema dividido em um n\u00edvel federal, estadual, e municipal, mas eles s\u00e3o integrados. Nos EUA n\u00e3o h\u00e1 isso, o que torna muito dif\u00edcil fazer as pol\u00edticas descerem do topo \u00e0 base. O sistema n\u00e3o funciona como um sistema, e isto era o mais crucial \u2014 afirmou Atun. \u2014 Se um estado est\u00e1 agindo bem, mas outro n\u00e3o, e h\u00e1 pessoas atravessando a fronteira, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 nada que possa ser feito.<\/p>\n<p>Atun aponta ainda que \u201ca fun\u00e7\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica tamb\u00e9m \u00e9 desintegrada do atendimento, e isso dificulta a aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas\u201d. Ao contr\u00e1rio de todos os outros pa\u00edses desenvolvidos do mundo, os Estados Unidos n\u00e3o oferecem cobertura universal a seus cidad\u00e3os \u2014 isto \u00e9, n\u00e3o garantem servi\u00e7os de sa\u00fade de qualidade a toda a sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois grandes programas p\u00fablicos, o Medicare e o Medicaid, nos quais o governo paga o atendimento, respectivamente, de pessoas idosas e o de fam\u00edlias pobres em hospitais privados. De resto, as pessoas devem buscar seus planos no mercado, e o acesso em geral \u00e9 vinculado ao trabalho.<\/p>\n<p>Durante a pandemia, o\u00a0desemprego levou 5,4 milh\u00f5es de pessoas\u00a0a perderem os seus planos de sa\u00fade, de acordo com um estudo lan\u00e7ado na semana passada. Elas se somaram a, segundo dados do Censo de 2018, cerca de 27 milh\u00f5es de pessoas que n\u00e3o tinham planos, e por volta de outros 60 milh\u00f5es que tinham planos ruins, sendo os chamados \u201csubsegurados\u201d.<\/p>\n<p><strong>Contas astron\u00f4nimas<\/strong><\/p>\n<p>Parte das pessoas tamb\u00e9m pode ter tido receio para buscar atendimento, algo refor\u00e7ado pela not\u00f3ria falta de transpar\u00eancia do setor, onde contas astron\u00f4micas s\u00e3o comuns. Embora, em mar\u00e7o, o Congresso tenha aprovado uma legisla\u00e7\u00e3o garantindo testes a quem precisasse, continua a n\u00e3o haver uma lei abrangente para atendimento.<\/p>\n<p>Para os segurados, houve medidas para que a Covid-19 fosse inclu\u00edda nas doen\u00e7as cobertas pela maioria dos planos, mas h\u00e1 programas com franquias, que podem chegar a quantias\u00a0 consider\u00e1veis. O governo federal liberou um fundo de al\u00edvio para aqueles que n\u00e3o t\u00eam seguro, mas a cobertura depende da disponibilidade de fundos. Ademais, segundo Atun, os provedores de servi\u00e7os podem escolher se cobrar\u00e3o dos pacientes ou recorrer\u00e3o ao fundo.<\/p>\n<p>O atendimento prim\u00e1rio tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 forte no pa\u00eds, que depende muito de hospitais regionais. Somando isto ao medo dos custos, muitos pacientes demoram a buscar atendimento.<\/p>\n<p>\u2014 Nosso atendimento prim\u00e1rio \u00e9 fraco, as pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso f\u00e1cil a ele. As pessoas n\u00e3o usam os servi\u00e7os, ou demoram para recorrer a eles. Isto \u00e9 um problema, porque ent\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o se tornou mais s\u00e9ria. Os riscos aumentam, mas tamb\u00e9m os custos \u2014 afirmou Atun.<\/p>\n<p>Oberlander, por sua vez, observa que n\u00e3o \u00e9 claro o que \u00e9 um tratamento para a Covid-19, o que tamb\u00e9m intimida na hora de buscar ajuda:<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 um debate sobre onde come\u00e7a e acaba um tratamento para a Covid-19. Se voc\u00ea ficar na UTI por alguns dias, o quadro pode se tornar cr\u00f4nico, e podem surgir outros problemas que n\u00e3o se poder\u00e1 definir com clareza se s\u00e3o ou n\u00e3o relacionados \u00e0 Covid-19. H\u00e1 pessoas que est\u00e3o tendo grandes quantias cobradas por causa dessas lacunas.<\/p>\n<p><strong>Vantagem da inova\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A vantagem do sistema americano, segundo os pesquisadores, \u00e9 a tecnologia de ponta. O pa\u00eds \u00e9 pr\u00f3digo em termos de inova\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia, diagn\u00f3stico, rem\u00e9dio e vacinas.