{"id":10363,"date":"2020-07-13T11:41:16","date_gmt":"2020-07-13T11:41:16","guid":{"rendered":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/?p=10363"},"modified":"2020-07-13T11:41:16","modified_gmt":"2020-07-13T11:41:16","slug":"a-enigmatica-mutacao-do-coronavirus-que-agora-domina-o-planeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/2020\/07\/a-enigmatica-mutacao-do-coronavirus-que-agora-domina-o-planeta\/","title":{"rendered":"A enigm\u00e1tica muta\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus que agora domina o planeta"},"content":{"rendered":"<p>fonte: El Pa\u00eds<\/p>\n<p>Os v\u00edrus s\u00e3o simplesmente \u201cm\u00e1s not\u00edcias embrulhadas em prote\u00edna\u201d, segundo\u00a0a c\u00e9lebre defini\u00e7\u00e3o publicada pelos bi\u00f3logos brit\u00e2nicos Jean Shinglewood e Peter Medawar em 1983. As m\u00e1s not\u00edcias do novo\u00a0<b>coronav\u00edrus<\/b>\u00a0est\u00e3o gravadas em seu genoma: um texto de 30.000 letras \u2015 a metade do livro\u00a0<i>O Pequeno Pr\u00edncipe<\/i>, de Antoine de Saint-Exup\u00e9ry \u2015 com instru\u00e7\u00f5es suficientes para penetrar numa c\u00e9lula humana, assumir o seu comando e fabricar milhares de c\u00f3pias de si mesmo. Estas 30.000 letras, que mataram mais de meio milh\u00e3o de pessoas em seis meses, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o as mesmas 30.000 letras que sa\u00edram da cidade chinesa de\u00a0Wuhan. A variante original do v\u00edrus foi substitu\u00edda em praticamente todo o mundo por outra com uma muta\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica.<\/p>\n<p>Na posi\u00e7\u00e3o 23.403 do genoma, uma letra A muda para G. A comunidade cient\u00edfica investiga agora se esta m\u00ednima modifica\u00e7\u00e3o implica uma\u00a0maior facilidade do v\u00edrus para se propagar. Em uma pessoa \u2015 com um genoma muit\u00edssimo maior, de tr\u00eas bilh\u00f5es de letras \u2015 uma mudan\u00e7a em uma s\u00f3 letra pode explicar, por exemplo, o\u00a0albinismo. Ou mesmo uma enfermidade gen\u00e9tica letal. \u00c9 como se um mero erro de digita\u00e7\u00e3o alterasse por completo a hist\u00f3ria d\u2019<i>O Pequeno Pr\u00edncipe<\/i>.<\/p>\n<p>Uma equipe liderada pela bi\u00f3loga norte-americana\u00a0Bette Korber\u00a0observou que a nova variante do coronav\u00edrus, chamada G614, tornou-se dominante na\u00a0pandemia\u00a0aonde chegou. Inclusive nas cidades onde a cepa anterior j\u00e1 estava estabelecida, o G614 acabou se impondo rapidamente depois de aparecer. Em laborat\u00f3rio, os v\u00edrus sint\u00e9ticos que imitam a nova variante se replicam melhor nos cultivos de c\u00e9lulas humanas. Nos hospitais, os dados de quase mil pacientes sugerem que a G614 se multiplica mais na garganta que variante anterior, chamada D614, embora a doen\u00e7a n\u00e3o seja mais grave. Korber, do Laborat\u00f3rio Nacional de Los \u00c1lamos (EUA), acredita que a nova variante tem \u201cuma vantagem adaptativa\u201d. Se j\u00e1 eram m\u00e1s not\u00edcias embrulhadas em prote\u00edna, agora podem ser piores.<\/p>\n<p class=\"\">A mudan\u00e7a de letra se encontra na regi\u00e3o do genoma que cont\u00e9m as instru\u00e7\u00f5es para fabricar as prote\u00ednas da esp\u00edcula do coronav\u00edrus, as protuber\u00e2ncias que lhe d\u00e3o sua inconfund\u00edvel forma de ma\u00e7a medieval e que, al\u00e9m disso, servem de chave para entrar nas c\u00e9lulas humanas. Os alarmes dispararam porque muitas das\u00a0vacinas experimentais\u00a0mais avan\u00e7adas foram desenhadas justamente a partir da esp\u00edcula do v\u00edrus detectado em Wuhan no come\u00e7o da pandemia. Se a prote\u00edna mudar o suficiente, as futuras vacinas poderiam falhar.