{"id":10391,"date":"2020-07-20T10:56:54","date_gmt":"2020-07-20T10:56:54","guid":{"rendered":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=10391"},"modified":"2020-07-20T10:56:54","modified_gmt":"2020-07-20T10:56:54","slug":"antes-da-pandemia-o-sus-estava-invisivel-diz-um-dos-criadores-do-sistema-de-saude-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2020\/07\/antes-da-pandemia-o-sus-estava-invisivel-diz-um-dos-criadores-do-sistema-de-saude-publica\/","title":{"rendered":"\u2018Antes da pandemia, o SUS estava invis\u00edvel\u2019, diz um dos criadores do sistema de sa\u00fade p\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p>fonte: O Globo<\/p>\n<p>Em 1986, Nelson Rodrigues dos Santos foi a Bras\u00edlia para participar da hist\u00f3rica 8\u00aa Confer\u00eancia Nacional de Sa\u00fade. Dois anos depois, o que fora discutido no encontro de secret\u00e1rios municipais de todo o pa\u00eds ajudou a formular o projeto do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS), institu\u00eddo pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal em 1988.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico, que foi secret\u00e1rio municipal de Sa\u00fade de Campinas de 1983 a 1988, mudou-se ent\u00e3o de vez para Bras\u00edlia e come\u00e7ou a atuar no Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. L\u00e1 ficou at\u00e9 2005. Hoje, aos 84 anos, o professor aposentado da Unicamp e um dos l\u00edderes da reforma sanit\u00e1ria no pa\u00eds diz que o SUS \u00e9 &#8220;escaldado&#8221;. Para ele, nos 32 anos que se passaram desde a Constitui\u00e7\u00e3o, &#8220;o governo federal sempre puxou o tapete&#8221; e &#8220;nunca cumpriu sua parte no financiamento do sistema&#8221;.<\/p>\n<p>Em entrevista ao GLOBO, ele afirma que o SUS era &#8220;invis\u00edvel&#8221; at\u00e9 a pandemia e sobreviveu gra\u00e7as ao comprometimento dos profissionais de sa\u00fade e aos recursos de estados e munic\u00edpios. Depois da pandemia, completa, &#8220;\u00e9 o momento de o governo finalmente valorizar o SUS&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor avalia o trabalho do SUS durante a pandemia?<\/strong><\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o do SUS na pandemia se d\u00e1 basicamente atrav\u00e9s dos estados e dos munic\u00edpios. O Brasil \u00e9 um dos pouqu\u00edssimos pa\u00edses, ao lado dos Estados Unidos, em que o poder federal n\u00e3o assumiu as suas responsabilidades constitucionais. A lei que criou o SUS reconhece e obriga a igual responsabilidade para o poder federal, para os estados e os munic\u00edpios, numa gest\u00e3o tripartite. No caso da Covid-19, estados e munic\u00edpios pressionaram para que o SUS continuasse funcionando com a articula\u00e7\u00e3o entre as tr\u00eas esferas. Isso aconteceu em certa medida at\u00e9 a sa\u00edda do ministro da Sa\u00fade, Luiz Henrique Mandetta (<em>em abril<\/em>). Antes de o Mandetta ser demitido, a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e o Minist\u00e9rio da Economia j\u00e1 vinham puxando a r\u00e9dea do ministro, e ele, assim mesmo, conseguiu agir. Mas logo caiu, e o governo federal n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um ministro, mas o conjunto. Ent\u00e3o, mesmo com o Mandetta, o governo j\u00e1 agia a 10%. Com a queda dele, isso praticamente zerou.<\/p>\n<p><strong>Sem o comando federal, como ficou a resposta do SUS?<\/strong><\/p>\n<p>A rapidez (<em>de dissemina\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus<\/em>) pegou os governos de todos os pa\u00edses de cal\u00e7a curta. Quando chegou ao Brasil, chegou com mais de um m\u00eas de atraso. O Brasil teve janeiro todo e uma parte de fevereiro para se preparar para o fato de que chegaria r\u00e1pido aqui tamb\u00e9m. O governo federal teve culpa, porque retardou a resposta achando que seria uma gripezinha. Ent\u00e3o, estados e munic\u00edpios tiveram que arrega\u00e7ar as mangas, fizeram das tripas cora\u00e7\u00e3o e se puseram em campo para tentar atender, sem o governo federal, a crise da Covid-19. Os secret\u00e1rios municipais de Sa\u00fade est\u00e3o diretamente relacionados com os secret\u00e1rios estaduais. E a press\u00e3o dos munic\u00edpios sobre o estados foi enorme, e houve uma alian\u00e7a que, nos 30 anos do SUS, nunca tinha acontecido. Muitos munic\u00edpios criaram centrais de atendimento por telefone, criaram n\u00fameros de Whatsapp, para informar a popula\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um trabalho importante, porque voc\u00ea n\u00e3o pode ter salas de espera de ambulat\u00f3rios cheios, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode deixar de atender outras doen\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Essa gest\u00e3o tripartite, com o protagonismo dos munic\u00edpios e estados, permitiu que o SUS funcionasse mesmo sem um comando federal?