<\/p>\n<p>Em ano eleitoral, ansioso por dizer que resolveu o problema,\u00a0Trump fez esfor\u00e7os bilion\u00e1rios\u00a0para se aproveitar dessa vantagem e acelerar as pesquisas, incluindo a Opera\u00e7\u00e3o Warp Speed (velocidade de Dobra), que re\u00fane companhias farmac\u00eauticas, ag\u00eancias governamentais e militares, e busca apressar o prazo de conclus\u00e3o de uma vacina para oito meses.<\/p>\n<p>\u2014 Nossa for\u00e7a \u00e9 que temos uma ind\u00fastria biom\u00e9dica e de inova\u00e7\u00e3o com a capacidade de desenvolver novos tratamentos, vacinas e testes. Tendemos a apostar nisso como estrat\u00e9gia para muitos problemas, acreditando que centros de inova\u00e7\u00e3o biom\u00e9dica e universidades, alinhadas com investidores, desenvolver\u00e3o solu\u00e7\u00f5es \u2014 afirmou Schneider. \u2014 Mas n\u00e3o sabemos se alguma dessas coisas vai funcionar, nem quando. Enquanto isso, temos investido muito em pesquisas muito arriscadas.<\/p>\n<p><strong>Os mais vulner\u00e1veis<\/strong><\/p>\n<p>Alguns dos efeitos mais negativos do sistema, por sua vez, podem ser vistos\u00a0 nas popula\u00e7\u00f5es mais afetadas pela pandemia:de acordo com uma pesquisa do New York Times liberada nesta semana,\u00a0\u00a0latinos e negros t\u00eam tr\u00eas vezes mais chances\u00a0de serem infectadas pelo novo coronav\u00edrus que seus vizinhos brancos e duas vezes mais chances de morrer. Em faixas et\u00e1rias mais avan\u00e7adas, a desigualdade \u00e9 ainda maior.<\/p>\n<p>Julia Lynch, cientista pol\u00edtica da Universidade da Pensilv\u00e2nia especializada em pol\u00edtica e sa\u00fade, diz que, embora \u201ca falta de pol\u00edticas coordenadas certamente tenha feito a situa\u00e7\u00e3o pior\u201d, os dados deixam claro tamb\u00e9m que o principal problema da sa\u00fade nos Estados Unidos s\u00e3o \u201cas desigualdades sociais subjacentes\u201d.<\/p>\n<p>A maior parte da popula\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, segundo ela, \u201cest\u00e1 em m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade\u201d, e doen\u00e7as que agravam a Covid-19 como diabetes, obesidade e tuberculose, s\u00e3o comuns. Caso houvesse cobertura universal, ela afirma, estas condi\u00e7\u00f5es poderiam ser um pouco atenuadas. Ainda assim, em sua an\u00e1lise, a principal defici\u00eancia americana em sua resposta foi a fraqueza de sua rede de prote\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s carecemos de programas de prote\u00e7\u00e3o social b\u00e1sica que teriam permitido \u00e0s pessoas ficarem em casa quando o v\u00edrus come\u00e7ou a se disseminar. A aus\u00eancia de programas para aqueles muito vulner\u00e1veis significou que ou eles iriam para o trabalho muitos doentes, ou n\u00e3o teriam dinheiro, e levou a press\u00f5es para a retomada da economia antes de estarmos prontos \u2014 ela afirmou. \u2014 A falta de pol\u00edticas coordenadas certamente fez a situa\u00e7\u00e3o pior. Mas, mesmo se tiv\u00e9ssemos acesso \u00e0 cobertura universal, isso n\u00e3o quer dizer que ter\u00edamos nos sa\u00eddo bem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: O Globo Nos Estados Unidos, n\u00e3o h\u00e1 um sistema \u00fanico de sa\u00fade \u2014 isto \u00e9,\u00a0uma rede articulada com um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10395","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10395","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10395"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10395\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10398,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10395\/revisions\/10398"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10395"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10395"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10395"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}