<\/p>\n<p class=\"\">A veterin\u00e1ria espanhola\u00a0Laura Carrilero\u00a0participa do grupo da Universidade de Sheffield (Reino Unido) que analisou para o novo estudo os genomas do v\u00edrus presentes em 999 pacientes de um hospital local. Seus dados sugerem que as pessoas infectadas com a nova variante t\u00eam uma carrega viral maior. E outra\u00a0pesquisa independente com 800 pacientes de Washington\u00a0aponta na mesma dire\u00e7\u00e3o. \u201cParece que a muta\u00e7\u00e3o beneficia o v\u00edrus. \u00c9 muito importante manter uma vigil\u00e2ncia de sua evolu\u00e7\u00e3o, sobretudo agora que se busca uma vacina que seja efetiva\u201d, explica Carrilero.<\/p>\n<p class=\"\">O bi\u00f3logo\u00a0David Gentil G\u00f3mez\u00a0trabalha na Universidade de Oxford (Reino Unido)\u00a0na vacina experimental mais adiantada.\u00a0\u201cEsta muta\u00e7\u00e3o se encontra fora dos dom\u00ednios onde os anticorpos neutralizariam o v\u00edrus. Nesse sentido n\u00e3o vejo problema\u201d, aponta o pesquisador. \u201cO que \u00e9 alarmante \u00e9 que, se os n\u00edveis do v\u00edrus forem muito mais altos, seria preciso que as vacinas gerassem maiores n\u00edveis de anticorpos. E isso pode ser um grande problema\u201d, adverte.<\/p>\n<p class=\"\">Alguns pesquisadores s\u00e3o muito c\u00e9ticos perante a conclus\u00e3o de que a nova variante \u00e9 mais infecciosa. \u201cOs valores de carga viral s\u00e3o apenas ligeiramente diferentes. O sucesso da muta\u00e7\u00e3o bem poderia ser explicado por ter aparecido justamente quando o coronav\u00edrus estava come\u00e7ando a se espalhar pelo mundo. \u00c9 uma explica\u00e7\u00e3o alternativa que n\u00e3o implica mudan\u00e7as nem na virul\u00eancia nem na transmissibilidade\u201d, reflete\u00a0I\u00f1aki Comas, bi\u00f3logo do CSIC (ag\u00eancia espanhola de pesquisa cient\u00edfica), que codirige um projeto para comparar o\u00a0genoma do coronav\u00edrus\u00a0em pacientes de hospitais de toda a Espanha. \u201cDuvido que o v\u00edrus necessite de muta\u00e7\u00f5es para se tornar mais transmiss\u00edvel, se j\u00e1 vem se espalhando \u00e0 vontade por todo o mundo\u201d, salienta.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10366\" src=\"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/covid_mutacao_2.jpg\" alt=\"\" width=\"1005\" height=\"578\" srcset=\"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/covid_mutacao_2.jpg 1005w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/covid_mutacao_2-300x173.jpg 300w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/covid_mutacao_2-768x442.jpg 768w, https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/covid_mutacao_2-600x345.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1005px) 100vw, 1005px\" \/><\/p>\n<p class=\"\">O geneticista\u00a0Fernando Gonz\u00e1lez Candelas, codiretor do projeto espanhol, explica que sua equipe est\u00e1 rastreando as bases de dados para tentar verificar quantas vezes a muta\u00e7\u00e3o apareceu na\u00a0Espanha\u00a0e se realmente essas linhagens do coronav\u00edrus tiveram mais sucesso. \u201cA muta\u00e7\u00e3o apareceu mais de uma vez, mas s\u00f3 em uma delas aumentou sua frequ\u00eancia at\u00e9 se tornar dominante\u201d, detalha o pesquisador, da funda\u00e7\u00e3o valenciana Fisabio.<\/p>\n<p class=\"\">A atual forma predominante do coronav\u00edrus inclui outras tr\u00eas muta\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 mudan\u00e7a de letra na posi\u00e7\u00e3o 23.403 do genoma. Essa variante foi detectada pela primeira vez em 20 de fevereiro na\u00a0It\u00e1lia. Antes de 1\u00ba de mar\u00e7o, esse tipo constitu\u00eda 10% das cerca de mil sequ\u00eancias gen\u00e9ticas analisadas no mundo. Em mar\u00e7o j\u00e1 alcan\u00e7ava 67% dos 15.000 genomas estudados. E entre em 1\u00ba de abril e 18 de maio j\u00e1 representava quase 80% dos mais de 12.000 v\u00edrus sequenciados nesse per\u00edodo, segundo os dados do novo estudo, publicado na\u00a0revista cient\u00edfica\u00a0<i>Cell<\/i>. A transi\u00e7\u00e3o para a variante G614 come\u00e7ou na Europa e continuou na Am\u00e9rica do Norte, Oceania e \u00c1sia.