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Nos 30 anos do SUS, tiveram outros ministros da Sa\u00fade e outros presidentes, que n\u00e3o foram muito bonzinhos, n\u00e3o. O SUS \u00e9 escaldado. Os ministros da Sa\u00fade sempre passaram muito apertado, porque os ministros da Economia nunca viram com bons olhos o SUS, sempre o espremeram e repassaram pouco dinheiro. O governo federal nunca deixou o SUS se desenvolver como est\u00e1 na Constitui\u00e7\u00e3o, mas, de qualquer maneira, nos outros governos se avan\u00e7ou um pouco mais do que agora. O governo atual radicalizou e cortou totalmente a rela\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade com estados e munic\u00edpios. Quanto ao financiamento, o governo federal sempre puxou o tapete e nunca cumpriu a parte dele. O financiamento do SUS s\u00f3 subiu \u00e0s custas principalmente dos munic\u00edpios.<\/p>\n<p><strong>Especialistas dizem que o SUS chegou \u00e0 pandemia enfraquecido. O senhor concorda?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Apesar de estar t\u00e3o enfraquecido por esse hist\u00f3rico de nunca ter sido prioridade do governo federal, tem um outro lado surpreendente. Ainda assim, com todo esse preju\u00edzo e tudo desabando nas costas deles, o que pode ser feito no Brasil contra a Covid \u00e9 \u00e0s custas de grande esfor\u00e7o dos estados e munic\u00edpios. A compra de equipamentos, por exemplo, cairia a um ter\u00e7o do pre\u00e7o se fosse feita em escala, pelo governo federal. Como o governo n\u00e3o queria prestigiar o combate \u00e0 Covid, ele se recusou a fazer essas compras. Ent\u00e3o, os estados e os munic\u00edpios correram para usar o que podiam das permiss\u00f5es legais para importar equipamento \u00e0s pressas, porque o povo estava morrendo. O papel do governo federal \u00e9 fazer uma estrat\u00e9gia combinada com estados e munic\u00edpios.<\/p>\n<p><strong>Que diferen\u00e7a faz ter um sistema p\u00fablico de sa\u00fade, sem um comando federal e sem a devida valoriza\u00e7\u00e3o pelo governo?<\/strong><\/p>\n<p>Depois de 30 anos sendo maltratados pelo governo, n\u00f3s n\u00e3o acredit\u00e1vamos que ia sobrar energia e compet\u00eancia para fazer tanta coisa que est\u00e1 sendo feita. Mesmo assim, os gestores e profissionais arrega\u00e7aram as mangas e foram ajudar a popula\u00e7\u00e3o. Essa solidariedade e essa energia a favor da popula\u00e7\u00e3o surpreendeu todo mundo. De mar\u00e7o para c\u00e1, o Brasil inteiro olhou para o SUS de uma maneira que nunca tinha enxergado antes. Antes da pandemia, o SUS estava invis\u00edvel e se tornou vis\u00edvel agora por causa dessa energia e da solidariedades dos profissionais de sa\u00fade. Quando a pandemia estiver mais controlada, \u00e9 o momento de o SUS passar a ser muito mais respeitado pelas autoridades federais, e de o governo finalmente valorizar e colocar mais dinheiro no SUS.<\/p>\n<p><strong>Numa pesquisa do Datafolha de 2018, 89% dos entrevistados classificaram a sa\u00fade (p\u00fablica ou privada) como p\u00e9ssima, ruim ou regular. O senhor acha que a popula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode passar a valorizar mais o SUS?<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 por causa das famosas filas (<em>de espera nos hospitais e postos de sa\u00fade<\/em>). Esse olhar pode ser mudado. A popula\u00e7\u00e3o tem raz\u00e3o e sofre. A maior parte das consultas demora meses, tem exames que levam at\u00e9 um ano para se conseguir agendar. Isso \u00e9 um sofrimento que n\u00e3o era para estar acontecendo. Se a lei do SUS fosse cumprida, n\u00e3o era para acontecer isso. Acredito que, se a popula\u00e7\u00e3o tiver conhecimento de quem a est\u00e1 atendendo, e isso est\u00e1 come\u00e7ando a acontecer, s\u00f3 ter\u00e1 a agradecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: O Globo Em 1986, Nelson Rodrigues dos Santos foi a Bras\u00edlia para participar da hist\u00f3rica 8\u00aa Confer\u00eancia Nacional de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10391","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10391","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10391"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10391\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10394,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10391\/revisions\/10394"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10391"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10391"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10391"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}