<\/p>\n<p class=\"\">A hip\u00f3tese da equipe de Bette Korber \u00e9 que o v\u00edrus com muta\u00e7\u00e3o se multiplica mais nas c\u00e9lulas humanas, o que facilita sua transmiss\u00e3o entre as pessoas, mas faltam provas definitivas de seja assim. Em fevereiro, a Europa era a regi\u00e3o com mais casos de Covid, e muitas pessoas infectadas viajaram ent\u00e3o para os EUA, que em mar\u00e7o se tornaria o pa\u00eds mais afetado. \u201cDurante o per\u00edodo em que a G614 se transformou na variante dominante no mundo, o n\u00famero de introdu\u00e7\u00f5es em outros pa\u00edses a partir da China \u2015 onde a variante D614 ainda era dominante \u2015 diminuiu, enquanto que as da Europa aumentaram. Isto por si s\u00f3 poderia explicar o aparente sucesso da G614\u201d,\u00a0argumentam em um coment\u00e1rio independente na revista\u00a0<i>Cell<\/i>\u00a0a virologista\u00a0Angela Rasmussen, o microbi\u00f3logo\u00a0Nathan Grubaugh\u00a0e o epidemiologista\u00a0William Hanage, das universidades norte-americanas Columbia, Yale e Harvard. \u201cEstes dados n\u00e3o demonstram que a variante G614 seja mais infecciosa ou transmiss\u00edvel que a D614. Restam muitas perguntas sem responder sobre o impacto potencial da muta\u00e7\u00e3o na pandemia de covid-19, se \u00e9 que h\u00e1 algum\u201d, concluem os tr\u00eas pesquisadores.<\/p>\n<p class=\"\">\u201cEu me inclino mais por pensar que o v\u00edrus alterou de fato alterou seu comportamento logo depois da muta\u00e7\u00e3o, mas a informa\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 inconclusiva\u201d, opina o virologista colombiano\u00a0Javier Jaimes, que pesquisa\u00a0a esp\u00edcula do coronav\u00edrus\u00a0na Universidade Cornell (EUA). \u201cAinda s\u00e3o necess\u00e1rios estudos onde se possa demonstrar que as pessoas infectadas com o v\u00edrus com muta\u00e7\u00e3o expelem realmente mais part\u00edculas virais infecciosas\u201d, aponta o especialista. O m\u00e9todo utilizado pela equipe de Bette Korber, o j\u00e1 famoso PCR, n\u00e3o \u00e9 o mais adequado para medir a carga viral, como alerta Jaimes. Al\u00e9m disso, salienta, tamb\u00e9m faltam estudos para determinar se uma pessoa infectada com o v\u00edrus com muta\u00e7\u00e3o realmente o transmite de forma mais eficiente a outras pessoas. \u201c\u00c9 preciso acompanhar os casos e compar\u00e1-los com outros em que o v\u00edrus n\u00e3o tenha tido muta\u00e7\u00e3o\u201d, argumenta o virologista. \u201cA quest\u00e3o \u00e9 tratar de diferenciar entre causalidade e coincid\u00eancia.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>fonte: El Pa\u00eds Os v\u00edrus s\u00e3o simplesmente \u201cm\u00e1s not\u00edcias embrulhadas em prote\u00edna\u201d, segundo\u00a0a c\u00e9lebre defini\u00e7\u00e3o publicada pelos bi\u00f3logos brit\u00e2nicos Jean [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10365,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10363","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10363","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10363"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10363\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10367,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10363\/revisions\/10367"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10365"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10363"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10363"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/socgastro.org.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10363"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}